Dave Grohl e a relação quase matrimonial com o público brasileiro

Foo Fighters reunidos em foto promocional de divulgação do novo álbum Your Favorite Toy
Foo Fighters em imagem promocional divulgada durante a nova fase da banda

Eu me lembro de uma entrevista em que Dave Grohl descreveu a sensação de tocar pela primeira vez no Brasil. E olha que o batismo foi no maior palco possível: dez anos depois de sua última edição, o Rock in Rio voltava ao país, e o Foo Fighters se apresentaria na mesma noite de R.E.M., Beck e Barão Vermelho.

Dave contou que não sabia se as pessoas conheceriam suas músicas. Só que, naquela edição, passava um vídeo de apresentação da banda pouco antes da entrada no palco. Nesse vídeo, tocavam apenas alguns segundos de Breakout, lançada um ano antes, em 2000. Grohl disse que ouviu o público cantando aqueles poucos segundos em uníssono. Aquilo o tranquilizou.

Talvez tenha sido ali que a relação começou de verdade. Um artista chegando sem saber o tamanho do próprio alcance e um público respondendo antes mesmo do primeiro acorde ao vivo.

A partir daquele momento, o Foo Fighters adotou o Brasil como uma segunda casa. Ou melhor: o Brasil adotou o Foo Fighters como parte da família.

Foo Fighters
Foto: Divulgação

Mas como foram as outras passagens da banda por aqui? A Moodgate te conta.

2012: o retorno no Lollapalooza

Longos 11 anos depois da primeira passagem, o Foo Fighters retornou ao Brasil como headliner da primeira edição do Lollapalooza em São Paulo. A banda vinha de um dos melhores discos da carreira, o maravilhoso Wasting Light, e entregou mais de duas horas de show.

Arlandria, Rope, White Limo e a minha favorita, Dear Rosemary, ainda eram músicas recentes. Mesmo assim, incendiaram as 75 mil pessoas presentes e mostraram de cara como aquele álbum já nasceu gigante.

E, para brindar uma noite mágica, Joan Jett se juntou à banda no palco para tocar os clássicos Bad Reputation e I Love Rock ‘n’ Roll. Foi aquele tipo de participação que parece simples no papel, mas vira uma memória inesquecível quando acontece.

2015: a primeira turnê solo e o Maracanã

Três anos depois, o Foo Fighters se consolidou por aqui. O sucesso no Brasil foi tão grande que, em 2015, eles voltaram para uma turnê solo. A rota passou por São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte.

Era a primeira vez que a banda vinha ao país fora do contexto de festivais. Isso dizia muito. O Brasil já não era apenas uma parada especial em um grande evento. Era mercado, era público fiel, era casa cheia com nome próprio na fachada.

Na época, Dave Grohl concedeu uma entrevista à Rolling Stone Brasil e soltou uma daquelas frases que até soam clichês, mas continuam verdadeiras: “o público daí é maluco pra cacete! Todas as vezes que fomos até aí, tivemos os melhores shows do mundo.”

Quem viu, sabe. Quem não viu, provavelmente ouviu alguém falando sobre isso por anos.

2018 e 2019: a consolidação

Em 2018, a banda retornou ao Brasil pela turnê Concrete and Gold, com o Queens of the Stone Age como convidado especial. Foram shows no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre.

A essa altura, a relação já estava madura. O Foo Fighters não precisava mais provar nada ao público brasileiro, e o público brasileiro também não precisava provar nada para eles.

Em 2019, 18 anos depois da estreia no festival, a banda voltou ao Rock in Rio. No mesmo dia, o Palco Mundo recebeu Panic! At The Disco e Weezer. Foi uma noite enorme para quem cresceu entre guitarras, refrões gigantes e camisetas pretas no armário.

Também foi a última vez em que assistimos Taylor Hawkins por aqui.

Março de 2022: a dor da véspera

25 de março de 2022.

Eu tinha acabado de voltar da primeira noite de Lollapalooza. Enquanto jantava, recebi a notícia: Taylor Hawkins havia morrido.

Dois dias depois, o Foo Fighters se apresentaria no festival, mas obviamente o show foi cancelado. O clima do evento nunca mais foi o mesmo naquele fim de semana. Parecia que a magia, a leveza e a alegria que Taylor carregava tinham ido embora com ele.

Foi uma daquelas notícias que não parecem reais na descoberta. Você atualiza a página, procura confirmação, tenta entender. Só que não tinha muito o que entender. Era luto.

E, para o público brasileiro, doeu de um jeito particular. Taylor não era apenas o baterista do Foo Fighters. Ele era uma das imagens mais fortes da banda ao vivo: sorriso aberto, energia absurda e aquela sensação de que tocar bateria era a coisa mais divertida do mundo.

2023: o retorno, a homenagem e o recomeço

A última passagem da banda pelo Brasil aconteceu em 2023, com duas apresentações: no Estádio Couto Pereira, em Curitiba, e no Autódromo de Interlagos, durante o The Town, em São Paulo.

Era um retorno carregado de significado. Não era só mais uma turnê. Era a primeira vez da banda por aqui depois da morte de Taylor. Havia expectativa, saudade e uma pergunta silenciosa no ar: como seria ver o Foo Fighters sem ele?

Entre os momentos mais fortes, a banda separou um espaço para homenagear Taylor com Aurora. A escolha não poderia ser mais bonita. A música sempre teve um peso emocional dentro da história do grupo, e naquele contexto virou o abraço que precisávamos.

Aquele show ajudou a curar uma pancada ainda recente. Não apagou a ausência, porque algumas ausências não se apagam. Mas mostrou que a banda ainda podia seguir, levando Taylor junto de outra forma.

2026: mais uma vez Rock in Rio

Agora, o Foo Fighters volta ao Brasil em 2026 para se apresentar na primeira noite do Rock in Rio. A banda retorna para promover seu novo disco, Favourite Toy, em mais um capítulo dessa história com o público brasileiro.

Existe algo simbólico nisso. O mesmo festival que recebeu a banda pela primeira vez no país, em 2001, abre novamente as portas para eles 25 anos depois. Entre uma apresentação e outra, muita coisa aconteceu. A banda cresceu, mudou, sofreu perdas, renasceu e seguiu fazendo o que sempre fez de melhor: transformar dor, catarse e volume alto em comunhão.

O Foo Fighters parece viver seu melhor momento por aqui desde o retorno em 2012. E a gente vai poder conferir tudo isso junto.

O Brasil esteve presente no início, no meio e no presente da banda. Foo Fighters e Brasil cantaram juntos, choraram juntos, viveram um luto e seguem se curando de mãos dadas.

Contem sempre com o Brasil, porque nós sempre vamos contar com vocês.

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