Nas notas do encarte de seu quarto álbum, Harry Styles escreve: “Oh, que presente é ser notado. Mas isso não tem nada a ver comigo.” Com todo respeito, é difícil concordar. Afinal, basta ouvir as 12 faixas de Kiss All The Time. Disco, Occasionally para perceber exatamente o contrário.
Lançado quatro anos após Harry’s House, o novo disco mostra um artista ainda mais disposto a expandir suas possibilidades. Mais do que repetir fórmulas que já deram certo, Styles parece interessado em testar limites e empurrar sua própria estética para novos territórios.
E é exatamente esse espírito que atravessa Kiss All The Time. Disco, Occasionally. O álbum soa como uma exploração profunda da identidade musical de Styles. Ao longo das faixas, fica evidente que ele tenta ampliar tudo o que já funcionava em seus trabalhos anteriores. É como se cada elemento fosse levado ao extremo.

Para quem acompanha o cantor, a experiência é clara: imagine tudo o que já definia Harry Styles – refrões gigantes, momentos de euforia coletiva, confissões íntimas e letras estranhas na medida certa–, agora multiplicado.
Há também linhas de baixo enormes (que são bem interessantes), passagens orquestrais e uma clara influência das pistas de dança que o artista frequentou nos últimos anos. A sensação de comunidade aparece o tempo todo. Em Aperture, por exemplo, ele canta: “Nós pertencemos um ao outro.” Essa frase funciona quase como um manifesto para o disco.

Mais uma vez, Styles trabalha ao lado do produtor e parceiro criativo Kid Harpoon, além do colaborador frequente Tyler Johnson. O resultado é provavelmente o álbum mais “Harry Styles” de sua carreira. Muitas estruturas musicais lembram trabalhos anteriores, mas aparecem reinventadas, como se o artista estivesse refinando uma linguagem própria.
O disco começa com os sintetizadores pulsantes de “Aperture”, que estreou diretamente no topo das paradas do Reino Unido e dos Estados Unidos. A faixa também abriu a apresentação de Styles no BRIT Awards. Em seus cinco minutos, a música alterna entre momentos expansivos e introspectivos, criando uma dinâmica que se repete em várias partes do álbum.
Já American Girls aposta em um pop mais contemplativo, centrado no refrão, mas ainda marcado pela interpretação particular do artista. Em contraste, Coming Up Roses surge como o coração emocional do disco. Escrita apenas por Styles, a faixa brinca com clichês das baladas de cantor e compositor enquanto uma orquestra, arranjada por Harry, Kid Harpoon e Jules Buckley, constrói uma atmosfera grandiosa.
Em Waiting Game, o artista reflete sobre a própria exposição pública e admite se preocupar com a romantização de suas falhas. Enquanto isso, Paint By Numbers funciona como um momento contemplativo. A canção traz versos delicados sobre aprender a viver enquanto “as cores se espalham”.
Mas o disco também sabe ser caótico quando quer. Ready, Steady, Go! mergulha em ruídos, efeitos e vocais distorcidos. A instrumentação se torna cada vez mais confusa enquanto Styles canta versos fragmentados e quase surrealistas. Na mesma linha, Are You Listening Yet? aposta em uma percussão intensa e hipnótica.

Na segunda metade do álbum, Weight Loss mergulha em sintetizadores graves e reverberações profundas. A música ainda conta com backing vocals de Ellie Rowsell, vocalista do Wolf Alice.
Entre os momentos mais pop do disco está Pop, que soa como um potencial hit clássico de Styles. A faixa constrói um refrão gigantesco que transforma pequenas histórias de tentação em algo épico.
Já Dance No More é praticamente uma ode à pista de dança. Com linhas de baixo marcantes e um clima de discoteca, a música celebra o momento em que lágrimas e suor se confundem enquanto todos dançam juntos.
O álbum termina com Carla’s Song, que retorna ao clima eletrônico de abertura. A faixa reforça o caráter circular do projeto, como se Styles quisesse fechar a experiência exatamente onde começou: na pista de dança.
Talvez seja essa a imagem que define a era Kiss All The Time. Disco, Occasionally: multidões suando, chorando e cantando juntas. O próprio Styles reconhece isso nas notas finais do encarte, quando escreve:
“Para todos os meus amigos dançarem, obrigado.”



