Na primeira parte desta matéria, nós contamos que Bob Geldof ouviu vários ‘’nãos’’, na época em que ele estava convidando artistas para participar do Live Aid. Porém, mesmo assim, o ativista/músico irlandês persistiu no seu objetivo de montar o maior festival beneficente da história e, eventualmente, acabou encontrando dezenas de lendas da música que tinham interesse em participar deste evento.
Para o Live Aid britânico, Geldof conseguiu recrutar Queen, Paul McCartney, U2, David Bowie, The Who, Elton John, Kiki Dee, Wham!, Sting, Phil Collins, Sade, Dire Straits, Brandfor Marsalls, Paul Young, Howard Jones, Alison Moyet, Nik Kershaw, Elvis Costello, Spandau Ballet, Adam Ant, The Style Council, Status Quo, Brian Ferry, David Gilmour, Ultravox e, claro, a sua própria banda The Boomtown Rats.
Porém, a edição americana do Live Aid manteve o mesmo nível de grandiosidade da britânica – trazendo uma programação musical composta por Black Sabbath, Madonna, Mick Jagger, Tina Turner, Daryl Hall & John Oates, Eddie Kendricks, David Ruffin, Bob Dylan, Keith Richards, Ronnie Wood, The Beach Boys, Neil Young, Thompson Twins, Nile Rodgers, Patti Labelle, Duran Duran; Crosby, Stills and Nash; The Power Station, Kenny Logins, Ashford & Simpson, The Cars, Santana, Pat Metheny, Pretenders, Simple Minds, Reo Speedwagon, George Thorogood and The Destroyers, Bo Diddley, Albert Collins, Bryan Adams, Rick Springfield, Judas Priest, Eric Clapton, Phill Collins (único artista que voou de Londres para a Filadélfia, para tocar nas duas edições do festival), Run-DMC, Billy Ocean, Four Tops, The Hooters, Joan Baez, Bernard Watson e, até mesmo, Led Zeppelin (em sua primeira reunião desde a morte de John Bonham).
O anúncio de que essas atrações incríveis iriam se reunir, obviamente, fez com que o Live Aid ganhasse a atenção do mundo inteiro: no dia 13 de julho de 1985, cerca de 82 mil pessoas compareceram presencialmente ao Estádio de Wembley, 99 mil estiveram na plateia do Estádio John F. Kennedy e quase dois bilhões de espectadores assistiram ao festival pela televisão. Como o evento angariava fundos para a Etiópia, não somente através da venda de ingressos, mas também através de doações realizadas em linhas telefônicas que eram divulgadas durante a transmissão dos shows, esse Ibope televisivo absurdo contribuiu para que o Live Aid arrecadasse mais de 245 milhões de dólares para o combate à fome etíope.
Nós decidimos selecionar 5 momentos antológicos que aconteceram durante o Live Aid:
1) O lendário show do Queen
Este momento não poderia ficar de fora da lista: a famosa apresentação do Queen no Live Aid britânico foi a performance musical que mais impulsionou as doações para a Etiópia, durante a transmissão ao vivo do festival na TV. O espetáculo de Freddie Mercury (vocalista), Brian May (guitarrista), Roger Taylor (baterista) e John Deacon (baixista) foi tão arrebatador que, ao longo dos 20 minutos do pocket show, os atendentes que estavam trabalhando nas linhas telefônicas do festival registraram uma média de 300 libras doadas por segundo.
O grande destaque do show foi, sem sombra de dúvidas, a presença hipnótica de Freddie Mercury. Durante toda a apresentação, o saudoso frontman provou que sabia controlar multidões como ninguém.
Como consequência disso tudo, algumas horas após a performance vespertina composta pelos hits Bohemian Rhapsody, Radio Gaga, Hammer to Fall, Crazy Little Thing Called Love, We Will Rock You e We Are The Champions, Freddie Mercury e Brian May ainda retornaram ao palco do Live Aid britânico, para performar a música Is This The World We Created…?, como parte do ‘’grand finale’’ do festival.
