Black Pantera fala sobre Korn, política no metal e nova fase da carreira

Black Pantera no Circo Voador
Foto: Lucas Pires/Moodgate

Entre a preparação para abrir o show do Korn no Brasil, no próximo dia 16 de maio, e o lançamento de um álbum ao vivo gravado no Circo Voador, o Black Pantera atravessa uma das fases mais intensas da carreira. Depois de anos construindo seu espaço no underground, o trio mineiro hoje ocupa palcos gigantes, circula por festivais internacionais e amplia cada vez mais o alcance de sua mensagem política dentro do rock pesado.

Em conversa com a Moodgate, a banda relembrou a influência decisiva do Korn em sua formação sonora e estética, falou sobre a pressão e a empolgação de tocar em um estádio lotado, refletiu sobre o crescimento de discursos políticos dentro do metal nacional e comentou como públicos de países como México, Chile e Colômbia têm se conectado com as vivências e letras do grupo. Além disso, o Black Pantera também abriu o jogo sobre o significado do Circo Voador em sua trajetória e os próximos objetivos da banda, que segue cada vez mais ambiciosa.

Foto: Lucas Pires/Moodgate

“A gente ainda compra pão de chinelo em Uberaba”

Joel (Moodgate): O Black Pantera surgiu em 2014 e, desde então, vocês passaram de uma banda muito forte no underground para um nome que hoje alcança festivais gigantes e públicos cada vez maiores. Como foi viver essa transformação sem perder a identidade da banda?

Chaene Gama: Cara, acho que a gente conseguiu fazer isso de uma forma muito autêntica e até despretensiosa. A gente gosta desse olho no olho com o público. Então, ao mesmo tempo em que toca em eventos underground para 300, 400 pessoas, também estamos em grandes festivais, como essa abertura do Korn, que é uma honra enorme pra gente. Mesmo assim, a gente continua sendo nós mesmos.

Chaene Gama: Hoje mesmo fui comprar pão em Uberaba e tinha gente sem acreditar que eu estava ali, de chinelo e short. E eu falei: “Gente, eu moro aqui”. Acho que o mais legal é isso. Mesmo entendendo que a banda está em um lugar importante hoje, a gente não tem esse deslumbramento.

Chaene Gama: Durante muito tempo tivemos outros trabalhos antes de conseguir viver só da banda, coisa que aconteceu há três ou quatro anos. Então somos muito gratos. E conseguimos transitar entre pub, praça, festival e eventos gigantes com muita verdade.

Rodrigo Pancho: É natural pra gente estar nesses espaços e não ficar só dentro do camarim. A gente gosta de trocar ideia com o público, ficar no merch. Não é algo forçado.

“O Korn abriu um buraco na minha cabeça”

Joel (Moodgate): O Korn teve alguma influência direta na construção sonora ou até na atitude do Black Pantera?

Charles Gama: Demais. Muito mesmo. Quando ouvi Korn pela primeira vez, em 2001, minha cabeça explodiu. Eu vinha muito do hard rock, Guns N’ Roses, Mötley Crüe… e aí chegou Korn com aqueles riffs, o jeito do Jonathan Davis cantar, o peso, o groove, os breakdowns. Aquilo abriu outro universo.

Charles Gama: Isso influenciou diretamente a criação do Black Pantera. A gente nunca quis ficar preso em um único estilo de metal. Desde o primeiro EP, a ideia era ter liberdade pra misturar punk, thrash, death metal, crossover… tudo o que a gente achasse foda.

Foto: Lucas Pires/Moodgate

Charles Gama: O Korn também trouxe muito essa ideia de groove pesado. E até visualmente influenciou a banda. Inclusive, o motivo de eu usar saia não veio do Axl Rose, não. Veio do Jonathan Davis no Woodstock 99. Aquilo explodiu minha cabeça.

Chaene Gama: E os clipes também, né? Toda aquela estética de terror, os vídeos, os dreads, a presença de palco… tudo isso influenciou muito o Black Pantera.

“O desafio é impactar em 30 minutos”

Joel (Moodgate): Abrir um estádio lotado para o Korn muda alguma coisa na preparação de vocês? Tem uma preocupação diferente em relação ao setlist, impacto visual ou energia do show?

Rodrigo Pancho: Ontem mesmo a gente estava ensaiando o setlist. O maior desafio é criar um show muito pesado e impactante em apenas 30 minutos. Então estamos revisitando os quatro álbuns pra entender o que funciona melhor nesse tempo curto e o que mais conecta com o público.

Rodrigo Pancho: Hoje já temos mais de 60 músicas contando EPs e singles, então escolher é difícil. Mas a gente já entende quais músicas funcionam mais ao vivo porque boa parte desse público também acompanha a banda nos rolês menores.

