Com uma sólida trajetória de mais de duas décadas, o Gloria consolida-se como uma das bandas mais influentes do cenário emo/metalcore brasileiro. Reconhecida por álbuns que se tornaram referências como Gloria (2009) e (Re)Nascido (2012), o grupo acumula passagens por grandes festivais e apresentações em diversos estados, cultivando uma base de fãs leais que atravessam gerações.
Seu percurso musical se caracteriza por um amadurecimento contínuo, mas sem perder sua identidade. Após a bem-sucedida turnê (Re)Nascido, que celebrou a execução do álbum na íntegra, o Gloria volta aos palcos com o próximo capítulo: a I Wanna Be Tour.
Em entrevista exclusiva à Moodgate, os integrantes detalham as expectativas para esta nova fase, revisitam marcos decisivos de sua carreira e compartilham as referências e inspirações que permeiam seu processo criativo. Leia a seguir os bastidores dessa conversa.

Moodgate: O movimento emo iniciado no Brasil no começo dos anos 2000 trouxe diversas influências culturais. Como foi ter vivido tudo isso e de que forma isso impacta a sonoridade da banda ao longo dos anos?
Peres Kenji (Gloria): Eu creio que ter vivido isso foi algo que, quando a gente olha agora para trás, a gente vê o quão rico de elementos culturais tivemos na época. Era questão de visual, cabelo, roupa, lifestyle. Então, foi algo que eu creio ter sido o último movimento dentro do rock que englobou todos esses elementos. Tanto no visual, na música, no estilo de viver, de levar a vida. Então, foi muito especial ter vivido isso na época. Acredito que as bandas internacionais e nacionais que fizeram parte desse cenário influenciaram completamente o Gloria. Somos essa banda que a gente é hoje por conta disso tudo que vivemos lá atrás.
Mi Vieira (Gloria): Foi muito louco viver essa cena. Ali no início dos anos 2000, era um outro tipo de rolê. Era uma coisa bem simples, querendo ou não, shows no Hangar 110, com ingresso a 10 reais. E aí, quando a gente foi ver, estávamos indo para MTV, nossa música estava tocando na rádio, estávamos fazendo shows emblemáticos pelo Brasil… É uma parada que tem que ter a cabeça pra entender e viver, porque mexe com a cabeça, é muito louco. Aconteceu muita coisa, você imagina, de ter nada certo e chegar até onde chegou. Foi um oceano imenso.
Leandro Ferreira (Gloria): Eu estava vivendo a mesma cena, só que em outro contexto, então tudo isso que o Pérez comentou ali, estava eu acompanhando o Gloria de longe, vendo os caras tatuados, cabeludos. Então era algo que era bem legal, bem simbólico na época, O tempo passou, não tô tatuado, os cabelos foram caindo, mas estamos aí.
Moodgate: Nesse contexto de resgate ao passado, vocês fizeram uma turnê comemorativa do CD Gloria (2009) no ano passado, e esse ano tá rolando a do álbum (Re)nascido (2012). Como foi e como tem sido viajar pelo Brasil tocando um álbum inteiro na íntegra?
Mi Vieira (Gloria): É legal pra caramba, né? No ano passado, com o disco de 2009, foi um outro tipo de galera, né? Porque o disco de 2009, querendo ou não, é um disco mais de emocore. Tem o lance pop muito explícito ali, em músicas como Tudo Outra Vez e Minha Paz, né? E foi legal porque no passado, a gente percorreu quase o Brasil inteiro, e esse ano com o (Re)nascido, que é um disco mais metal, tem muito do metalcore, então ele também traz um outro público que gostou do Gloria naquela época. Você encontra fãs antigos, pessoas que gostavam da banda, que voltam, aparecem. Aí você vê a pessoa com filho, você vê a pessoa trazendo filho para o show.
Moodgate: E para além dessa galera que acompanha vocês da antiga até hoje, vocês têm percebido uma renovação no público do Gloria e em toda a cena na qual a banda está inserida?
