No dia 13 de julho de 1985, o festival beneficente Live Aid entrou para a história da cultura pop, ao reunir dezenas de gigantes da música mundial, tanto na sua edição britânica (realizada no Estádio de Wembley, em Londres) quanto na sua edição americana (que foi realizada paralelamente à britânica, no Estádio John F.Kennedy, da Filadélfia). Como hoje é o aniversário de 40 anos deste evento antológico, nós decidimos contar para vocês algumas curiosidades sobre ele, em uma matéria dividida em duas partes (a primeira abordará a idealização e as recusas que os organizadores do Live Aid enfrentaram no processo de preparação do festival, enquanto a segunda será totalmente dedicada ao evento em si). Se liguem no Mood:
A idealização do Live Aid
Em 1983, a seca persistente e as enormes consequências econômicas da Guerra Civil da Etíopia (1974-1991) mergulharam esse país africano em uma das maiores crises humanitárias já ocorridas na história do planeta – a população etíope estava assolada por uma fome generalizada que vitimou mais de 300 mil pessoas em um único ano e, ao longo de 1984, o autoritário governo de Mengistu Haile Mariam só piorou essa situação, ao promover relocações forçadas em aldeias com péssimos alojamentos, péssimas condições de higiene e péssimos atendimentos médicos. Por isso, em novembro de 1984, os músicos/ativistas Bob Geldof (do grupo irlandês The Boomtown Rats) e Midge Ure (do grupo britânico Ultravox) montaram o projeto beneficente Band Aid, reunindo Bono, George Michael, Sting, Phil Collins, Boy George e várias outras lendas da música europeia, para gravar o single Do They Know It’s Christmas – que foi lançado nas lojas em dezembro daquele ano e teve uma arrecadação em vendas 100% revertida para o combate à fome etíope.
Diretamente, Do They Know It’s Christmas rendeu 8 milhões de Euros à Etiópia, mas, indiretamente, o valor financeiro arrecadado graças à canção foi ainda maior do que esse – afinal, a iniciativa de Geldof e Urie foi o que acabou inspirando o músico/ativista Harry Belafonte a recrutar um time de lendas da música estadunidense, para gravar o single We Are The World (que foi lançado em março de 1985 e resultou em uma arrecadação de 80 milhões de dólares para o povo etíope).
Durante as gravações de Do They Know It’s Christmas, o cantor Boy George (do grupo Culture Club) sugeriu a Bob Geldof que um concerto beneficente reunindo gigantes da música também seria uma excelente forma de angariar fundos para a Etiópia. Assim, Geldof decidiu criar o Live Aid, contando, novamente, com a parceria do amigo Midge Ure (além do apoio de alguns experientes promotores de eventos).
Como a intenção era fazer com que dezenas de milhares de pessoas comprassem os ingressos beneficentes do evento, ficou definido que o Live Aid seria realizado, simultaneamente, no Estádio de Wembley (em Londres) e no Estádio John F. Kennedy (na Filadélfia), reunindo o maior número possível de artistas renomados, em cada um desses locais.
Bob Geldof assumiu a direção musical do festival, ao ficar responsável por selecionar os artistas e por negociar com cada um deles. Porém, por mais que músicos do mundo inteiro estivessem expressando apoio público ao combate à fome na Etiópia, montar uma lineup estrelada para o Live Aid não foi uma missão tão fácil quanto a maioria das pessoas acha que foi.
Várias recusas e cancelamentos
Poucas pessoas sabem, mas nem todos os artistas que foram convidados para participar do Live Aid aceitaram o convite de Geldof: vários nomes de peso foram sondados pelo festival, mas acabaram não participando dele, por motivos diversos. Eis alguns deles:
–Michael Jackson se mostrou muito interessado em ajudar a Etiópia, quando co-escreveu e participou do single beneficente We Are The World, meses antes. O single arrecadou dezenas de milhares de dólares para a Etiópia, mas o Rei do Pop não pôde estender a sua ajuda participando do Live Aid, por conflitos de agenda.
–Prince não quis comparecer no Live Aid, pois não gostava da música We Are The World (e os organizadores do festival queriam que ele cantasse ela ao vivo, com outros artistas, em determinado momento). Ao invés de aparecer presencialmente no evento, o cantor optou por enviar o videoclipe de sua música 4 The Tears In Your Eyes a Bob Geldof, para que os organizadores do Live Aid exibissem lá, em primeira mão.
–Stevie Wonder ajudou a Etiópia quando participou da gravação de estúdio de We Are The World, mas recusou o Live Aid, pois achou que a programação musical do evento tinha pouca representatividade negra e que a sua participação seria por mero ‘’tokenismo’’.