Rodrigo Pancho: Então já está tudo alinhado: abertura, encerramento, dinâmica… tá tudo certinho.

“Hoje existe mais abertura para ouvir outras vivências”

Joel (Moodgate): Vocês sentem que o rock e o metal brasileiros estão vivendo uma abertura maior para bandas com discurso político e social mais direto?

Chaene Gama: Acho que sim. E acho que a mentalidade do público mudou também. O Black Pantera nasce justamente dessa necessidade de trazer outra perspectiva dentro do rock e do metal. Hoje você vê mais bandas indígenas, femininas, feministas, LGBTQIAP+ surgindo e ocupando espaço.

Chaene Gama: As pessoas estão mais abertas para ouvir outras vivências. Antes parecia existir uma narrativa única dentro da cena. O Black Pantera chega falando da nossa experiência enquanto banda preta e antirracista no interior de Minas Gerais. E muita gente entende isso, mesmo quando não gosta do som da banda.

Chaene Gama: Às vezes a pessoa fala: “Não curto o som, mas entendo a importância de existir uma banda preta antirracista nesse espaço”. E isso já significa muito.

“Tem gente que comprou ingresso pro Korn e agora vai ter que passar pelo Black Pantera”

Joel (Moodgate): Vocês acham que o Black Pantera incomoda mais hoje do que incomodava há alguns anos?

Charles Gama: Muito mais hoje. Porque agora a banda está ocupando espaços maiores. Tem gente que comprou ingresso pra ver só o Korn e agora vai ter que passar pelo Black Pantera também. Isso incomoda algumas pessoas.

Foto: Lucas Pires/Moodgate

Charles Gama: Teve um cara comentando pedindo pra gente não fazer a abertura. Tipo: “Por favor, não toquem”. E a gente pensa: irmão, o estádio é enorme. Vai comprar cerveja, dá uma volta.

Rodrigo Pancho: Mas realmente tem uma galera que pega um ódio absurdo da banda. Só que isso não abala a gente. Pelo contrário. O hate acaba engajando ainda mais. Enquanto isso, os shows seguem lotando, a banda continua tocando em festivais grandes no Brasil e fora dele.

“A identificação na América Latina é muito forte, eles querem compartilhar as vivências deles também”

Joel (Moodgate): Shows no exterior, como no México, abrem oportunidades para dialogar com outras realidades. Como a plateia mexicana reagiu ao show e à mensagem política de vocês?

Rodrigo Pancho: Eles se identificam muito com o que a gente fala. No México, Chile, Colômbia… as pessoas querem compartilhar as vivências delas e também ouvir as nossas. Mesmo com a barreira da língua, a mensagem chega.

Chaene Gama: Quando você vê três caras pretos no palco, punho erguido, uma banda chamada Black Pantera, aquilo já comunica muita coisa. “Fuego en los racistas” funciona em qualquer lugar da América Latina. E os shows têm sido incríveis. No México já fomos três vezes e cada apresentação foi melhor que a outra.

Rodrigo Pancho: E lá fora acontece algo curioso: muitas vezes a gente não abre show, a gente fecha. Os caras colocam a banda em outro lugar.

“O Circo Voador foi uma virada de chave pra banda”

Joel (Moodgate): Recentemente foi gravado um ao vivo no Circo Voador que será lançado em breve. Por que escolheram esse palco para eternizar um show e o que ele representa para a banda?

Charles Gama: Porque é o Circo Voador, né? É a realização de um sonho. A gente cresceu vendo gravações históricas acontecendo ali. E o Circo também representa uma virada de chave importante na história da banda.

Foi lá que o Rafael Ramos viu o Black Pantera pela primeira vez, o que acabou levando ao contrato com a Deck. Além disso, a energia do público carioca fez muita diferença.

O Circo tem uma energia única. A gente não conseguia imaginar outro lugar pra registrar esse momento.

“A gente nunca se deu por satisfeito”

Joel (Moodgate): Depois de tocar em festivais enormes e fazer show fora do Brasil, ainda existe alguma meta ou sonho que a banda quer alcançar?

Charles Gama: Sempre. Tem muita coisa acontecendo agora: álbum ao vivo chegando, disco de inéditas em agosto, Korn, Rock in Rio, festivais grandes…

Mas a gente quer mais. Quer tocar em países onde nunca fomos, tocar na África, na Ásia, continuar espalhando nossa mensagem. Essas músicas novas vão ampliar ainda mais a nossa voz.

Rodrigo Pancho: A gente nunca se deu por satisfeito. Tocou no Rock in Rio? Agora quer voltar maior. Abriu festival? Agora quer fechar.

É sempre mais um passo. Sempre em frente.

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