Rancore fala sobre BRIO, retorno após 15 anos e nova fase da banda

Integrantes do Rancore em foto promocional do álbum BRIO, marcando o retorno da banda após 15 anos sem disco de estúdio.
Rancore vive nova fase com BRIO, primeiro álbum de estúdio da banda em 15 anos. Foto: Tauana Sofia.

Depois de 15 anos sem lançar um álbum de estúdio, o Rancore voltou com tudo com BRIO, disco que marca uma nova fase da banda. Em entrevista à Moodgate, Teco Martins falou sobre como vem sendo esse retorno, abordando questões como amadurecimento, paternidade, ciência, literatura e todo o peso emocional que envolve o novo trabalho.

Segundo o vocalista, o retorno da banda aconteceu de forma muito diferente do passado, afinal 15 anos é tempo suficiente para evoluir. “Esses anos foram muito intensos pra todo mundo e isso refletiu na composição. A gente já sabia mais o que queria como som, como estética sonora.”

Teco diz que todos continuaram envolvidos com música de alguma forma, e que agora eles estão mais profissionais, pacientes e com mais experiências de vida. Ele conta, por exemplo, que o baterista Ale continuou no rock tocando com Supla, enquanto o restante mergulhou em música eletrônica, experimental e brasileira. Para ele, toda essa bagagem ajudou a construir o DNA de BRIO.

crédito – Tauana Sofia

Além das novas influências, Teco acredita que a maturidade pessoal também foi responsável por transformar a dinâmica da banda dentro do estúdio. “Teve momentos que a gente conseguiu ouvir mais o outro, respeitar mais a opinião do outro e trabalhar como uma equipe em prol de um objetivo”, explica.

“O próximo disco do Rancore nunca vai ser igual ao anterior”.

Mesmo mantendo a base do hardcore, BRIO chega com uma sonoridade mais ampla e experimental. Falamos sobre parte do público ainda esperar que não só o Rancore, mas suas bandas preferidas continuem reproduzindo a fórmula dos primeiros discos. Teco, no entanto, garante que repetir o passado nunca foi o objetivo do grupo. “A gente faz música com o coração. Não fica pensando em agradar ou repetir uma fórmula que já deu certo”, afirma o vocalista.

crédito – Tauana Sofia

O músico ainda explicou que cada álbum do Rancore nasceu de uma necessidade artística diferente. O primeiro é mais cru e acelerado, enquanto o Liberta teve mudanças de dinâmica e o Seiva trouxe elementos mais psicodélicos. Para Teco, então, BRIO surge como uma consequência natural dessa trajetória.

“Se você quer ouvir o Yoga, Stress e Cafeína, vai lá e ouve o Yoga, Stress e Cafeína. A gente já fez ele. Nossa vontade é sempre fazer um negócio que não foi feito”.

Mas apesar de todas as mudanças, o vocalista do Rancore acredita que existe um fio narrativo conectando todos os trabalhos da banda. “Você ouvindo os quatro discos percebe que é a mesma banda. Não mudou tanto assim, mas a graça é essa”, completa.

O contato com uma nova geração

Ao falar sobre o público nos shows, Teco revelou ter se surpreendido ao perceber nas apresentações recentes que o Rancore tem atraído muitas crianças e adolescentes, algo que ele nunca havia visto na trajetória da banda ao longo dos anos.

O vocalista acredita que isso possa ter relação tanto com os fãs antigos que agora são pais, quanto com uma nova geração interessada em bandas e experiências ao vivo. “Talvez a geração nova esteja sedenta por banda”.

Ainda sobre esse contato com uma nova geração, Teco assumiu que estratégias de marketing tradicionais nunca foram prioridade da banda, apesar de reconhecer que, nos dias atuais, existe uma preocupação maior em manter presença nas redes sociais.

“Em vez de fazer um clipe, a gente tá fazendo vários reels com qualidade boa. Mas a melhor maneira ainda é fazer a melhor música possível e os melhores shows possíveis”, complementa Teco, citando ainda o TikTok como exemplo de rede social.

Ele disse que dificilmente o Rancore apostaria em “dancinhas”, ainda que admita que a energia da banda naturalmente o faça dançar no palco. “Na hora do Rancore eu vivo aquela parada como se não houvesse amanhã”.

Literatura, filosofia e teoria do caos

As letras de BRIO chamam atenção pelas referências filosóficas, científicas e existenciais. Durante a nossa conversa, Teco revelou algumas das influências que o ajudaram a moldar o disco. Entre os autores citados estão Fiódor Dostoiévski, Gabriel García Márquez e José Saramago, além de estudos ligados ao Taoismo, hermetismo e física. “Eu gosto muito de matemática, física e teoria do caos”, diz Teco Martins.

Segundo o músico, a ideia de unir ciência e poesia nasceu justamente da tentativa de compreender as complexidades humanas. “Eu sou a teoria do caos. O efeito borboleta tá em tudo”, diz o vocalista, comentando que muitos dos conceitos presentes nas letras refletem experiências pessoais, memórias e relações humanas.

crédito – Tauana Sofia

Para ele, a música funciona como uma tentativa de transformar sentimentos abstratos em algo quase matemático. “A física busca colocar em exatidão algo que grande parte da vida não é”. Teco explica ainda que o disco foi construído em múltiplas camadas, tanto musicalmente quanto liricalmente. “A pessoa pode ouvir no raso e se divertir. Mas se ela quiser cavar, o disco oferece águas mais profundas”, completou.

Um disco “banhado de sangue, suor e lágrimas”

Apesar do entusiasmo com a nova fase do Rancore, Teco evita fazer grandes planos para o futuro. Entre a turnê, filhos, aulas, cuidados com a casa e a rotina intensa da banda, o vocalista prefere viver um dia de cada vez. Ainda assim, reconhece o tamanho da importância de BRIO para os integrantes do Rancore. “Esse disco é o resultado de 25 anos de história. Ele veio banhado de sangue, suor e lágrimas”.

Teco também revelou que o álbum teve mixagem de Daniel Pampuri, vencedor do Grammy que já trabalhou com Beyoncé e Post Malone. O vocalista conta que o profissional chegou a ligar para ele diretamente de Hollywood para pedir para participar do projeto. Ele falou: “esse disco do Rancore é meu. Eu sempre sonhei em fazer um disco de vocês”, disse.

Ao final da entrevista, Teco Martins resumiu o sentimento que move a banda neste retorno tão aguardado. “O Rancore não dá pra ser pela metade. É dedicação total.”