Halsey nunca foi uma artista convencional. Entre narrativas únicas e sentimentos expostos do jeito mais puro, ela sempre demonstrou versatilidade e anseio pelo novo, recusando-se a ficar presa a um único gênero musical. É por isso que seus discos são muito diferentes uns dos outros, tanto na estética quanto no conteúdo lírico. O que os une, no entanto, é a narrativa confessional expressa através de alter egos e mundos visuais, guiada pelo destemor de ser vulnerável e de se distanciar do pop comercial.
Neste ano, a cantora desembarca no Brasil pela quinta vez como atração do Rock in Rio, no dia 13 de setembro, logo após o lançamento da versão deluxe de seu novo álbum, The Great Impersonator. O disco é mais um capítulo de sua trajetória musical disruptiva e crua, reafirmando que, para Halsey, a verdadeira arte mora na coragem de expor suas feridas mais profundas longe de fórmulas prontas.
Para entender um pouco mais sobre como a cantora se destacou desde o início de sua carreira, rompendo com fórmulas comerciais da indústria, é preciso passar por suas eras e conhecer, também, quem ela é além de suas composições e narrativas densas. A Moodgate vai dar essa volta logo abaixo, destacando sua trajetória e as camadas de seus discos ligados uma na outra. Confira:
Para começar: quem é Halsey?

Por trás dos palcos e das grandes produções conceituais, Halsey é a identidade artística de Ashley Frangipane, natural de Nova Jersey, que encontrou na escrita e na poesia um refúgio para as complexidades de sua própria realidade. Mulher bissexual, ativista e diagnosticada com transtorno bipolar ainda na adolescência, a artista iniciou sua trajetória na internet, ganhando notoriedade ao publicar composições autorais na plataforma Tumblr. Longe dos holofotes, sua biografia é marcada por uma resiliência frequentemente transposta para suas obras: Ashley enfrentou anos de dores crônicas, passou pelo trauma de abortos espontâneos antes do nascimento de seu filho, Ender, e recentemente revelou o diagnóstico de lúpus.
É justamente essa bagagem pessoal que alimenta o caráter confessional de sua identidade criativa, que está longe de camuflar suas vulnerabilidades, visto que ela utiliza seus alter egos e vivências de saúde e afeto como matéria-prima para organizar o próprio caos e dialogar, sem filtros, com o público. Além disso, ela consegue ser altamente teatral, com conceitos visuais, figurinos cinematográficos e narrativas complexas, sem soar falsa. O fio condutor é que, por trás de toda a maquiagem e do conceito da era, você sabe que é a Ashley expondo as vísceras.
Essa mesma honestidade se estende à sua postura diante do mercado fonográfico, onde Halsey consolidou-se como uma figura abertamente combativa. Ao longo da carreira, a artista teve atritos públicos com grandes engrenagens do sistema, denunciando a falta de transparência em premiações como o Grammy e o controle excessivo de gravadoras que condicionam lançamentos a métricas e viralizações artificiais em redes sociais. Ao bater de frente com as exigências comerciais da indústria e buscar independência contratual, ela reafirmou que sua prioridade máxima é a integridade e a liberdade total sobre sua identidade criativa.
Em suma, os álbuns da cantora se desenham como atos de uma narrativa autobiográfica. As mudanças drásticas de estética musical e visual servem, na verdade, como espelhos fiéis de suas vivências e transformações internas. Abaixo, há um pouco da identidade de cada uma de suas eras, o que mostra, na prática, o porquê de a cantora nunca ter almejado ser uma estrela pop tradicional:
De Badlands a The Great Impersonator: a versatilidade de Halsey em cinco discos
A trajetória de Halsey começou oficialmente com BADLANDS (2015), febre no Tumblr, um disco ambientado em uma metrópole distópica fictícia, cercada por um deserto árido de onde ninguém consegue escapar. Mais do que uma história fictícia, esse cenário apocalíptico e industrial serviu como uma metáfora brilhante e tátil para a mente da própria artista e sua relação com o transtorno bipolar. Musicalmente moldado por um synth-pop arrastado, sombrio e atmosférico, o álbum apresentou ao mundo uma jovem de cabelo azul-neon e visual grunge, assumindo logo de cara o papel de porta-voz de uma juventude ansiosa, vulnerável e fora dos padrões.