–Bruce Springsteen demonstrou o seu apoio à Etiópia participando da gravação de We Are The World e cedendo diversos dos seus equipamentos para o palco do Live Aid. Porém, quando o ‘’The Boss’’ foi chamado para tocar no festival, ele disse ‘’não’’, alegando que estava fisicamente exausto, pois a sua extensa turnê mundial ‘’Born In The USA’’ havia acabado naquela mesma semana. Contudo, anos depois, Bruce admitiu publicamente que se arrepende muito de não ter participado do evento.
-Embora o vocalista do Culture Club (Boy George) tenha sido o grande responsável por sugerir a ideia do Live Aid a Bob Geldof, esse grupo musical acabou não se apresentando no evento, pois, naquela época, Boy George estava constantemente sob a influência de heroína e vinha entregando performances vexatórias – de forma autoconsciente, ele mesmo não quis correr o risco de entregar um péssimo show para o mundo inteiro assistir.
-Os membros do grupo britânico Def Leppard foram convidados para tocar no Live Aid, mas recusaram a oferta, pois, na época, um dos integrantes da banda passava por uma situação muito difícil: em dezembro de 1984, o baterista Rick Allen teve que amputar o braço esquerdo após um acidente e, como um gesto de solidariedade ao músico (aliás, um gesto admirável e bastante raro no meio musical), todos os companheiros de Rick no Def Leppard decidiram paralisar totalmente as atividades do grupo até o artista aprender a tocar bateria com um único braço (o que, felizmente, acabou realmente acontecendo… mas só a partir de 1987).
-A cantora Cyndi Lauper iria realizar uma participação especial surpresa, durante o set de Patti Labelle, no Live Aid americano. Porém, Cyndi não apareceu no evento e, somente anos depois, o motivo disso foi revelado: no exato dia do festival, ela teve que ser hospitalizada, para se submeter a uma cirurgia abdominal de urgência (provavelmente, uma apendicectomia).
-Por muitos anos, Rod Stewart pensou que não havia sido convidado para cantar no Live Aid e sempre enxergou isso com estranheza. Porém, recentemente, o cantor britânico afirmou ter descoberto a verdade: ele só não participou de tal evento por culpa do seu então empresário – que recusou o convite dos organizadores sem sequer perguntar qual era a vontade do artista. Os motivos que levaram esse ex-funcionário recusar a oferta teriam sido a ausência de cachê, a curta duração pedida para o espetáculo e o horário previsto da apresentação (que não ganharia destaque na cobertura televisiva da CBS), mas, em entrevistas recentes, Rod alegou que essas condições jamais teriam o impedido de aceitar cantar no Live Aid, pois ele sabia muito bem que ‘’o foco do evento não era autopromoção, mas sim arrecadar fundos para a África’’.
-O duo Tears For Fears chegou a ser listado no cartaz oficial do Live Aid, mas esse anúncio aconteceu sem o consentimento de Curt Smith e Roland Orzabal. Isso porque Bob Geldof era amigo dos dois músicos, sabia que a banda não tinham compromissos marcados para o dia 13 de julho de 1985 e estava crente de que Curt e Roland aceitariam participar do festival. Porém, naquela época, o Tears for Fears havia acabado de lançar o fenomenal álbum Songs From The Big Chair (1985) e estava vivendo um ritmo exaustivo de shows, em consequência do estouro absurdo de faixas como Head Over Heels, Shout e Everybody Wants To Rule The World. Tanto Curt quanto Roland queriam tirar aquele dia livre para descansar e, por isso, a participação do grupo teve que ser retirada do cronograma do evento.
–Paul Simon (que, naquela época, estava em um dos muitos hiatos da dupla Simon & Garfunkel) já havia expressado solidariedade à Etiópia quando participou da gravação de We Are The World. Logo, era de se esperar que Bob Geldof o convidaria para cantar na edição americana do Live Aid. Simon, inicialmente, aceitou o convite e ficou muito animado quando Geldof contou que ele iria fazer dueto com Bob Dylan, em determinado momento do festival. Porém, mesmo assim, não demorou muito para Simon acabar desistindo de participar do evento – isso porque o seu gênio difícil se chocou com o do promotor de shows Bill Graham (organizador principal da edição americana do Live Aid).
-A cantora Diana Ross foi outro nome que participou do single We Are The World, mas declinou o Live Aid. Os motivos dela nunca foram muito bem-explicados, mas tudo indica que ela, simplesmente, não tinha interesse em participar de um evento onde tantos outros artistas também se apresentariam.
-Os membros do Van Halen foram chamados para participar do Live Aid, mas tiveram que rejeitar o convite, pois, naquela época, eles ainda estavam em processo para achar um novo vocalista (David Lee Roth havia deixado o grupo em abril de 1985, após anos de brigas intensas com o guitarrista Eddie Van Halen). A banda só conseguiu contratar um cantor substituto à altura de Lee Roth (no caso, Sammy Hagar) poucos dias depois do Live Aid.
