Milo J faz diferentes gerações da Argentina dividirem o mesmo palco no Rock in Rio

Milo J se apresenta no Palco Supernova durante o Rock in Rio 2026
Milo J durante apresentação no Palco Supernova do Rock in Rio 2026. Foto: João Rocha / Moodgate

Com apenas 19 anos, argentino levou ao Palco Supernova um repertório que aproximou música urbana, memória e tradição, diante de fãs que atravessaram até a Patagônia para vê-lo no festival

O primeiro sinal de que Milo J talvez estivesse em um palco pequeno demais apareceu antes mesmo de ele começar a cantar. O entorno do Supernova já reunia uma multidão à espera do argentino, com fãs brasileiros dividindo espaço com camisas e bandeiras de seu país.

Entre elas estava uma família que saiu da Patagônia para chegar ao Rio de Janeiro e assistir ao show. A bandeira argentina que carregavam acabou registrada pela Moodgate antes da apresentação. Algumas horas de música haviam exigido uma viagem de milhares de quilômetros.

Quando Camilo Joaquín Villarruel apareceu e abriu o repertório com Bajo de la piel, a resposta veio imediatamente. Aos 19 anos, Milo é um dos artistas mais jovens desta edição do Rock in Rio. Ainda assim, alguns dos sons que trouxe para a Cidade do Rock nasceram muito antes dele.

Essa contradição acompanhou boa parte da apresentação.

Graves e elementos eletrônicos ligados ao artista revelado pela música urbana argentina dividiram espaço com violões, percussões e melodias que apontam para outros momentos da música de seu país. Em vez de escolher entre esses universos, Milo encontrou espaço para os dois.

O passado apareceu como matéria-prima.

La vida era más corta ganha corpo

Se La vida era más corta já apontava uma mudança importante na trajetória de Milo J, o palco ajudou a dimensionar essa transformação. Faixas como Bajo de la piel, Solifican12, 3 pecados después… e Cuando el agua hirviendo apareceram em um repertório no qual a instrumentação foi além das bases eletrônicas associadas aos primeiros anos de sua carreira.

Violões e percussões dividiram espaço com beats e graves, enquanto a banda aproximava linguagens separadas por décadas de música argentina. O rap continuou presente, assim como o eletrônico, mas nenhum deles precisou ocupar tudo.

Milo transitou por essas referências sem transformar cada mudança em um acontecimento isolado. Uma música podia carregar estruturas contemporâneas e, minutos depois, o repertório apontava para melodias e instrumentos ligados à tradição de seu país.

Isso ganha outro peso pela idade de quem conduz tudo. Milo nasceu em 2006 e ainda tem pouco passado próprio para revisitar. No Rock in Rio, parece interessado também na memória coletiva que existia muito antes dele.

Da Patagônia ao Rio de Janeiro

Em determinado momento, Milo olhou para a multidão e tentou colocar em palavras a dimensão daquela noite.

“Eu sou de outro país e isso é uma loucura. Muito obrigado, Rock in Rio. Essa visita ao Brasil tem sido incrível.”

A poucos metros dali, uma família que havia saído da Patagônia carregava a bandeira argentina diante do palco. A cena resume uma parte importante do que aconteceu no Supernova. Milo estava cantando fora de seu país, em um dos maiores festivais brasileiros, mas a Argentina continuava presente em praticamente todos os lados do show.

As referências não foram suavizadas para tornar o repertório mais facilmente compreensível fora de casa. Permaneceram na língua, nos arranjos e na maneira como ele construiu a apresentação. O público brasileiro não precisou de tradução para responder.

Quanto mais a carreira de Milo atravessa fronteiras, mais sua música parece interessada em investigar o lugar de onde saiu. A tradição não apareceu como intervalo ou homenagem. Fez parte do mesmo universo das músicas que transformaram um adolescente de Morón em um dos principais nomes de sua geração na Argentina.

Os hits encontram outra versão de Milo

A temperatura mudou conforme o repertório se aproximou das músicas que acompanharam sua ascensão. Depois de passar por Fruto, Recordé, Cuestiones, Lucía e Mmmm, M.A.I encontrou uma plateia pronta para assumir parte da música.

Os celulares subiram e a distância entre palco e público diminuiu. Versos escritos quando Milo ainda era adolescente voltaram para ele através de milhares de vozes em outro país.

M.A.I sintetizou bem essa relação. A música deixou de pertencer apenas a quem estava no palco assim que o público reconheceu seus primeiros momentos. Milo pôde entregar trechos para a plateia e ouvir de volta uma canção que ajudou a levar sua carreira muito além da Argentina.

Na sequência, Niño, Luciérnagas, Gil, Olimpo, Milagrosa e Rara vez completaram um set que evitou separar o Milo do início da carreira daquele que existe agora.

Essa convivência é importante. O artista interessado em tradição argentina e o adolescente que encontrou seu espaço no rap pertencem à mesma história.

O Supernova ainda comporta Milo J?

Em determinados momentos, olhar para fora do palco dizia tanto quanto olhar para ele. A quantidade de pessoas reunidas para assistir ao argentino transformou o Supernova em um espaço apertado para uma carreira que cresceu rapidamente nos últimos anos.

Existe uma ironia nisso. O palco ocupa dentro do Rock in Rio um lugar associado à descoberta e a artistas em direção a espaços maiores. Milo chegou ao festival com apenas 19 anos, mas com uma audiência internacional que começa a desafiar essa definição.

A sensação deixada pela apresentação foi menos a de descobrir um nome que pode crescer e mais a de encontrar alguém no meio desse crescimento. Talvez este seja justamente um daqueles shows que ganhem outra dimensão quando revisitados alguns anos adiante.

Antes de descobrir para onde vai

Ao final de Rara vez, diferentes versões de Milo J haviam dividido o mesmo palco. Estava ali o adolescente que encontrou no rap uma maneira de colocar suas experiências em música, o compositor que viu essas canções atravessarem rapidamente as fronteiras da Argentina e o artista de La vida era más corta, interessado em descobrir quanto da música que existia antes dele ainda pode participar daquilo que está construindo agora.

É uma ideia que a própria Moodgate já havia definido como uma “costura dos tempos”. No Rock in Rio, ela ganhou dimensão física. Estava nos instrumentos, nos arranjos e na voz de um garoto de 19 anos diante de uma plateia majoritariamente jovem. Estava também nas bandeiras argentinas erguidas a milhares de quilômetros de casa.

Milo não tentou resolver a distância entre essas épocas. Deixou que elas convivessem. Aos 19 anos, ainda tem uma carreira inteira para descobrir até onde sua música pode chegar. Antes disso, Milo J parece querer saber exatamente de onde ela veio.