O que poucos sabem é que, por incrível que pareça, o Queen quase ficou de fora da lineup do Live Aid: Bob Geldof já admitiu publicamente que, na época do planejamento do evento, ele quase cometeu o erro de não incluir a banda de Freddie Mercury na programação, pois, até então, a opinião dele era de que o Queen ‘’não possuía mais toda a relevância que tinha na década de 1970’’. Porém, o promotor de eventos Harvey Goldsmith acabou convencendo ele a escalar o grupo britânico – e, no dia do Live Aid, Geldof percebeu que o seu pensamento inicial estava totalmente equivocado: o Queen, não apenas seguia relevante, como estava vivendo o maior momento de sua carreira, naquele exato momento.
2) U2: Poucas músicas, mas muito coração
Os membros do U2 foram escalados para tocar no Live Aid britânico e haviam planejado tocar três músicas lá – elas seriam Sunday Bloody Sunday, Bad e Pride (In The Name of Love), nessa exata ordem, e tocar as duas últimas era extremamente importante, pois elas faziam parte do álbum de estúdio que a banda estava divulgando, na época (o The Unforgettable Fire). Porém, durante a canção Bad, o vocalista Bono, subitamente, parou de cantar e deixou apenas o instrumental da música rolando, por minutos.
Nem mesmo os demais membros do U2 pareciam estar entendendo, imediatamente, o que estava acontecendo, mas, depois, ficou claro que tal atitude de Bono ocorreu porque ele viu que, na grade da plateia, havia uma garota gritando desesperadamente por ajuda. Quando o cantor desceu do palco, para ver o que a espectadora queria, ele descobriu que a fã estava passando mal e sendo esmagada pela multidão. O vocalista, então, tirou ela de lá, salvando, assim, a vida dela.
A garota estava visivelmente aliviada, após ser retirada do aperto. Em um gesto bonito de humanidade que repercutiu de forma fenomenal na mídia, Bono, então, abraçou a jovem e ainda tirou ela para dançar, ao som do lindo instrumental de Bad. Só depois disso, ele terminou de cantar os versos restantes da música.
Como a execução de Bad se estendeu bem mais que o planejado, o U2 teve que sair do palco sem tocar Pride (In The Name of Love). Porém, mesmo assim, o show do grupo irlandês foi um dos mais icônicos do Live Aid, pois, nesse dia, Bono mostrou ter consciência de que não basta apenas cantar sobre o amor e a humanidade… é necessário praticar esses valores e colocá-los sempre em primeiro lugar, mesmo que eles custem alguns interesses próprios.
3) Mick Jagger e Tina Turner deram aula de performance
Depois que Daryl Hall e John Oates realizaram um show espetacular no Live Aid americano, ao lado de Eddie Kendricks e David Ruffin (do The Temptations), Mick Jagger pediu que todos eles retornassem ao palco, para participar de todas as músicas do show solo que ele realizaria, logo em seguida. Assim, Hall, Oates, Kendricks e Ruffin fizeram os backing vocals para Jagger, naquela noite.
O lendário frontman dos Rolling Stones entrou no palco cantando Lonely At The Top e Just Another Night (duas músicas de seu então recém-lançado álbum de estreia em carreira solo, She’s The Boss). É claro que a energia contagiante de Jagger foi o suficiente para compensar o fato de que nem todos os fãs conheciam tais canções, mas o clima na plateia só foi realmente pegar fogo a partir do momento em que o cantor puxou o clássico Miss You, dos Stones.
Para fechar o show com chave de ouro, Jagger surpreendeu todos os espectadores, chamando a lendária Tina Turner (que nem estava no cartaz oficial do evento) para cantar State of Shock e It’s Only Rock n’ Roll (But I Like It), ao lado dele. Esse dueto acabou entrando para a história, devido à enorme sintonia performática existente entre Jagger e Tina.