-Em 1977, Cat Stevens se converteu ao Islamismo, trocou o seu nome artístico para Yusuf Islam e decidiu deixar o mundo da música. O cantor acabaria retornando a esse ofício em 1995, mas, na época do Live Aid, ele estava totalmente afastado dos palcos. Por isso, Geldof ficou surpreso quando conseguiu convencer Yusuf a participar do Live Aid britânico… porém, no dia do evento, o artista disse que, ao invés de cantar alguma de suas músicas, ele queria apenas discursar para a plateia do Estádio de Wembley. Como Yusuf havia dado algumas declarações extremistas bastante polêmicas nos anos anteriores e se recusou a deixar Geldof ler o discurso preparado, a participação do cantor foi cortada do Live Aid. Em julho de 2020, durante uma entrevista concedida à revista Radio Times, o próprio Yusuf admitiu que Geldof tomou a decisão certa, pois cortar aquele discurso específico foi, realmente, ”o melhor para o evento’’.
-O cantor e pianista Billy Joel aceitou a proposta de se apresentar no Live Aid americano e foi, até mesmo, anunciado no cartaz oficial do evento. Porém, ele não conseguiu reunir uma banda de apoio a tempo para o festival e achou que um show no formato voz/piano não iria animar um estádio. Por isso, Billy Joel decidiu cancelar a sua participação, poucos dias antes do Live Aid.
-O grupo Huey Lewis and The News havia confirmado presença na edição americana do Live Aid, mas, duas semanas antes do dia do festival,a banda comunicou a Bob Geldof que não iria mais se apresentar, pois o vocalista Huey Lewis (que já havia participado do We Are The World) percebeu que o governo ditatorial de Mengistu Haile Mariam estava desviando grande parte do dinheiro que deveria ser aplicado no combate à fome da Etiópia.
–Kris Kristofferson estava escalados como o único representante da música Country, na lineup americana do Live Aid. O nome do cantor ficou no cartaz oficial do festival até o último segundo, mas Kris não compareceu ao evento. Isso, provavelmente, foi um protesto dele, contra a ausência de artistas Country na programação do espetáculo (especialmente, contra a ausência de Johnny Cash, Willie Nelson e Waylon Jennings – que estavam em turnê com ele, no projeto colaborativo ‘’The Highwaymen’’, mas não foram convidados para cantar no Live Aid).
-Quando o Deep Purple foi convidado para tocar no Live Aid, Ian Gillan (vocalista), Ian Paice (baterista), Jon Lord (tecladista) e Roger Glover (baixista) ficaram animados com a ideia, mas a participação não aconteceu devido à recusa do então guitarrista do grupo, Ritchie Blackmore.
-Em 1985, o Pink Floyd estava sem fazer shows há quatro anos, devido à péssima relação que David Gilmour mantinha com Roger Waters (algo que, aliás, se mantém até os dias de hoje). Bob Geldof pensou que iria conseguir promover uma reunião da dupla, no Live Aid, mas, naquele momento, a última coisa que Gilmour e Waters queriam era tocar um com o outro: os dois sócios estavam em um processo de desvinculação legal e em uma batalha judicial para ver quem poderia seguir utilizando o nome da banda (o que acabou resultando na saída de Waters). Isso foi o que motivou a ausência do Pink Floyd no Live Aid, mas vale lembrar que Gilmour fez uma aparição surpresa no evento, atuando como guitarrista do cantor Brian Ferry.
-Outra reunião que Bob Geldof falhou ao tentar promover foi a dos três membros dos Beatles que estavam vivos, naquela época – a ideia inicial de Geldof era encerrar o Live Aid com uma performance conjunta de Paul McCartney, George Harrison, Ringo Starr e Julian Lennon (filho mais velho de John Lennon). Paul se mostrou aberto à proposta, mas George e Ringo a recusaram, pois não queriam dar munição para a imprensa especular uma suposta ‘’volta dos Beatles sem John Lennon’’.
Apesar de todas as recusas que foram listadas acima, a organização do Live Aid acabou conseguindo contar com a colaboração de outros nomes lendários da música mundial – tais como Queen, Paul McCartney, U2, Black Sabbath, Elton John, Bob Dylan, Led Zeppelin, David Bowie, Madonna, The Beach Boys, Judas Priest, Dire Straits, Phil Collins, Sting, The Who, Eric Clapton, Tina Tuner, Mick Jagger, Keith Richards, Hall & Oates, Wham!, Run-DMC, B.B King, Santana, Tom Petty e Duran Duran. Porém, o festival em si é algo que nós abordaremos na segunda parte desta matéria especial!


