Entrevista: Lucas Silveira revela bastidores do Eu Nunca Fui Embora e celebra 25 anos de Fresno

Lucas Silveira, vocalista da Fresno, em apresentação ao vivo com guitarra e iluminação dramática no palco
Lucas Silveira durante show da turnê Eu Nunca Fui Embora — Foto: Caio Bandeira / Moodgate

Em parceria com o selo musical da Revista Noize, a Fresno lançou uma edição especial em vinil do seu último trabalho Eu Nunca Fui Embora. Conectando estilos musicais que atravessam o pop, o emo e o hardcore, o álbum conta com diversas participações especiais e celebra os mais de 25 anos de estrada da banda.

Para além da música em si, este lançamento promove uma ode ao ato ritualístico de se ouvir um vinil e criar uma ligação intimista com a obra que ali se apresenta. Dos acordes aos vocais, que soam de uma maneira ímpar na vitrola, do disco físico aos brindes promocionais, fazendo com que a experiência seja mais do que auditiva, também seja palpável.

Diante deste cenário, conversamos com o vocalista Lucas Silveira para destrinchar cada detalhe desse lançamento, entender o processo criativo do disco, compartilhar vivências no mundo do vinil e muito mais.

Confira com exclusividade a entrevista completa:

MOODGATE: Com o lançamento do Eu Nunca Fui Embora, um disco que gerou muita expectativa nos fãs, não à toa as listening parties foram um grande fenômeno. Vocês esperavam que tudo fosse ganhar essa proporção e o que motivou essa divulgação tão intensa do novo disco?

LUCAS (FRESNO): Bom, o que motivou a divulgação intensa foi fazer com que as pessoas ouçam um disco novo, né? A gente tem uma porcentagem bem incomum de dentro do nosso público de pessoas que são muito fãs, que são mega fãs, que às vezes são criadores de conteúdo para o público da banda, sabe, essas coisas assim. Então, nada mais justo do que utilizar esse potencial que a gente tem de público para potencializar um lançamento. Outra coisa que a gente tem também que é um pouco diferente do que normalmente acontece com bandas com a idade da Fresno é que o nosso fã gosta de ouvir as novidades da gente. Isso não é a mesma coisa, às vezes, com uma banda que tem 25, 30, 40 anos de história, que a galera meio que liga a banda a um determinado momento da vida delas e não tá muito aberta para ouvir um negócio novo. Às vezes até a própria banda fica já meio cansada, já não lança mais tantos discos, vira um rolê mais de turnês comemorativas e, economicamente, é isso mesmo que tem que ser. Mas, para nós ainda tem uma história que a gente sente que ainda está sendo contada, que a cada disco conseguimos atingir um público novo para somar ao nosso público. E a gente também sente que ainda é possível aprimorar, ainda tem coisa que a gente sente que tem que dizer. E ainda sai muita música, assim, de onde saíram as outras. Então, a gente segue lançando, e Eu Nunca Fui Embora foi isso.

E uma coisa que percebi é que a gente pegou duas grandes mudanças do comportamento de consumo de música. Crescemos ouvindo CD, vinil, cassete, ouvindo rádio, vendo televisão aberta. Passamos por um momento onde começamos a baixar muita música, que foi quando a Fresno entrou. Foi um momento em que conhecemos as bandas através de coisas que a gente baixava e os algoritmos nada mais eram do que pessoas vivas que tinham blogs e sites e que, de fato, formavam opinião. Essa foi a primeira revolução. E, depois, teve uma segunda revolução, que foi quando o streaming veio e esses algoritmos humanos se transformaram em algoritmos de código, que também fazem muitas pessoas conhecerem a banda, conhecerem outras bandas, mas o lançamento do disco perde um pouco a força. Aquela coisa de saber que a gente fazia tarde autógrafos em uma loja e tinham lá mil pessoas. O lançamento fica uma coisa mais difusa. Então, a forma de lançar que a gente encontrou foi a de fazer as festas grandes e festas organizadas por fãs no mundo inteiro. Foi um jeito de se tornar memorável o momento de se ouvir um disco pela primeira vez. Inclusive, isso é algo que a gente pretende explorar cada vez mais. Trazer de volta um pouco da importância de se ouvir uma coisa pela primeira vez.

MOODGATE: Como foi o processo criativo desse disco? E quanto aos convidados? Eles foram algo pensado ou foi algo que foi acontecendo naturalmente conforme as músicas foram sendo feitas?

LUCAS (FRESNO): Os convidados foram acontecendo muito naturalmente. Tanto que hoje, olhando pra trás, eu percebo que esse disco tem muita participação. Normalmente, um álbum novo vai ter uma ou duas músicas com participação, mas nesse, eu acho que a gente estava num momento de volta da pandemia, socializando muito, fazendo muitos festivais, então encontramos muita gente que não víamos há muito tempo. Por exemplo, a música que tem com o NX Zero, foi porque o NX Zero naquele momento estava de volta, por isso pensamos em fazer uma música juntos. Com o Dead Fish foi a mesma coisa. Aí surgiu, aos 45 do segundo tempo, uma música que precisava de uma voz feminina para trazer um outro lado da história que eu estava contando no disco. Então, chamamos a Catto. O lance do Chitãozinho & Xororó, já tinha saído a faixa “Camadas”, mas aí, nos juntamos com eles para fazer algumas outras coisas durante o ano e eu falei: “Vocês cantariam essa música aqui pra gente lançar no Deluxe?”. E aí, eles gravaram.