Peres Kenji (2009): Com certeza. Todo show a gente vê uma galera nova, uma galera numa faixa etária que na época que a gente estava fazendo esse disco, por exemplo, de 2009, era criança. Ou às vezes ainda não tinha nem nascido, né? Tem um menino que foi no nosso show esses dias que a mãe dele é muito nossa fã e o menino, criancinha, cantando as músicas. Então a gente sempre vê essa renovação assim da galera, que algo que é necessário. Precisamos trazer pessoas novas para gostarem do estilo, para a cena não morrer. Tanto público quanto bandas novas.
Moodgate: A I Wanna Be Tour chega para sua segunda edição, tendo o Gloria no line up. Qual a expectativa de vocês em tocar no festival e o que o público pode esperar do show? Vai rolar uma setlist especial?
Mi Vieira (Gloria): As expectativas, obviamente, são as melhores possíveis, por mais clichê que seja falar isso. E com certeza a gente vai revisitar a história do Gloria, com os maiores sucessos da banda, mas também vamos tocar algumas músicas novas. Vamos trazer o que o evento propõe, principalmente, que é essa parte nostálgica.
Peres Kenji (Gloria): É um grande desafio fazer um repertório para esse show, porque a gente tem muitas músicas que a gente gosta e considera marcantes. Mas eu creio que vai ser o que a gente vai ver fazendo. Nos shows da banda a tentamos colocar um pouco de cada época e apresentar também a fase nova para quem ainda não conhece e para os fãs novos que vieram através dessas músicas novas. Vai ser um show bem completo, que vai representar o que é o Gloria e o que a banda representa para a cena emo.
Moodgate: Ainda sobre o festival, mas agora sob uma outra ótica. o que vocês estão ansiosos para assistir na I Wanna Be Tour?
Leto Ferreira (Gloria): Eu estou muito a fim de ver Fall Out Boy e Story of the Year, e as bandas nacionais também, acho que é muito legal ter com a gente lá o Fake Number, o Fresno, que já teve na edição passada também. Eu tô querendo ver todas as bandas, né?
Peres Kenji (Gloria): Eu quero muito ver o Story of the Year. A gente já tocou com eles há um tempão atrás, mas estou com saudade de ver um show deles. Quero ver Yellowcard também, uma banda que me marcou muito. Estou curioso para ver como é que está o show hoje em dia da Good Charlotte e Fall Out Boy, porque quando eu ouvi era uma banda de pop punk, hardcore melódico, e eles viraram bandas gigantes.
Mi Vieira (Gloria): Eu tô bem empolgado assim pra ver como serão os shows das bandas nacionais como Dead Fish, Forfun e Fake Number. Esse final de semana rolou o festival Emovive, né? E eu acabei indo e encontrei o pessoal do Fake Number, e foi super legal ver que eles estavam extremamente ansiosos, empolgados, falando que vão realizar o sonho de tocar em um estádio. É bonito você ver isso, essa galera realizando sonhos depois de tanto tempo. Além disso, eu quero ver o Neck Deep, que é uma banda que eu não sou extremamente fã, mas eu acho uma banda muito boa.
Moodgate: Assim, vai estar a galera toda reunida, será que rola a chance de alguma participação especial no show de vocês?
Mi Vieira (Gloria): Quem sabe, né? A gente já estava pensando aí em ver se o Lucas (Fresno) participa, cantando o Horizontes. Se der tudo certo, vai rolar sim.
Moodgate: Esse ano vocês lançaram o single Metade. Como tem sido a repercussão desse novo trabalho?
Mi Vieira (Gloria): A galera gostou bastante. É em relação às outras músicas que a gente lançou dessa nova geração, é a balada da banda. Uma música bem profunda, bem tocante, é um som que eu gosto muito e tá sendo uma repercussão boa demais. E isso traz novamente fãs antigos e a gente consegue também mostrar um novo Gloria para os fãs novos.
Moodgate: Pensando no futuro, existe uma projeção de termos um novo álbum de estúdio do Gloria?
Mi Vieira (Gloria): Com certeza, a gente sempre tem. Esse ano ainda estávamos conversando sobre lançar mais três sons novos que já estão gravados. Só que agora o foco é a I Wanna Be Tour, mas ano que vem com certeza vão surgir coisas novas e sons novos do Gloria.
Moodgate: Referente a novos lançamentos na música, o que vocês têm curtido escutar?
