Eles voltaram. Depois de quase cinco anos de silêncio, exatos 4 anos e 11 meses, o Deftones retorna com um álbum que já nasce carregado de expectativas. Lembro como se fosse ontem de ouvir o Ohms em 2020, em casa, em plena pandemia. De lá para cá, muita coisa mudou: o mundo, a rotina, e até a forma como a banda se conecta com novas gerações.
Nos últimos anos, o Deftones experimentou um renascimento inesperado de popularidade. Parte desse fenômeno se deve ao TikTok, que apresentou a sonoridade da banda a uma nova geração de ouvintes. Tal como a MTV em outras épocas, a plataforma transformou músicas antigas em hinos atuais, sem que o grupo precisasse se render a trends ou criar conteúdo direcionado. Esse alcance orgânico não só atesta a autencidade da banda, mas também mostra o quão eficiente é sua música em transcender gerações de ouvintes.
O novo álbum começa com um ataque bem forte na faixa de abertura, My Mind Is a Mountain. Abe Cunningham, Stephen Carpenter e o novo baixista Fred Sablan (ex-Marilyn Manson) despejam peso em um flerte com o Meshuggah, até que Chino Moreno suaviza com sua voz única, criando o contraste perfeito. É uma música que soa familiar para novos ouvintes e reconfortante para fãs de longa data.
Embora eu não tenha sido imediatamente conquistado pelo uso do sample, entendi a escolha no contexto do álbum. A sensação é parecida com Ohms, que se revelou muito superior aos singles. Aqui, Locked Club cumpre esse papel, com guitarras cristalinas de Stephen e vocais semi-falados de Chino. O resultado é intensificado pelo retorno do produtor Nick Raskulinecz, o mesmo que ajudou a moldar clássicos como Diamond Eyes e Koi No Yokan.
Logo em seguida, ecdysis traz o riff mais próximo da era Adrenaline, mas com uma introdução sofisticada de Frank Delgado e Sablan. O refrão gruda na mente de forma quase instantânea. Já infinite source é um dos momentos mais comentados, abordando a morte como um espetáculo, o que levou parte dos fãs no Reddit a especular que este seria o último disco da banda. Talvez seja exagero, já que o grupo não soava tão vivo há anos.
Aliás, o álbum explora constantemente temas como morte, espaço, ar, água e fogo. Brutalidade e esoterismo caminham lado a lado, resultando em algo romântico e intenso, uma fórmula que parece dialogar perfeitamente com a nova geração.
Faixas como Souvenir e cXz são puro Deftones, enquanto I think about you all the time surge como herdeira direta de Sextape. Trata-se de uma balada com forte influência dos Smashing Pumpkins, lembrando também Bodies de Billy Corgan. Ao contrário do primeiro single, Milk of the Madonna foi uma escolha acertada para representar o álbum: uma das faixas mais marcantes e emocionantes.
O desfecho é, sem dúvida, a parte mais memorável. O trio formado por Cut Hand S, Metal Dream e Departing the Body é simplesmente devastador. A primeira traz um Chino num quase Rap, seguido pelo refrão mais acessível do disco. A segunda soa como extensão natural da anterior, enquanto a última entrega um encerramento grandioso. Aqui, Moreno surpreende ao usar um registro vocal grave raramente explorado. O resultado é espetacular, digno dos melhores finais da discografia da banda.
O novo álbum do Deftones não deixa espaço para dúvidas: é uma obra que reafirma porque a banda é tão essencial no rock moderno. Com mais de três décadas de trajetória, eles ainda encontram maneiras de soar relevantes, intensos e, ao mesmo tempo, surpreendentes.
Este trabalho é a prova de que o grupo não vive apenas da nostalgia de clássicos passados. Pelo contrário, continua expandindo sua sonoridade e dialogando com diferentes gerações, sem perder a identidade. É um álbum para fãs antigos, mas também uma porta de entrada perfeita para quem está descobrindo a banda agora.



