Para a felicidade dos curitibanos mais saudosistas, o Cine Lido foi reinaugurado como casa de shows e, para isso, contou com um nome de peso: Caetano Veloso, no auge de seus 84 anos, com um repertório vastamente conhecido que conseguiu incorporar clássicos, homenagens e músicas mais atuais.
O local, que foi fundado em 1959 na chamada Cinelândia de Curitiba, foi muito popular nos anos 1980 e 1990, mas acabou perdendo espaço para as salas de cinema de shopping e fechou as portas em 2017. Sua reabertura, portanto, foi recebida com muita alegria tanto por aqueles que frequentavam o local quanto por quem clamava por um espaço suntuoso no centro da cidade, que conta com um projeto de revitalização muito defendido pela prefeitura.
E apesar de problemas de infraestrutura pontuais, que, inclusive, causaram um atraso de uma hora, a casa foi palco para um brilhante show de Caetano, intimista, porém estratégico nas escolhas de canções, que embalaram um público composto por diferentes idades.



Mesmo com a espera, os espectadores não tiveram seu entusiasmo minado, e a abertura com Branquinha, do álbum Estrangeiro (1989) foi um alento e uma resposta sobre como o show seria conduzido: um repertório flexível o suficiente para sustentar bem a parca uma hora de show.
As homenagens foram uma das formas encontradas por Caetano para revisitar sua própria trajetória. Além das claras referências a Maria Bethânia, irmã com quem viajou o Brasil há pouco tempo em turnê conjunta, Gal Costa também foi belissimamente recordada com Vaca Profana, uma composição de Caetano feita a pedido da cantora e eternizada por sua inconfundível voz em Profana (1984). Em outro extremo dessa mesma capacidade de diálogo, Um Baiana seguiu uma linha mais atual com uma homenagem ao conjunto BaianaSystem.



O passado também apareceu sem qualquer sinal de envelhecimento. Divino, Maravilhoso, composta conjuntamente com Gilberto Gil e lançada no Gal Costa (1969), trouxe o rock n’ roll para a apresentação, enquanto Podres Poderes apareceu com uma energia mais categórica. Lançada no álbum Velô (1984), a letra tem trechos tão atuais que chega a assustar. Quatro décadas depois, a crítica ao abuso de poder e à naturalização da fome, da violência e das desigualdades permanece reconhecível em um Brasil que ainda convive com muitos dos problemas apontados pela canção.
Sua carreira multifacetada se mostra, também, nas faixas atuais que ele encaixa no repertório. Anjos Tronchos, por exemplo, é do último álbum lançado: Meu Coco (2021). Durante a música, as luzes e a imagética do palco ganharam protagonismo e acompanharam uma composição que trata diretamente da presença das telas e das novas tecnologias na vida cotidiana.
A combinação entre o que se ouvia e o que se via tornou mais concreta a reflexão proposta pela faixa sobre o uso da tecnologia atualmente e como isso afeta o comportamento humano.
Essa convivência entre tempos diferentes apareceu também nos momentos mais leves. Cajuína deu um toque mais dançante ao espetáculo e levou os presentes aos dois passinhos para lá e para cá. Já a segunda metade contou com uma sequência de Alegria, Alegria, Não Enche, Queixa, Desde que o Samba é Samba e Reconvexo, que animaram ainda mais uma plateia já vibrante com arranjos que iam desde os mais potentes até os mais delicados.
Reconvexo com uma das letras mais marcantes da música nacional! pic.twitter.com/Nt9V5XgpdG
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) August 27, 2026
Ao citar a abordagem estratégica adotada por Caetano, o que se quer dizer é exatamente isso: ele consegue transitar com maestria pelas novas e velhas composições sem que elas destoem entre si, proporcionando um show que se vende como um tributo a própria carreira. E isso, claro, além de se dar pela genialidade de Caetano, também tem grande ajuda da banda de apoio, comandada por Lucas Nunes.
O Cine Lido abriu suas portas com um show que combinou celebração e reafirmação de identidade cultural. Encerrando a apresentação em clima de festa, o artista trouxe a plateia para É Hoje, samba-enredo de Didi e Mestrinho que a União da Ilha do Governador levou à avenida em 1982. A canção transformou o final da noite em uma celebração coletiva, com o público dançando e cantando junto à banda.
A escolha de Caetano Veloso para abrir o Cine Lido não parece acaso: ambos carregam a renovação como marca central de sua trajetória. Sem incidentes relevantes, a estreia da casa reforça a expectativa de que o espaço se torne um ponto relevante no cenário cultural de Curitiba nos próximos anos, contribuindo com a elevação da cultura curitibana com elegância.