MOODGATE: E como foi produzir o encerramento da trilogia de Diga?

LUCAS (FRESNO): Tem algumas músicas que eu guardo num banco, porque eu simplesmente não encontrei uma parte que faltava, ou ela ainda não me convenceu. Eu estava escrevendo coisas há mais de 10 anos desse jeito. Tinha alguma coisinha guardada que não dava nem para lançar, porque era de fato um pedaço. E aí, às vezes, eu revisitava tudo isso. Uma vez, revisitei esse banco e achei esse pedaço de música que era da época do Sinfonia de Tudo que Há (2016), e aí vieram as ideias e eu consegui terminar essa música.

Com o tempo percebi que, em toda história de fim de relacionamento, você pergunta para uma parte uma coisa, ele vai dizer uma resposta; pergunta para outra parte, ele vai dizer outra. Então, achei que seria legal dividir ela em três partes. E essa música tem um fator de novela muito forte. Eu pensei em trazer outro olhar sobre a mesma situação. Porque se pegar o Diga Parte 1, é o cara se apaixonando e juras de amor. Parte 2: alguma coisa aconteceu, houve uma decepção muito grande, e o cara não quer mais ver essa pessoa. E o 3 é o cara com aquela raiva já passada, talvez nem sabendo se quer voltar ou se só está com saudade. E aí, a outra pessoa, que foi escorraçada de casa, fala: ‘Não, mano, tá tudo certo, fica aí… agora acabou mesmo’. Sabe, uma coisa que acontece em relacionamento é que, quando a coisa passa certos limites… quando está tudo bem, mesmo brigando, tem coisas que a gente não fala, que a gente não faz. Mas às vezes a vida provoca que a gente diga coisas. E a música fala sobre ‘dizer’. Chama-se Diga, inclusive.

MOODGATE: Bom, agora falando sobre novidades: como surgiu a parceria com a Noize e como foi lançar um vinil nesse formato especial?

LUCAS (FRESNO): Cara, a Noize eu personalizo muito na figura do Rafa Rocha, um dos fundadores. O Rafa é um brother nosso de Porto Alegre, com pelo menos 20 e poucos anos de amizade, nos conhecemos na cena do hardcore de Porto Alegre. Ele tinha uma banda, a gente tinha outra; ele foi montando outras bandas, a gente sempre em contato. É uma amizade de muito tempo. Desde que surgiu o Record Club, eu falava para ele: “Cara, vamos fazer uns vinis da Fresno aí“. E percebemos que o gosto por vinil do nosso público vem crescendo. Eu já adotei o vinil há muitos anos, nem ouço tanto no dia a dia, mas compro. Aí tem momentos: ‘Ah, vou mostrar para os brothers’, ou um domingo sozinho que quero ouvir algo, acabo botando vinil. É outra experiência. Eu deveria ouvir mais. Mas me lembro quando fizemos o vinil do Infinito (2012), lançado em vinil em 2016. Demorou muito para vender. Fizemos mil cópias, fomos loucos, vendemos uns 200, 300 e o resto encalhou, estava saindo por 50 reais para zerar o estoque. E hoje, se procura no Mercado Livre “Fresno vinil Infinito”, os caras pedem mil reais. O vinil virou um item importante. Percebemos quando lançamos o vinil do Vou Ter Que Me Virar (2021), esgotou na hora. Agora, relançando Ciano (2006) e Sua Alegria Foi Cancelada (2019), saíram voando. Acredito que com Eu Nunca Fui Embora e a Noize será igual. Por eles serem especialistas, tem um cuidado especial, o disco vem cheio de bônus, fanzine, adesivo, patch, itens colecionáveis.

MOODGATE: Um disco de vinil que você ache especial para se ouvir neste formato?

LUCAS (FRESNO): Sem sombra de dúvida, pelo menos para mim. Quando o Radiohead lançou o Kid A (2000), eu estava no terceiro ano. Gostava das músicas normais deles, tipo Karma Police. Mas, lembro de ouvir o Kid A e pensar: ‘Cara, eu gostei, mas não consigo entender o que é, de onde vem’. Foi uma ruptura grande do OK Computer  (1997), que já é um disco bem doido, para o Kid A, que tem músicas muito abstratas. Você tem que ouvir de outro jeito, é uma outra coisa. Um disco sobre sensações sem explicitar, muito enigmático. Quando comprei um som de vinil, fui a uma loja e o cara me convenceu a comprar o Kid A. Botei alto no meu som, ouvi em vinil, e foi avassalador. Soa muito diferente no vinil, é muito quente, é foda. Você entra mesmo. É um disco que faz diferença enorme no vinil.

MOODGATE: Além da turnê do Nunca Fui Embora em andamento, vocês têm shows na I Wanna Be Tour. O que os fãs podem esperar, e como é voltar ao festival pela segunda vez?

LUCAS (FRESNO): Bom, festival grande. É de um segmento muito nosso, nos sentimos dentro daquele rolê. Sentimos que temos um tamanho grande ali, e é massa fazer parte disso na segunda edição. Tem bandas que gostamos bastante. É um show de grandes proporções, estádio, festival, traz gente que normalmente não vai aos nossos shows, então é uma oportunidade de conquistar essa galera. Vai ser um show da turnê do Nunca Fui Embora com uma ou outra surpresa. Como é um ambiente de estádio, algo maior, vamos chegar com força máxima.