Um dos artistas mais ouvidos do mundo, porto-riquenho transformou o Allianz Parque em pista de dança com orgulho latino e sensação de pertencimento
O Brasil se tornou um local quase obrigatório nas turnês de todo artista e/ou banda internacional. É geralmente bem rentável, o público é bom, o país é incrível. Até por isso não temos vivido tantas primeiras vezes. Quem dirá uma nesse contexto, onde o artista mais ouvido do planeta e vencedor do maior prêmio do Grammy resolve trazer seu show completo para cá.
Bad Bunny não é o primeiro, é verdade, mas o porto-riquenho tem como arma principal de seu trabalho algo que vai além da música: a representatividade latina.

Essa foi a estreia do cantor no Brasil, anos após ser questionado se “nunca faria tanto sucesso” por esses lados. Sugeriram até que fizesse feats com artistas brasileiros populares para “crescer”, mas ele foi enfático ao negar, dizendo que não entraria em uma colaboração só pensando em números ou abrangência.
É nessa postura que existe um protagonismo e fidelidade em relação às raízes e ideais que não se via há algum tempo. Bad Bunny acabou de vencer o maior prêmio do Grammy com “Debí Tirar Más Fotos”, o álbum do ano de 2025.
Ele também é o terceiro artista mais ouvido da atualidade, com cerca de 116 milhões de ouvintes mensais (Spotify). Além disso, o astro fez apresentação histórica no show de intervalo do SuperBowl, maior evento esportivo dos Estados Unidos; por lá, bateu recorde de audiência: mais de 135 milhões de aparelhos conectados. Um fenômeno.
O conceito desta nova turnê, que mais celebra “Debí Tirar Más Fotos” do que propriamente divulga, destaca o pertencimento, a valorização das raízes e a importância que o povo latino dá a tudo que ajudou a construir suas próprias histórias.
Benito afirma categoricamente que o amor sempre vencerá o ódio em todas as frentes, assim como engrandece a ideia que todos deveriam ter tirados mais fotos daqueles que já se foram, de momentos já vividos e até de lugares já visitados, pois é exatamente isso que constrói a jornada de vida de cada um. É sobre valorizar a simplicidade.
Fofo e emocionante, claro, mas o cantor, que já levou mais de 400 milhões de dólares para a economia de Porto Rico, utiliza esta perspectiva quase íntima para explorar gêneros como a salsa, o reggaeton e a plena enquanto faz críticas aos Estados Unidos, questionando a forma como o país sempre se comportou em relação ao processo de gentrificação de Porto Rico (o local é parte do território norte-americano) e como a propaganda estadunidense vendeu de forma equivocada a ideia de America e continente ao território latinoamericano.
Então, ainda que você não se interesse tanto pela sonoridade, Benito chama a atenção por aquilo que diz.
NUEVAYOOOOOOL!!!!
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) February 21, 2026
BAD BUNNY apresentando a maravilhosa “Nuevayol” ao vivo no Brasil! Esse é o tweet. 🐸🇧🇷
📹: @izzomrm pic.twitter.com/MeETlvmcUt
No Brasil, a língua espanhola, mesmo que mais próxima, sempre foi vista com certa dificuldade. Artistas de outros lugares da América Latina sempre tiveram dificuldades em fazer sucesso por aqui. Com exceção do sucesso extraordinário que fizeram os mexicanos do RBD e a popstar Shakira, essas atrações não chegavam com tanta evidência e abrangência.
Pesquisas apontam que, no ano passado, cerca de 75% dos artistas mais ouvidos no país eram os próprios brasileiros. Indo além do jabá de grandes e médios nomes do sertanejo, é evidente que o público nacional sempre preferiu nomes do samba, do rap, do pagode, do axé, do piseiro, da MPB e do funk. Estilos originados aqui, mas também aqueles criados lá fora. Até o rock teve sua época de glória (um abraço ao Barão Vermelho e ao Soda Stereo).
O “furar a bolha” sempre foi difícil. No entanto, o contexto político de Benito, seu discurso e sua música são tão importantes que fizeram a audiência nacional abrir os olhos para novos horizontes. Essa identificação com o discurso, que celebra a cultura brasileira e une a ideia da latinidade representar coisas similares, parece ter conquistado parte dos brasileiros de forma natural.
Esse movimento, inclusive, abre ainda mais portas: nomes como Karol G e Rosalía, que já faziam sucesso por aqui, estão cada vez maiores. O duo argentino CA7RIEL & Paco Amoroso, que estreou no Brasil com turnê esgotada em 2025, também tem conquistado seus públicos. Tini, Trueno, Jhayco. Todos estão conquistando fãs de norte a sul do país. Esse é o tipo de impacto que não se nega e nem se questiona; é fato.
Bad Bunny emocionado com o público brasileiro! 🥹🫰🏼
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) February 20, 2026
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“Brasil, essa noite eu sou brasileiro e vocês porto-riquenhos”, disse o cantor enquanto transformava o Allianz em baile em parte da apresentação na “Casita”. Essa gratidão ficou evidente na apresentação de cerca de 2h, com juras de amor aos brasileiros, olhos marejados, camisa retrô da seleção bicampeã do mundo em 1962, muitos passos de dança e setlist com parte dos maiores hits da carreira, que também contemplavam discos como “Un Verano Sin Ti” (2022), “nadie sabe lo que va a pasar mañana” (2023) e “YHLQMDLG” (2020).
“Essa noite nós somos brasileiros e vocês porto-riquenhos” 🇵🇷🇧🇷
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) February 21, 2026
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Para este colunista da Moodgate, que frequenta shows internacionais há cerca de 15 anos e já deve ter assistido a mais de 1000 artistas diferentes, não é arriscado dizer que nesta sexta-feira, 20 de fevereiro, São Paulo viveu um de seus shows mais barulhentos, divertidos e emocionantes dos últimos 10 anos.
Vi bandeiras de muitos países. Algumas até tive que fuçar lá no fundo da mente para identificar. Muitos abraços, choros, sorrisos, copos pro alto. Definitivamente, o show mais alegre e vibrante que vi nos últimos 10 anos.
A sensação é que todo mundo parecia unido. Na dança, no canto. Esse é o auge de qualquer carreira na música (indo além da grana e dos holofotes): fazer a audiência se unir na sensação de pertencimento. E o melhor momento da jornada do Bad Bunny foi coroado com louvor aqui.
A torcida fica para que Benito volte com maior frequência nos próximos anos e que, de um jeito ou de outro, sempre pareça como essa primeira vez. Porque foi muito, mas muito especial.