Em seguida, a artista elevou sua teatralidade com Hopeless Fountain Kingdom, uma releitura moderna, pop e futurista do clássico Romeu e Julieta. Assumindo o alter ego de Luna Aureum e adotando figurinos que misturavam a renascença com o streetwear, Halsey dividiu seu universo visual entre duas casas rivais para ilustrar o verdadeiro purgatório emocional que se segue após um término de relacionamento destrutivo. O som ganhou proporções cinematográficas e radiofônicas, flertando abertamente com o R&B e gerando grandes hits, mas sem deixar de usar o drama “shakespeariano” como escudo para expor suas próprias fraquezas amorosas, sua bissexualidade e a dificuldade de romper com ciclos tóxicos.
Se os primeiros trabalhos eram protegidos por distopias e conceitos literários, a era Manic chegou para quebrar todas as barreiras entre a personagem e a realidade. Com cabelos multicoloridos e uma estética muito mais humana, limpa e despida de superproduções, o álbum foi escrito inteiramente durante um período de crise de mania da cantora. Não existiam mais mundos fantasiosos: o conceito era a mente fragmentada e nua de Ashley Frangipane. Essa montanha-russa psicológica se refletiu em uma colcha de retalhos musical completamente imprevisível, pulando do pop acústico ao country, do trap ao rock de garagem, para dar tom a letras dolorosas sobre o medo do esquecimento, a solidão profunda e o desejo de ser mãe.
Uma curiosidade é que Halsey colocou seu talento à prova pintando a capa do álbum em uma tela durante uma live, que posteriormente virou o clipe da faixa Graveyard.
A maternidade, inclusive, acabou se tornando o ponto central da era seguinte, a aclamada If I Can’t Have Love, I Want Power. Produzido por Trent Reznor e Atticus Ross, do Nine Inch Nails, o projeto mergulhou de cabeça no rock industrial, no grunge e no post-punk para explorar o que a cantora chamou de o labirinto da sexualidade e do nascimento. Adotando uma estética gótica medieval e fortes referências ao horror religioso, Halsey usou a dualidade bíblica entre a Rainha e a Madona, a figura da mãe sagrada e purificada, para chocar e cantar o horror corporal, o peso de dinâmicas afetivas tóxicas, as transformações da gravidez e os traumas de seus abortos anteriores. Essa narrativa visual foi tão grandiosa que se desdobrou em um filme homônimo lançado em salas IMAX, ambientado em um cenário medieval sombrio e expressionista, funcionando como um manifesto tenso, agitado e barulhento sobre a raiva feminina e a recusa absoluta em se moldar ao papel de mãe dócil e perfeita exigido pela sociedade.
Por fim, a artista entregou sua fase mais camaleônica e íntima com The Great Impersonator. Concebido após o diagnóstico de graves problemas de saúde, como o lúpus, o álbum funciona como uma investigação profunda sobre a própria mortalidade e identidade, onde Halsey se transforma fisicamente em suas maiores referências musicais, cruzando estéticas que vão dos anos 1970 aos 2000. Sonoramente, o disco se parece como uma viagem no tempo em que cada faixa emula a produção de uma década diferente para responder a uma pergunta dolorosa: se ela tivesse estreado em outra época, sob outras circunstâncias, ela teria sobrevivido?
O resultado mostra uma escrita confessional tão íntima, despindo-se de qualquer artifício para cantar sobre a dor crônica, o medo do envelhecimento e o peso de ter passado a vida fingindo estar bem diante dos holofotes.
Bônus: Without Me, Experiment On Me e Nightmare
A música Without Me, escrita durante uma passagem por São Paulo após um término de relacionamento difícil, segundo speechs da própria Halsey em shows no Brasil, tornou-se um dos seus maiores sucessos ao desnudar sua vulnerabilidade em meio a pensamentos angustiantes, provando que a sua honestidade crua consegue também alcançar grandes paradas.
Já Nightmare, com um videoclipe de estética Riot Grrrl, serve como um hino de empoderamento, desafiando a forma como a sociedade silencia as mulheres e exigindo espaço para as suas complexidades, enquanto Experiment On Me, composta para a trilha sonora do filme Aves de Rapina, demonstra sua faceta mais agressiva ao mergulhar no gênero nu-metal, ela reafirma que não tem medo de abandonar a segurança de gêneros já explorados para explorar estéticas que refletem o peso e a intensidade de sua própria arte.


