My Chemical Romance faz show histórico em São Paulo com turnê “The Black Parade”

My Chemical Romance se apresenta em São Paulo durante turnê The Black Parade com telões e iluminação vermelha no palco
My Chemical Romance durante apresentação da turnê “The Black Parade” em São Paulo.

Na primeira de duas noites no Brasil, o My Chemical Romance entregou um show gigantesco. Luzes, pirotecnia, teatralidade e um dos repertórios mais fortes da turnê transformaram a apresentação em um verdadeiro espetáculo.

Após mais de uma década longe do país, duas gerações se encontraram no mesmo lugar. De um lado, quem esperou anos pelo retorno do MCR. Do outro, uma leva de fãs que descobriu a banda pelos clássicos de Three Cheers for Sweet Revenge (2004) e The Black Parade (2006). Na noite de 05 de fevereiro, no Allianz Parque, essas histórias se cruzaram em um coro coletivo que atravessou o tempo.

Desde cedo, o clima já era de ritual emo: muito preto, maquiagem, gravatas vermelhas e camisetas gastas pelo uso. A chuva ameaçou cair, mas São Paulo segurou o fôlego e manteve o céu fechado, preparando o terreno para a abertura de The Hives.

Os suecos incendiaram o estádio com um set direto e certeiro, que incluiu “Enough Is Enough”, “Main Offender”, “Hate to Say I Told You So” e “Tick Tick Boom”. Com ternos pretos, carisma exagerado e energia sem freio, Pelle Almqvist comandou a plateia como quem conduz uma festa caótica e deliciosa. Para alguns, foi um reencontro. Para outros, a primeira vez vendo The Hives ao vivo e entendendo por que eles são uma das bandas mais divertidas do rock em palco.

Quando as luzes se apagaram e mensagens enigmáticas surgiram nos telões, ficou claro que o espetáculo do My Chemical Romance não seria apenas um show, mas uma encenação. A estética sombria de The Black Parade ganhou contornos ainda mais distópicos, com a história de Draag, um país autoritário governado por um ditador imortal, servindo como pano de fundo narrativo da primeira parte da apresentação.

Vestidos com os uniformes clássicos em preto e branco, acompanhados por personagens e figuras simbólicas, o MCR abriu com “The End.” e “Dead!”, disparando a catarse coletiva. Em seguida, “This Is How I Disappear” e “The Sharpest Lives” reforçaram a atmosfera opressiva e teatral da narrativa.

“Welcome to the Black Parade” surgiu como o grande ápice emocional, com Gerard Way cantando do alto de um pódio, enquanto o estádio inteiro acompanhava cada verso. Já “I Don’t Love You” transformou o público em um mar de luzes de celulares, criando um dos momentos mais sensíveis da noite.

O palco funcionava como um cenário de filme: telões gigantes, personagens recorrentes, músicos de apoio com cordas e percussão, tudo construindo uma experiência cinematográfica que se desenrolava entre as músicas. No clímax da primeira parte, “Teenagers”, “Disenchanted” e “Famous Last Words” vieram acompanhadas por labaredas e pirotecnia, encerrando a narrativa sombria de Draag em meio ao fogo. Enquanto “Blood” tocava ao fundo, a encenação atingiu seu ponto mais grotesco e teatral.

Após um interlúdio de violoncelo elétrico, a banda retornou sem os figurinos, em roupas comuns. O fogo se apagou, os telões mudaram de tom, e o MCR “voltou ao normal”. “Na Na Na” abriu a segunda parte do show, seguida por clássicos dos primeiros discos como “Skylines and Turnstiles” e “Headfirst for Halos”, levando a plateia novamente ao delírio.

Mesmo com Gerard Way roubando naturalmente os holofotes, Ray Toro, Frank Iero e Mikey Way mostraram por que o MCR é uma banda sólida ao vivo, com riffs afiados e execução precisa. “Heaven Help Us” apareceu como um agrado especial aos fãs mais atentos da turnê.

“I’m Not Okay (I Promise)” veio como um grito coletivo de alívio e catarse, seguida por “Thank You for the Venom”, “Cemetery Drive” e “Hang ’Em High”. O encerramento com “Helena” levou parte do público às lágrimas, fechando a noite com emoção pura.

Nesse trecho final, Way se mostrou mais próximo, brincou com a plateia e lembrou da última passagem da banda pelo Brasil: “A gente se lembra muito bem desses shows. Se você estava lá, obrigado por voltar. E se você nem tinha nascido, obrigado por estar aqui hoje.”

O My Chemical Romance provou que continua sendo uma banda gigantesca ao vivo. A espera de mais de uma década se dissolveu em pouco mais de duas horas de catarse, fogo, nostalgia e comunhão. Para quem esteve ali, não foi apenas um show: foi um reencontro com uma parte da própria história.