Yago Oproprio estreia com OPROPRIO: um disco que reinventa o rap brasileiro com influências latinas

Da Cohab II, Zona Leste de São Paulo, surge Yago Oproprio com OPROPRIO, seu álbum de estreia em parceria com Patricio Sid. Um disco que costura a riqueza da música brasileira com referências sonoras que atravessam a América Latina, criando um ambiente que comporta o íntimo e o universal.

Lançado pela Som Livre, OPROPRIO traz 10 faixas que narram a vida como ela é — mas sob um olhar crítico, onde o cotidiano não é rotina, mas reflexo da lógica capitalista. Trabalho, sacrifício, amor à prova, exaustão. A tentativa de encontrar espaço para si dentro de um sistema que tudo consome.

O boom bap serve como a espinha dorsal do projeto — e talvez seja justamente por isso que Yago se envolveu em confusão ao se definir como “não-rapper”. Mas rótulos importam pouco quando a entrega é incontestável.

O disco chega após anos de lançamentos avulsos e carrega um curta-metragem como extensão de suas narrativas. La Noche, Inofensiva e Jejum formam o audiovisual, com destaque para La Noche, que resgata trecho de La Luna En Tu Mirada, do grupo cubano Los Zafiros. Mais um elemento que reafirma o peso das referências que moldam a identidade musical de Yago.

Desde as primeiras faixas, o álbum deixa claro a que veio. Ele representa um artista da Zona Leste de São Paulo, que tem ânsia de expor as camadas da juventude e suas disputas diárias. Amor e insegurança coexistem com exaustão e desalento. Sentimentos que atravessam não só o indivíduo, mas a coletividade que ele representa.

Que Yago se debruce sobre essas temáticas não é surpresa. Afinal, Racionais MC’s, Jorge Ben Jor e Chico Buarque estão no DNA do projeto. Mas as homenagens não param aí. Fora do Tom carrega ecos de Coisas Que Eu Sei, de Danni Carlos. Catedrais, terceira faixa do disco, dialoga com Canto de Ossanha, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, enquanto questiona a culpa cristã — que impõe peso sobre prazer e desejo, ao mesmo tempo que naturaliza o sacrifício pelo mínimo. E é exatamente aqui que Catedrais, junto a Modus Operandi e Papoulas, forma o tripé do que há de mais contundente no álbum.

OPROPRIO não é uma estreia qualquer. É uma estreia brutal. Mas doce. Densa. Mas acessível. Uma obra que acolhe, mas denuncia. Não é um disco feito para revolucionar a indústria fonográfica — e nem precisa ser. Sua força está em outro lugar: no respeito absoluto às suas referências, no peso melódico e no compromisso inegociável com a verdade do artista.