Uma vez ou outra, músicos de rock descobrem sua paixão por sons discretos como parte de excursões solo. Assim fez Dallas Green, membro do quinteto pós-hardcore Alexisonfire. Ao lado da banda, o cantor e guitarrista tem operado seu projeto solo City and Colour, que produziu sete álbuns até agora. Com a nova turnê The Love Still Held Me Near, Dallas está finalmente de volta ao Brasil. É a quarta vez que ele se apresenta em solo carioca, onde fez shows em 2015 e 2016, também com a iniciativa do Queremos!
Dallas Green tinha muito a processar. A morte de duas pessoas importantes, seu primo e o melhor amigo Karl “Horse” Bareham em um acidente de mergulho, além da pandemia do COVID-19, geraram a difícil “crise de meia-idade sob medida”. Era como se ele tivesse perdido tudo de uma só vez. Felizmente, Green pôde recorrer ao City And Colour, onde expressou passagens de luto durante a abertura Meant To Be: “Eu estava perdido em pensamentos, mas o sol continuava a nascer, então, eu fingi estar bem”. Com uma barba brilhante, boina branca e tatuagens características, sua aparência de um tio amigável recebia a multidão com declarações de amor.



Dessa vez, Dallas revelou mais de si em novas texturas, arranjos e paisagens sonoras que não tinham sido muito exploradas nos shows anteriores da banda. A setlist harmoniosa de faixas que vão desde os primeiros dias de Sometimes até If I Should Go Before You e A Pill For Loneliness preparavam um terreno emocional com as sequências Living in Lightning e Northen Blues.
Guiado por uma névoa de vulnerabilidade, o groove pesado em Thirst e faixas clássicas de Little Hell, We Found Each Other in the Dark e Weightless, foram igualmente recebidas com o coro fervoroso do público. Ficou claro que a performance repercutiria, mesmo após o último acorde. Durante um apagão abrupto, a voz do artista ecoou “Estou cansado de todo mundo dizer que sou um cara triste… Só estou cantando sobre o que é real”.



Em meio a conversas paralelas, Dallas Green também deixou claro que Underground seria “uma canção sobre aquele momento e o quanto estar ali significava para ele”, um pouco antes de se aventurar na celestial Astronaut, transformada em uma jam session ampla e chocante.
Num cenário onde o mainstream muitas vezes ocupa o centro das atenções, a interpretação da banda foi uma prova de longevidade. Até recentemente, sua lista de músicos paralelos em turnê tem sido rotativo e o grupo ajudou a elevar seu trabalho. Quando confessou em The Grand Optmist que se sentia como um coringa de todas as jogadas, mas que não é mestre de nenhuma, todos discordaram. O compositor ainda consegue soar íntimo nessas canções, apesar de explorar diferentes territórios.
Foi durante o cover de Nutshell do Alice in Chains, que a atmosfera mudou. O som introvertido de Dallas, homenageando o legado de Layne Staley, proporcionou uma experiência compartilhada de dor, catarse e assombro que ultrapassaram os limites do intérprete e platéia. À medida que a noite chegava ao fim, City and Colour encerrava aos poucos sua apresentação com uma nova sonoridade eletrônica de Bow Down to Love, seguida por Northern Wind e a histórica Comin’ Home.
Sob o palco tomado por instrumentos e amplificadores vintage, quando a banda retornou momentos depois, o bis acústico abriu espaço para os fãs cantarem lado a lado o sucesso Lover Come Back e a despedida grandiosa de Sleeping Sickness. Seu lirismo em conjunto com um mar de admiração, não deixou a última palavra da noite ser ‘adeus’, mas sim ‘até breve’.