Após sete anos sem um álbum de inéditas, cantora baiana prepara seu sexto disco solo, que chega em 16 de outubro e marca uma nova fase criativa.
Em uma carreira consolidada, é natural surgir o desejo de explorar novos caminhos e experimentar outras possibilidades. Para Pitty, que passou os últimos anos dedicada a turnês, projetos colaborativos e revisitações à própria trajetória, uma pausa parece ter sido fundamental para recuperar uma relação mais espontânea com a música.
É nesse momento que a cantora baiana se prepara para lançar seu novo álbum de estúdio, previsto para 16 de outubro.
Intitulado Pitty, o trabalho será seu sexto disco solo e o primeiro com músicas inéditas desde Matriz, lançado em 2019. A espera de sete anos ajuda a dimensionar a importância do lançamento, mas é o processo de criação das novas canções que melhor explica o significado desse retorno.
Uma pausa para recuperar o impulso criativo
No início de 2025, Pitty anunciou uma pausa na rotina de shows após uma sequência intensa de apresentações e projetos. O intervalo abriu espaço para rever seu ritmo de trabalho e explorar novas possibilidades, embora ainda não existisse um plano definido para gravar outro álbum.
As primeiras composições surgiram no fim daquele ano, quando a cantora começou a escrever sem a intenção imediata de reunir as músicas em um disco.
Em entrevista à Folha de S.Paulo, Pitty comparou a experiência à sensação de produzir seu primeiro álbum, especialmente pela liberdade com que as ideias começaram a surgir.
Esse processo contrasta com as expectativas que acompanham uma carreira consolidada. Depois de mais de duas décadas de trajetória, a cantora conhece o peso de seu próprio nome e a maneira como cada lançamento é recebido pelo público.
Dessa vez, porém, a criação começou sem um conceito fechado ou a preocupação de responder a uma fase anterior.
Por que o novo álbum de Pitty leva seu próprio nome?
A escolha de Pitty como título do novo álbum tem um significado particular. Em uma discografia construída ao longo de diferentes fases, a cantora nunca havia batizado um disco de estúdio com seu próprio nome.
A decisão aproxima o trabalho de uma apresentação pessoal, como se a artista voltasse ao ponto de partida para estabelecer um novo diálogo com sua identidade musical.
Ao longo da carreira, Pitty construiu uma sonoridade reconhecível, marcada por riffs de guitarra, vocais intensos e letras que questionam comportamentos, relações de poder e convenções sociais.
Em Matriz, essa identidade já aparecia em diálogo com referências da música brasileira e com uma investigação mais ampla de suas origens.
Agora, o retorno à composição surge de outra perspectiva, menos condicionado pela necessidade de dar continuidade a uma fase anterior e mais próximo da curiosidade de descobrir novos caminhos.
Isso não significa que o disco represente uma ruptura completa com o passado. Uma carreira longa permite explorar novas possibilidades sem abandonar as características que ajudaram a construir sua identidade.
No caso de Pitty, o interesse está em perceber como uma linguagem musical consolidada pode continuar evoluindo.
Entre raiva, desejo e liberdade
Para descrever a sonoridade que buscava no novo álbum, Pitty escolheu quatro palavras: pesado, dançante, sexy e raivoso.
O primeiro single, Sobremesa, lançado em setembro, oferece uma amostra dessa proposta. A faixa antecipa um trabalho que busca combinar diferentes intensidades e explorar novas possibilidades dentro do universo musical da cantora.
O videoclipe também reforça sua participação na construção visual do projeto. Idealizado por Pitty, o vídeo foi realizado em parceria com Jorge Daux.
O álbum contará com 13 faixas, sendo Sobremesa a única apresentada antes do lançamento. Todas as letras, melodias e riffs são assinados pela artista, que divide a produção musical com Rafael Ramos.
A participação direta em diferentes etapas do processo reforça a autonomia criativa que acompanha sua trajetória e ganha um novo significado neste momento da carreira.
O que significa recomeçar depois de duas décadas?
A trajetória de Pitty começou a ganhar projeção nacional com Admirável Chip Novo, álbum que a estabeleceu como uma das principais vozes femininas do rock brasileiro no início dos anos 2000.
Desde então, a cantora acompanhou diferentes transformações da indústria musical, atravessou mudanças de sonoridade e ampliou suas possibilidades artísticas, mantendo uma relação constante com a autonomia sobre seu trabalho.
Nos últimos anos, projetos como Casulo, a parceria com Nando Reis e as comemorações dos 20 anos de Admirável Chip Novo permitiram revisitar diferentes momentos de sua carreira.
Mesmo sem lançar um novo álbum solo de inéditas, Pitty permaneceu ativa, explorando outras formas de criação e colaboração.
Esse período mostra que a ausência de um disco não significa uma interrupção da atividade artística. O que ainda não havia surgido era um conjunto de novas composições capaz de representar aquele momento em uma obra própria.
Ao encontrar espaço para escrever novamente, a cantora parece ter recuperado uma liberdade criativa que nem sempre acompanha a rotina de uma carreira estabelecida.
A maturidade artística, nesse sentido, também pode significar aceitar o inesperado e permitir que novas ideias se desenvolvam sem a necessidade de controlar cada etapa do processo.
Com o lançamento de Pitty, a expectativa vai além do retorno de uma discografia que marcou gerações. O novo trabalho abre espaço para observar como uma artista com mais de duas décadas de carreira pode revisitar sua própria identidade sem depender das fórmulas que a consagraram.
Depois de tantos anos, Pitty parece interessada em descobrir o que ainda pode criar quando volta a confiar no impulso de escrever. É dessa disposição que nasce seu novo capítulo.