Keith Richards e Ronnie Wood também estavam no Live Aid americano (os dois participariam da performance de Bob Dylan, horas mais tarde), mas nenhum deles participou do show de Jagger. Muitas pessoas acharam esse fato curioso, mas ele aconteceu porque, naquela época, os Rolling Stones viviam, internamente, um período de crise caracterizado por muitas brigas ocorridas entre Jagger e Richards – o que, aliás, foi justamente o que motivou a carreira solo de Jagger, naquele ano.
4) Elton John salvou a noite do Wham! e consagrou George Michael
A dupla Wham! (formada por George Michael e Andrew Ridgeley) havia sido escalada para performar um set autoral no Live Aid britânico, mas, enquanto Elton John estava se apresentando, George e Andrew receberam, nos bastidores, a notícia de que a participação deles teve que ser cortada da programação do evento, devido ao horário de encerramento imposto pela regulação do Wembley (o toque de recolher estava a menos de uma hora de ser extrapolado, então a organização do Live Aid optou por cortar o Wham!, para poder manter o ‘’grand finale’’ do festival – composto pelas performances de Freddie Mercury + Brian May, Paul McCartney e Band Aid, uma atrás da outra).
Esse cancelamento imprevisto, obviamente, gerou frustração em George e Andrew, mas, como Elton John era amigo dos dois e sempre foi um fã declarado do Wham!, o “rocketman” compensou o inconveniente: naquela noite, a dupla acabou subindo ao palco do Live Aid, para participar do show de Elton, cantando o clássico Don’t Let The Sun Go Down On Me (1974).
Como Elton queria dar holofotes ao Wham!, ele se limitou à função de pianista e deixou George Michael e Andrew cuidarem dos vocais. A performance vocal de George, nessa canção, foi tão impressionante que, alguns anos depois, ele e Elton regravaram oficialmente Don’t Let The Sun Go Down On Me – e essa versão com George Michael acabou se tornando ainda mais icônica que a versão original da música.
5) Encerramento de luxo, em Londres e na Filadélfia
Os organizadores do Live Aid queriam que, tanto em Londres quanto na Filadélfia, o festival tivesse um ‘’grand finale’’… e isso, certamente, se concretizou.
No Estádio de Wembley, Paul McCartney foi escalado para cantar o clássico Let It Be, quando o evento estava perto de extrapolar o toque de recolher imposto pela direção do local. A performance do Beatle contou com uma ‘’invasão’’ muito bem-vinda de Bob Gedof, David Bowie, Alison Moyet e Pete Townshend assumindo os backing vocals… mas o melhor ainda estava por vir.
Após o término de Let It Be, todas as dezenas de artistas que ainda estavam nos bastidores de Wembley se juntaram a McCartney, Gedof, Bowie, Moyet e Townshend, para performar, pela primeira vez ao vivo, Do They Know It’s Christmas (música que, como nós contamos na primeira matéria, foi composta por Bob Gedof e Midge Urie meses antes, como a primeira ação dos dois, na ideia de arrecadar fundos para a Etiópia). Esse encerramento não poderia ter sido mais apropriado: foi um encontro histórico onde Paul McCartney, David Bowie, Freddie Mercury, George Michael, Bono, Roger Daltrey, Pete Townshend, Sting, Elton John e várias outras lendas da música mundial se reuniram para cantar a canção beneficente que deu origem ao Live Aid.
Algumas horas depois disso, Lionel Richie encerrou o Live Aid da Filadélfia performando We Are The World, ao lado de todos os outros cantores que ainda estavam no Estádio John F. Kennedy. É vero que vários dos artistas que gravaram a icônica música original não estavam lá (a ausência mais sentida foi, sem dúvidas, a de Michael Jackson, já que o Rei do Pop havia criado a canção, ao lado de Lionel), mas, ainda assim, esse número final foi um encerramento bonito onde a plateia presente pôde assistir Lionel Richie, Harry Belafonte, Patti Labelle, Bob Dylan, Mick Jagger, Dionne Warwick, Eric Clapton, Tina Turner e outros gigantes da música, reunidos em uma mesma apresentação.


