Cameron Winter: a misticidade por trás do Carnegie Hall

Cameron Winter, foto por Lewis Evans
Cameron Winter se apresentando no Carnegie Hall | Foto por Lewis Evans

Ninguém deveria pagar ingresso para ver a nuca de alguém por setenta e cinco minutos. No entanto, quando as luzes se apagaram na sessão da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, lá estávamos nós, hipnotizados pela omoplata curvada, pelo colarinho preto sufocante e pelos cabelos desgrenhados de Cameron Winter, que transformou o palco mais nobre do ocidente em um confessionário invertido.

Em Cameron Winter at Carnegie Hall – híbrido febril de cinema em película e do álbum ao vivo Live at Carnegie Hall -, somos cúmplices de uma invasão de domicílio na mente de um compositor que parece ter engolido um século de música e agora tenta regurgitá-lo, tecla por tecla, antes que aquilo o mate.

Existe um tipo raro de eletricidade quando um artista decide sabotar a própria coroação. O Carnegie Hall foi erguido para a reverência limpa, para o aplauso educado entre movimentos de sinfonia – Cameron Winter entra nesse salão dourado como um penetra sonâmbulo.

Ao dar as costas para três mil pares de olhos – e para a própria história que o aguardava na plateia, com nomes como Michael Stipe (R.E.M.), Lee Ranaldo (Sonic Youth) e Trey Anastasio (Phish) -, o vocalista do Geese cria um vácuo gravitacional. Ele não quer ser amado ou ovacionado, e sim ser deixado em paz o suficiente para sangrar em público.

Paul Thomas Anderson entendeu esse paradoxo melhor do que ninguém. Munido de câmeras 35mm e 16mm que parecem respirar no escuro ao lado de Benny Safdie, o diretor banha o teatro em uma penumbra de óleo queimado e cera derretida. A câmera não assiste ao show: ela fareja Cameron Winter. Ora se comporta como um inseto pousado na madeira do Steinway, ora avança contra o rosto do músico com uma intimidade quase violenta. 

Vemos o suor brotar na testa durante a vertigem de It All Fell in the River; vemos o maxilar travado e o momento exato em que ele mergulha tão fundo sobre o marfim que a voz escapa da captação do microfone. No disco Live at Carnegie Hall, produzido com crueza cirúrgica por Ariel Rechtshaid, esse sumiço vocal soa como um defeito técnico – na tela da Mostra, descobre-se que é puro êxtase físico. O corpo de Winter simplesmente não cabe no enquadramento da etiqueta.

O que sai daquele piano quando as amarras de estúdio são cortadas é assustador. Se em Heavy Metal as canções pareciam presas em um labirinto claustrofóbico (contraste curioso com a urgência elétrica de Getting Killed), aqui elas ganham a musculatura de feras soltas no salão. Em Try As I May, o tempo deixa de ser contado pelo relógio e passa a seguir a arritmia cardíaca de quem canta, já em Drinking Age, os acordes graves caem como blocos de concreto na água. 

E quando ele tenta reproduzir sozinho a fúria de Nina + Field of Cops, ouvimos o som fascinante de um homem lutando contra a própria anatomia, martelando uma repetição hipnótica digna de Steve Reich até os dedos pedirem trégua.

Sobre essa massa de madeira e cordas percutidas paira uma voz que não pertence à certidão de nascimento de seu dono. Como pode um sujeito de vinte e poucos anos soar como um barítono que atravessou a Grande Depressão, morreu afogado no Mississippi e voltou para cobrar uma dívida? Winter dobra as palavras até que elas percam o sentido lógico e virem puro encantamento, evocando a linhagem espiritual de Bob Dylan, Leonard Cohen, Tim Buckley, Laura Nyro e Nina Simone. 

Ele desliza de um grave cavernoso e entediado para falsetes de soprano que ficam pendurados no lustre do teatro por quinze segundos a fio em The Rolling Stones, antes de despir Love Takes Miles até o osso e transformar o ragtime torto de Cancer of the Skull em um delírio lírico.

Nas inéditas, essa febre atinge proporções bíblicas. Emperor XIII in Shades ri da crucificação com o cinismo de um bêbado de fim de festa que divide a mesa com Tom Waits e Warren Zevon, enquanto If You Turn Back Now começa no quarto escuro de um coração partido e termina no púlpito de uma igreja em chamas, digna do fervor de Nick Cave, com Winter pregando que o diabo mora no céu e nos ama até a asfixia. É música que dá medo porque acredita piamente no próprio delírio.

Para que a corda não arrebente, surge o palhaço do cinema mudo. Nos intervalos em que o silêncio do Carnegie Hall fica espesso demais para ser respirado, Winter levanta-se do banco sem soltar uma sílaba, como um Buster Keaton da geração Z. Alonga a coluna, caminha até uma porta trancada e sacode a maçaneta como um pássaro batendo no vidro, ou vira o assento do piano de pernas para o ar para examinar seus parafusos.

A plateia ri, mas é um riso nervoso. Ninguém sabe onde termina a piada e onde começa o pânico de estar vivo diante de tanta gente.

Quando o furacão de $0 desaba no refrão e Cameron grita que Deus é real, as luzes do auditório se acendem de golpe. De repente, o feitiço se inverte: os três mil estranhos no escuro são obrigados a encarar os rostos uns dos outros, todos com a guarda arriada, todos flagrados no meio de um milagre profano.

Depois de abandonar o palco ao fim de Take It With You e deixar o teatro aplaudindo o vazio por seis minutos intermináveis, o artista volta uma última vez para Vines. Solta um seco agradecimento e some pela fresta da porta, espiando por cima do ombro com um meio-sorriso de quem acabou de aplicar um golpe perfeito. 

Saímos da sala da Mostra (e damos play em Live at Carnegie Hall de novo no caminho de casa) com uma única certeza: Cameron Winter mentiu a vida inteira nas entrevistas apenas para guardar toda a sua verdade para aquele piano.