Do tempo rei ao rei do balanço: Gilberto Gil e Jorge Ben Jor fazem o Rio vibrar em ancestralidade

Gilberto Gil e Jorge Ben Jor se cumprimentam no palco durante o show de encerramento da turnê Tempo Rei no Rio de Janeiro, após mais de 30 anos sem tocarem juntos. Foto: Gabriella Ribeiro (Moodgate).
Em um encontro histórico, Gilberto Gil e Jorge Ben Jor emocionam o público na Farmasi Arena, no Rio de Janeiro, ao dividirem o palco novamente após três décadas. Foto: Gabriella Ribeiro (Moodgate).

O tempo é rei e Gilberto Gil é sua personificação. Aos 83 anos, mesmo resfriado, o artista encerrou no último domingo (10) a última passagem da turnê Tempo Rei no Rio de Janeiro com um espetáculo carregado de emoção, ancestralidade e vitalidade. O público lotou a Farmasi Arena para celebrar uma trajetória que transcende gerações, marcada por inovação, afeto e uma brasilidade sem igual.

Dividir o mesmo espaço que Gil é testemunhar história viva. Os ingressos se esgotaram em poucas horas, e quem conseguiu um lugar pôde presenciar um artista em plena forma, conduzindo o público por uma viagem através de sua discografia, do primeiro disco aos clássicos eternos.

Como em cada show da turnê, havia expectativa: quem seriam os convidados da noite? O mistério é parte do ritual. O que ninguém esperava era um desfile de encontros lendários.

A primeira surpresa veio na 15ª música do repertório: A Novidade. Ao som dos primeiros acordes, Os Paralamas do Sucesso subiram ao palco, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone, para reviver a parceria criada com Gil em 1986 para o álbum Selvagem?.
Antes da canção, Gil contou ao público a história por trás da letra: Herbert havia composto a faixa, mas faltavam palavras.

Em um quarto de hotel com vista para o mar, Gil encontrou inspiração na imagem de uma sereia e no som que lhe sugeria a palavra “novidade”. Assim nasceu uma das colaborações mais belas do rock brasileiro.


A emoção continuou na 22ª faixa, quando Gil chamou ao palco sua neta, Flor Gil, para cantar Estrela. Com ternura, ele disse: “Essa música você vai cantar inteira.” A doçura da jovem preencheu a arena, reforçando o talento que corre no sangue da família. Estrela brilhou como metáfora perfeita: herança, continuidade e amor.

Mas o auge da noite ainda estava por vir. A plateia mal acreditou quando Jorge Ben Jor surgiu no palco. Gil e Ben não se apresentavam juntos há mais de 30 anos. O reencontro foi uma explosão de energia, ancestralidade e história.

Os dois dividiram o microfone em três canções, algo inédito na turnê. Abriram com Filhos de Gandhi, um hino à força da cultura afro-brasileira e à espiritualidade dos orixás. Depois, Emoriô transformou o público em um coral emocionado, celebrando o poder da música como ponte entre fé e resistência.

Em um dos momentos mais tocantes, Gil se emocionou ao lembrar o período do exílio durante a ditadura, enquanto Jorge permaneceu no Brasil, mantendo viva a chama da arte e da liberdade.


O encerramento veio com Rei do Maracatu (1969), parceria dos dois que, até então, jamais havia sido tocada ao vivo juntos. O palco virou terreiro: ritmo, emoção e reverência aos ancestrais.

O último show da turnêTempo Rei no Rio de Janeiro não foi apenas uma despedida, foi um rito de passagem. Uma celebração da história da música brasileira, dos encontros improváveis e da potência de um artista que, mesmo com o tempo, continua ensinando o que é ser eterno.