Foo Fighters: 30 anos de história, discos marcantes e resistência no rock

Dave Grohl no palco com o Foo Fighters durante show comemorativo dos 30 anos da banda

Trinta anos se passaram desde que Dave Grohl, sacudindo a poeira dos escombros do Nirvana, decidiu colocar as próprias ideias em prática. Na música, ele encontrou mais do que um refúgio, e foi assim que nasceu o Foo Fighters: em seus primórdios, um projeto solo, audacioso e completamente improvisado. E, tocando todos os instrumentos, deu o pontapé inicial na história de uma banda que dominaria o cenário do rock ‘n roll não muito tempo depois.

Se alguém dissesse, em 1995, que aquela gravação beirando o improviso seria apenas o início de uma discografia extensa e icônica, talvez nem mesmo Dave acreditasse. Mas foi assim que começou a história do grupo, com um nome que veio de lendas da aviação, de OVNIs e que sempre serviu de escudo para o que o frontman precisava expurgar de dentro de si. Ao longo de 30 anos de história, o Foo Fighters foi capaz de traduzir de forma primorosa o significado de persistir.

Smear, Mendel, Hawkins e Grohl (1997)

Após o primeiro álbum homônimo, The Colour and the Shape (1997) definiu o DNA do conjunto, eternizando músicas como Everlong e My Hero no altar que eles mesmos foram criando ao longo dos anos. E foi também nesse trabalho que Dave reafirmou a própria personalidade musical, afastando-se ligeiramente do grunge para consolidar a banda como um fenômeno. Aquele com certeza não era apenas um projeto paralelo de um ex-baterista famoso.

Dois anos depois, There is Nothing Left to Lose (1999) trouxe canções mais abertas e simples, seguindo a estruturação do básico que funciona: bateria, baixo e guitarra. As poucas camadas trouxeram mais polidez e fluidez em relação ao álbum anterior. Esse, além de ser o favorito de Grohl, é também o trabalho que alavancou a banda de nicho a um status global de sucesso. A atração principal de festivais ao redor do mundo.

A partir dos anos 2000, a banda viveu uma maratona criativa. One by One (2002) e In Your Honor (2005) expandiram a fórmula, testando sonoridades e apostando em contrastes. Foi uma fase em que o Foo Fighters explorou tanto faixas pesadas, para estourar caixas de som e cabeças, quanto baladas introspectivas que mostravam uma veia de Dave que tinha um tom mais confessional.

Echoes, Silence, Patience & Grace (2007) carregou a tocha adiante, com faixas que falavam de recomeços, do passar do tempo, da dor que insiste em nos visitar, temas que faziam sentido não só para Dave, mas para todos que acompanharam a trajetória de alguém que já tinha perdido tudo e, ainda assim, escolhia subir ao palco. A conexão do Foo Fighters com o público cresceu muito nesse período, porque as pessoas viam honestidade, humanidade e, principalmente, entrega.

Essa sequência ditou muito o que o Foo Fighters queria apresentar ao mundo como um cartão de visitas. A alternância entre sons mais agressivos ou mais melódicos criava uma dicotomia afável e complacente a qualquer fã de rock. E o fato da energia das apresentações ao vivo sempre estar impecável também contribuiu para a imagética do grupo de maneira muito positiva.

Mas em 2011, quando lançaram o Wasting Light, parecia até que eles queriam provar para si mesmos que ainda tinham a capacidade de soarem brutos, apesar da qualidade técnica e nitidez sonora se diferenciar muito do primeiro trabalho, por exemplo. Numa gravação analógica na garagem do próprio Dave, o disco consegue resgatar uma rebeldia e, mesmo assim, soar maduro e consciente do próprio tamanho. Foi um ponto alto na discografia, celebrado por público e crítica, e que virou trilha sonora de turnês arrebatadoras.

Além dos adjetivos que vão se repetindo ao longo da carreira, também é impossível falar de Foo Fighters sem mencionar os shows. Desde o início, Dave Grohl entendeu que o ao vivo era o território sagrado para qualquer banda de rock que se preze. E eles sempre entregaram tudo. Três horas de espetáculo, brincadeiras com a plateia, covers inesperados, piadas improvisadas, invasões de fãs – a experiência Foo Fighters no palco se transformou num evento, quase um ritual coletivo, onde gente de todas as idades pode soltar a voz.

A força ao vivo do Foo Fighters ajudou a sustentar a relevância deles ao longo de três décadas. Enquanto muitas bandas dos anos 1990 ficaram para trás, eles se reinventaram sem perder a essência. Mesmo quando tudo pareceu balançar – como na morte de Taylor Hawkins em 2022 – Dave Grohl e o resto da banda conseguiram se reconstruir, mantendo viva a chama de um projeto que sempre falou sobre seguir, mesmo nos piores momentos.

E foi nesse sentimento que nasceu But Here We Are (2023), com um senso absurdo de resiliência, em que o luto de astros do rock foi traduzido em canções dolorosas, mas seguindo um ritmo que apenas o Foo Fighters poderia proporcionar. O álbum abraça a perda e transforma a dor em arte, exatamente como Dave fez desde o primeiro trabalho da banda após o falecimento de Kurt Cobain.

Mais do que álbuns premiados ou números de streaming, o maior legado do Foo Fighters talvez seja a sensação de pertencimento que eles proporcionam. É impossível passar imune a um refrão de Best of You ecoando na voz de dezenas de milhares de pessoas, ou ver Dave esticando as músicas ao vivo só para prolongar a festa. É um tipo de comunhão que vai além do som, uma união que surge pela certeza de que há beleza mesmo em meio ao caos.

De uma fita caseira distribuída manualmente aos palcos monumentais, o Foo Fighters continuam provando, a cada lançamento, que o rock não corre risco de vida, só precisa de pessoas que acreditem nele. E, se os últimos trinta anos foram construídos com suor, perdas, recomeços e muitos hinos, os próximos ainda prometem novos capítulos. Com today’s Song, Dave Grohl e companhia não apenas celebram o passado, eles reafirmam que ainda há muito a dizer, sentir e compartilhar. Porque, no fim das contas, o Foo Fighters nunca foi apenas sobre o que já foi feito. É sobre o que ainda está por vir.