Viagra Boys no Lollapalooza 2026: a banda mais caótica do pós-punk atual

Viagra Boys, banda sueca de pós-punk, confirmada no Lollapalooza 2026
Viagra Boys se apresentam no Lollapalooza 2026 com seu pós-punk caótico e letras ácidas.

O Lollapalooza 2026 começa no dia 20 de março e contará com uma série de atrações nacionais e internacionais. Uma delas é a banda Viagra Boys, que surgiu em Estocolmo, na Suécia, em 2015 em meio a uma onda de ressurgimento do pós-punk em um cenário global. Enquanto boa parte da cena apostava em referências oitentistas, o conjunto apostou em uma sonoridade mais caótica e até suja, com misturas entre elementos do punk, garage rock e grooves repetitivos. A banda é formada por Sebantian Murphy, Linus Hillborg, Elias Jungqvist, Henrik Höckert, Tor Sjödén e Oskar Carls.

Um dos elementos mais marcantes da sonoridade são as letras irônicas e disruptivas, com a utilização de diversas sátiras e críticas à hipermasculinidade e teorias da conspiração da extrema-direita. O modo de Murphy cantar também é marcante nesse sentido, visto que ele muitas vezes usa um tom sussurrado, alternando com gritos, falas mais arrastadas e frases que parecem até mesmo um pouco soltas, todos os elementos contribuindo com a criação de uma autenticidade que virou marca registrada.

Viagra Boys em Varsóvia (foto de Ellen Qbertplaya)

O lançamento do disco Street Worms (2018) lançou o Viagra Boys ao mundo, transformando a banda em um nome forte da cena alternativa europeia e chamando atenção pela forma que conseguia alternar as canções entre divertidas e perturbadoras. Em faixas como Sports, o grupo satiriza a obsessão masculina por símbolos de status e virilidade, repetindo palavras banais como se fossem mantras vazios: um retrato irônico de uma cultura construída em torno de aparências, consumo e performatividade.

Mais do que apenas humor nonsense, as letras também carregam um fundo social. Vícios, paranoia, masculinidade frágil, frustração econômica e o colapso psicológico da vida urbana contemporânea. Essa abordagem se aprofundou em Welfare Jazz (2021), um trabalho mais experimental. O álbum reflete um mundo em desordem, com músicas que oscilam entre alguns momentos agressivos e outros quase introspectivos, mostrando uma banda mais interessada em expandir seu som do que repetir fórmulas.

A evolução ficou ainda mais evidente em Cave World (2022), trabalho que funciona quase como um retrato sonoro da era das redes sociais, da radicalização digital e da cultura da desinformação. Aqui, a banda transforma teorias da conspiração, discursos de ódio e delírios online em personagens musicais caricatos, expondo o absurdo da realidade moderna sem precisar ser didática. Canções como Troglodyte escancaram essa proposta ao brincar com o grotesco, enquanto Ain’t Nice permanece como um dos momentos mais agressivos e diretos da discografia.

Até o nome da banda carrega essa estética propositalmente desconfortável, já que o Viagra é um dos medicamentos mais conhecidos mundo afora para o tratamento de disfunção erétil, escolhida não pelo choque gratuito, mas pela ironia e pelo simbolismo ligado à obsessão masculina por potência, status e validação – temas que atravessam toda a obra do grupo. Essa identidade se reflete também nos shows, frequentemente descritos como intensos, com Murphy incorporando praticamente os personagens decadentes que aparecem nas músicas.

O que torna os Viagra Boys tão relevantes dentro do rock alternativo atual é justamente essa capacidade de transformar o absurdo em uma arte envolvente. Suas músicas não buscam agradar de forma óbvia, mas acabam sendo extremamente viciantes pela honestidade que carregam, pelo groove e pela inteligência por trás das letras. É uma banda que soa como o retrato sonoro de uma sociedade saturada de estímulos, contradições e frustrações.

Para quem procura algo além do rock polido e previsível, os Viagra Boys oferecem uma experiência intensa, sarcástica e profunda. Mais do que apenas uma banda estranha da cena pós-punk, eles se consolidaram como um dos projetos mais originais e relevantes do rock alternativo da última década, daqueles que incomodam, fazem rir e, ao mesmo tempo, dizem muito sobre o mundo em que a gente vive.