Mi Vieira (Gloria): Eu sou um cara que ainda escuto muita coisa antiga, mas também escuto coisas novas. Mas tudo que eu escuto novo é em relação a algumas bandas que eu já escutava. Por exemplo, o novo disco do Ghost, esse disco tá lindo. E tem uma parada que eu ando escutando muito, que o Ca7riel & Paco Amoroso, que não tem nada a ver com rock, são uma dupla da Argentina, só que é algo que me faz bem e acho muito bom. Eu vi o show dos caras no Lollapalooza, se der tudo certo, verei eles de novo esse ano lá na Audio.
Peres Kenji (Gloria): Do nosso nicho tem a Spiritbox, que é muito legal, que traz uma parada nova com a Courtney cantando com vocal feminino. Eu ouço muito Bleed From Within também, que é uma banda da Escócia e uma banda francesa que se chama LANDMVRKS e faz uma mistura bem legal de hardcore com metalcore.
Leto Ferreira (Gloria): Eu tenho ouvido uma banda que se chama Northlane, que tem um som com elementos meio eletrônicos e tem me cativado muito, e a cada álbum que eles lançam é uma parada nova. Tem uma banda da Alemanha também chamada vianova, que é uma parada meio experimental, mas é um metal com metalcore, tem umas brisas doidas deles lá.
Moodgate: Se vocês não fossem uma banda de rock, qual gênero vocês gostariam de tocar?
Mi Vieira (Gloria): Que interessante. Eu acho que eu gostaria de tocar MPB. Eu sou muito fã de MPB, sempre gostei muito da música popular brasileira. Acho que poderia ser isso.
Peres Kenji (Gloria): Eu acho que eu iria pra um lance meio jazz, assim, soul, talvez.
Leto Ferreira (Gloria): Cara, eu vou fugir completamente. Eu acho que eu teria uma banda de reggae. A cozinha ali, baixo e batera, mas é mais por conta disso mesmo, do groove, de uma parada mais assim, eu acho muito massa. E tudo o que envolve, né? Tem bastante metal, tem um monte de instrumento envolvido e isso me cativa bastante.
Moodgate: Dentre as influências que vocês já trouxeram para a sonoridade do Gloria, qual foi a parada mais inusitada?
Peres Kenji (Gloria): Acho que ali em 2009 a gente tinha muito como referência Roupa Nova. A gente tinha muito essa ideia assim do som romântico, da composição, das harmonias que o Roupa Nova fazia, das pratadas que o batera dava. Assim, não diretamente alguma referência sonora, mas a gente olhava e falava que queria fazer alguma coisa tão rica, harmonicamente, como eles. E tem também elementos de música eletrônica com sintetizadores, sons e elementos de rap, de trap.
Moodgate: Para finalizar de um jeito descontraído. Se vocês pudessem levar apenas dois discos e dois filmes para uma ilha deserta, quais seriam?
Peres Kenji (Gloria): Eu vou falar dois discos agora de cabeça, de rock, para ficar nesse tema. O disco do Saosin, que tem o besouro na capa. E o Seasons do Sevendust, que eu acho que são dois discos que eu não pulo nenhuma música. E dois filmes: Kill Bill e Kill Bill 2.
Mi Vieira (Gloria): Dois discos, Bleed American do Jimmy Eat World, que foi um disco que foi muito importante na minha carreira, na estrutura musical da minha vida. E algum disco do Slipknot, pra ir a algo que me influenciou muito também, aquele disco que tem Duality, o The Subliminal Verses. Em termos de filme, acho que o Goonies, que é da minha época, e Forrest Gump, que eu gosto muito. É um filme muito bonito.
Leto Ferreira (Gloria): Cara, de álbum eu tinha pensado em Slipknot também. Acho que quando eu entrei nisso de rock pesado foi a primeira banda que realmente me influenciou. Quando eu vi o Joey Jordison rodando na bateria no DVD de Disasterpiece, eu falei: putz, eu quero isso aí pra mim. E uma outra banda que me pegou muito na época, foi Linkin Park. Eu comecei a ouvir na escola, então tinha a música do pianinho, que era In The End, e todo mundo falava: ah, você já ouviu aquela música do pianinho? E eu fiquei com isso na cabeça. Quanto ao filme, vou ser romântico, levaria 10 Coisas que Eu Odeio em Você e tem um filme que acho legal também que é o Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres, esse é mais de suspense, é muito legal.


