Tame Impala – Deadbeat

Capa de Deadbeat, novo álbum do Tame Impala (2025)
Capa de Deadbeat (2025), novo álbum do Tame Impala
6

Muito se falou nos meses que antecederam Deadbeat, o quinto álbum de estúdio de Kevin Parker, o cérebro por trás do Tame Impala. Os três primeiros singles dividiram o público: fãs da primeira fase da banda acusaram Parker de “se vender” e adotar uma fórmula mais comercial, enquanto outros defenderam a evolução artística.

O debate esquentou já com End Of Summer, faixa extensa que mistura rock psicodélico com música eletrônica e flerta com o house. Depois veio Loser, praticamente o oposto em estética, mas igualmente criticado como pouco inspirado. Dracula talvez seja a melhor entre os singles. No entanto, espalhou uma desconfiança de vez: letra fraca, produção disco com clima de Halloween e semelhanças óbvias com The Weeknd deixaram muita gente indiferente.

A grande pergunta era inevitável: teria o Tame Impala sacrificado sua alma criativa, e guitarras, em troca de apelo de pista e campanhas de carro? A resposta, ouvindo o álbum completo, é: quase.

Em Deadbeat, Parker explora novos caminhos e troca o rock psicodélico por hinos dançantes, pensados para baladas, academias e playlists de festival. Ele não se rende totalmente ao pop radiofônico, mas flerta abertamente com ele. O resultado? Uma coleção de faixas irregulares: algumas empolgantes, outras esquecíveis.

O início anima. My Old Ways, construída sobre um loop de piano, fala sobre hábitos difíceis de abandonar e traz um final psicodélico cheio de energia. A seguir, No Reply mantém a qualidade: baixo pulsante, synths cativantes e uma vulnerabilidade rara nas letras, reflexões sociais, inseguranças, humor autodepreciativo.

Mas, logo depois, o álbum bate num muro: Dracula, Loser e Oblivion parecem peças desalinhadas, sem coesão estética ou grande inspiração. A sonoridade vai se reequilibrar apenas em Not My World, ainda que longe do brilho dos primeiros discos.

Felizmente, Piece Of Heaven resgata o que fez Parker ser Parker. Uma faixa mais texturizada, atmosférica e com DNA da fase clássica, lembra até Orinoco Flow (Enya) no refinamento da produção. Ethereal Connection também convence, com mais de sete minutos de synths crescentes e uma construção climática que End Of Summer tentou, mas não entregou tão bem.

O ápice chega em Afterthought, a favorita do próprio artista. Um refrão irresistível, um groove que remete a Thriller e uma energia que lembra o quanto Tame Impala consegue brilhar quando acerta o ponto entre o pop e o experimental.

Em entrevista recente, Kevin Parker rebateu as críticas sobre o suposto “pop demais”: “Repetir Currents ou The Slow Rush seria o verdadeiro caminho para virar trilha de comercial de carro.” E ele tem razão: Deadbeat não é mais do mesmo. Ainda existe coragem criativa, só nem sempre bem distribuída.

No fim, o álbum apresenta lampejos fascinantes, mas também longos minutos que se arrastam. Parker continua arriscando, e isso é valioso. Mas Deadbeat está longe da consistência que tornou o Tame Impala uma das mentes mais inventivas do pop psicodélico moderno.

Capa de Deadbeat, novo álbum do Tame Impala (2025)
Tame Impala – Deadbeat
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