Halsey transforma todas as versões de si mesma em uma só no Rock in Rio

Halsey durante apresentação no Palco Mundo do Rock in Rio 2026
Halsey leva diferentes fases de sua carreira ao Palco Mundo do Rock in Rio 2026. Foto: Moodgate

Em sua estreia no festival, cantora atravessa diferentes fases da carreira com guitarras, teatralidade e novos arranjos para antigos hits

Nightmare começa com guitarras, bateria e uma Halsey interessada em transformar o Palco Mundo em um lugar muito menos confortável do que seu tamanho sugere.

A voz cresce, o instrumental pesa e, quando I am not a woman, I’m a god aparece logo depois, qualquer expectativa por uma simples sequência de hits já ficou para trás.

A apresentação atravessa mais de uma década de uma carreira que raramente permaneceu dentro da mesma estética por muito tempo. Pop, eletrônico, punk e industrial já ocuparam espaços diferentes na música de Halsey.

Uma torre para todas as Halseys

A própria construção visual ajuda a contar essa história. A torre que domina o cenário não funciona apenas como pano de fundo. Halsey ocupa diferentes espaços da estrutura enquanto luzes, figurinos e elementos cênicos acompanham as mudanças do repertório.

Depois de Castle e You should be sad, Dog Years leva a apresentação para um território mais físico e sombrio. You asked for this aproxima ainda mais Halsey das guitarras e da banda que sustenta boa parte do peso do show.

A torre também se transforma. O espetáculo carrega para o ambiente de festival parte da dramaturgia de The Girl in the Tower, sem permitir que a história visual engula as músicas.

A dificuldade de encaixar Halsey dentro de uma identidade única acompanha praticamente toda a sua carreira. No Palco Mundo, isso deixa de ser apenas uma discussão sobre discografia e ganha forma física.

Existe literalmente uma estrutura diante dela.

O passado muda junto com ela

A passagem por BADLANDS não significa necessariamente reencontrar a Halsey de 2015.

Onze anos separam aquele primeiro álbum da artista que agora ocupa o Palco Mundo. Em vez de reconstruir exatamente aquele universo, ela traz as músicas antigas para o presente.

Colors é um dos melhores exemplos. A composição preserva aquilo que a tornou imediatamente reconhecível, mas ganha outra dimensão com guitarras mais presentes. Halsey não tenta reproduzir a atmosfera da gravação como se o tempo tivesse parado.

Canta a música como a artista que se tornou.

A resposta do público ajuda a dimensionar o caminho percorrido desde então. Uma geração que encontrou Halsey através de BADLANDS cresceu junto com aquelas canções e agora devolve seus versos em um dos maiores palcos do país.

A distopia adolescente de 2015 encontra adultos cantando cada palavra no Rock in Rio em 2026.

Closer leva essa relação ainda mais longe. A música que ajudou a colocar Halsey diante de uma audiência gigantesca em 2016 poderia parecer deslocada em uma apresentação marcada por guitarras, bateria e momentos muito mais agressivos.

Não parece.

O novo arranjo aproxima o hit da linguagem que conduz o show atual sem retirar aquilo que fez milhares de pessoas reconhecerem a música imediatamente.

Halsey não precisa fingir que Closer nunca aconteceu para mostrar o quanto mudou. Pode simplesmente tocá-la como a artista que é hoje.

A voz também ganhou peso

A transformação não acontece apenas nos arranjos. A maneira como Halsey utiliza a própria voz também diminui a distância entre fases que, nos discos, podem parecer muito diferentes.

A voz limpa dos momentos mais melódicos divide espaço com drive, gritos e interpretações cada vez mais físicas conforme as guitarras crescem ao redor dela.

Experiment on Me leva essa característica ao limite.

Os gritos não aparecem como um recurso isolado. Fazem parte de uma interpretação que ganhou outras possibilidades conforme a música de Halsey também ficou mais pesada.

A banda é fundamental nessa costura. Bateria e guitarras criam uma unidade que não existe necessariamente quando sua discografia é percorrida cronologicamente. Canções produzidas em épocas e contextos diferentes passam a conversar dentro da mesma linguagem ao vivo.

É impossível observar essa transformação sem lembrar de If I Can’t Have Love, I Want Power. Produzido por Trent Reznor e Atticus Ross, o disco abriu espaço para uma Halsey mais agressiva e ajudou a aproximar definitivamente as guitarras do centro de sua obra.

No Rock in Rio, essa linguagem já não parece uma ruptura.

O pop continua ali

Depois de tanta intensidade, Without Me faz o movimento contrário. Halsey diminui. O espaço ocupado pelas guitarras dá lugar a uma interpretação mais exposta, enquanto milhares de pessoas reconhecem os primeiros versos e assumem parte da música.

Não é preciso transformar Without Me em outra coisa para que ela pertença ao mesmo espetáculo.

Esse contraste evita que a apresentação permaneça o tempo inteiro na mesma temperatura. Depois de momentos construídos em torno de peso, gritos e excesso visual, Halsey permite que a vulnerabilidade volte ao centro.

É justamente aí que separar uma “Halsey pop” de uma “Halsey rock” começa a fazer pouco sentido. As duas estão diante da mesma plateia.

Nem toda passagem entre essas identidades acontece com a mesma naturalidade. Em um repertório que tenta condensar mais de uma década de carreira e mudanças profundas de linguagem em pouco mais de uma hora, algumas transições acontecem rápido demais para que a narrativa visual e musical encontre o mesmo desenvolvimento.

A ambição do espetáculo também é sua principal dificuldade. Há muitas Halseys tentando caber dentro do mesmo tempo. Ainda assim, é justamente quando essas diferenças se chocam que o show encontra alguns de seus melhores momentos.

A torre cai

Quando Lonely is the Muse começa, praticamente todas as versões de Halsey já passaram por aquele palco.

BADLANDS esteve ali. Os grandes hits pop também. A agressividade de Nightmare, o peso incorporado à sua música nos últimos anos e a artista que existe hoje ocuparam a mesma estrutura.

Então, a torre cai.

A imagem quase dispensa explicação. Colors coube ao lado de Nightmare. Without Me dividiu o mesmo show com Experiment on Me. O pop não precisou desaparecer para que as guitarras ganhassem peso.

Durante anos, Halsey construiu universos diferentes para cada momento de sua carreira. No Rock in Rio, eles finalmente puderam ocupar o mesmo lugar.

Todas essas versões chegaram ao Palco Mundo.

E talvez a Halsey de 2026 seja justamente aquela que já não precisa escolher qual delas deseja ser.