Mumford & Sons faz as pazes com a banda que sempre foi no Rock in Rio

Marcus Mumford canta e toca violão durante apresentação do Mumford & Sons no Rock in Rio 2026
Marcus Mumford durante o retorno do Mumford & Sons ao Brasil no Palco Sunset do Rock in Rio 2026. Foto: João Rocha / Moodgate

Entre novidades, clássicos dos anos 2010 e uma aproximação constante com o público, banda britânica transforma o Palco Sunset em um grande coro e reencontra sua identidade

O violão acelera. O banjo reaparece. As harmonias se multiplicam. Marcus Mumford começa um verso sozinho e, pouco depois, milhares de vozes estão cantando com ele. É uma dinâmica conhecida por quem acompanha o Mumford & Sons desde o início. Durante anos, também foi uma identidade da qual o grupo tentou se afastar.

No Palco Sunset do Rock in Rio, neste sábado (12), ela voltou a parecer confortável.

E havia uma distância a recuperar. Em determinado momento, Marcus reconheceu o tempo desde a última passagem da banda pelo país. “Faz 10 anos. Me desculpem por fazê-los esperar por tanto tempo. Mas eu amo vocês”, disse ao público.

O momento ajuda a explicar a fase atual. Depois de sete anos sem um disco, a banda lançou Rushmere em 2025 e voltou ao estúdio para Prizefighter, de 2026. No Rock in Rio, músicas dos dois trabalhos dividiram o repertório com faixas que ajudaram a definir o folk dos anos 2010.

O som que ficou grande demais para o folk

Quando o Mumford & Sons surgiu no fim dos anos 2000, havia algo improvável em sua escalada. Violões, banjo, bumbo e harmonias vocais ganharam dimensões de arena. Essa transformação continua no centro do show.

As músicas frequentemente começam pequenas. Marcus encontra os primeiros versos acompanhado por poucos elementos. O baixo de Ted Dwane dá corpo ao arranjo, Ben Lovett amplia as harmonias e os músicos que completam a formação adicionam novas camadas.

Então tudo cresce. A bateria aumenta a pressão. O banjo acelera. As vozes aparecem. Quando o refrão chega, aquilo que começou nas mãos da banda já pertence também à plateia.

The Cave é uma das melhores demonstrações desse mecanismo. A música cresce diante do público até chegar ao ponto em que a divisão entre palco e Sunset praticamente desaparece.

O mais interessante é que o Mumford & Sons não precisa reproduzir exatamente o som de seus primeiros discos para chegar até ali. As guitarras e o peso adquiridos durante outras fases permanecem no repertório. As diferentes versões da banda finalmente parecem confortáveis dividindo o mesmo palco.

Uma música que sobreviveu à própria caricatura

Little Lion Man precisa de poucos segundos. O banjo começa e o Sunset responde antes mesmo de Marcus chegar ao refrão.

Dezessete anos depois de seu lançamento, a música carrega todas as associações possíveis com a explosão do folk no começo dos anos 2010. O som do Mumford & Sons foi reproduzido por outras bandas, transformado em tendência e, em determinado momento, até virou caricatura de uma época.

Nada disso parece importar quando a música começa. Milhares de pessoas cantam cada palavra enquanto a banda acelera diante delas.

Little Lion Man sobreviveu à própria caricatura. O Mumford & Sons também.

Marcus Mumford não ficou apenas no palco

No centro de tudo está Marcus Mumford. Sua presença não depende apenas dos grandes refrões. Alguns dos melhores momentos aparecem quando ele reduz o tamanho da apresentação e deixa a voz ocupar o espaço.

A aspereza que marcou as gravações da banda continua presente. Marcus encontra força quando bateria e guitarras crescem ao redor dele, mas preserva vulnerabilidade quando os arranjos diminuem. E existe uma ferramenta que domina particularmente bem: saber quando parar de cantar. Em diferentes momentos, ele começa uma frase e entrega o restante para a plateia.

Em Ditmas, essa relação deixou de ser apenas musical. Marcus foi para o meio do público, atravessou a distância que ainda existia entre a banda e a plateia e apareceu com uma bandeira do Brasil nas mãos.

A música virou um dos momentos de maior sintonia da apresentação. Cercado pelos fãs, Marcus encontrou uma dimensão que o palco sozinho não conseguiria produzir. Depois de pedir desculpas pelos dez anos de espera, havia algo simbólico em vê-lo terminar tão perto de quem esperou.

O presente disputa espaço com a memória

O teste mais interessante da noite aparece quando o repertório deixa os primeiros discos. Rushmere, Prizefighter e Rubber Band Man chegam sem carregar a mesma memória afetiva de Little Lion Man, The Cave ou I Will Wait.

A diferença é perceptível. Nos clássicos, bastam alguns acordes para celulares subirem e milhares de pessoas começarem a cantar. As músicas recentes precisam conquistar essa reação enquanto acontecem.

É nessa comparação que o momento atual da banda ganha contornos mais interessantes. O público pode guardar uma relação mais imediata com o Mumford & Sons dos anos 2010, mas o grupo no palco não parece interessado em simplesmente reconstruir aquela época.

Os trabalhos recentes recuperam elementos familiares sem apagar o caminho percorrido desde então. O peso das guitarras continua presente. Os arranjos carregam escolhas de fases posteriores e a experiência acumulada durante mais de 15 anos aparece na maneira como a banda controla a dinâmica das músicas.

O presente ainda não possui a memória dos clássicos, mas já fala a mesma língua.

Milhares de vozes esperam por I Will Wait

Quando os primeiros acordes de I Will Wait aparecem, qualquer discussão sobre passado e presente pode esperar alguns minutos.

O Sunset inteiro canta. Marcus recua do microfone e observa uma música lançada em 2012 voltar para ele através de milhares de pessoas.

É nostalgia, claro. Para parte daquele público, Babel pertence a uma época específica da vida. Mas o que acontece diante do palco não depende apenas dessa lembrança. A música continua funcionando agora. A banda acelera, a plateia acompanha e o refrão cresce até o ponto em que Marcus já não precisa conduzi-lo.

Por alguns minutos, I Will Wait não pertence a 2012. Pertence àquelas milhares de vozes.

A sequência ainda encontrou espaço para The Wolf, The Banjo Song e Awake My Soul antes de chegar ao fim. Depois de 13 músicas, a sensação era de que os dez anos longe do público brasileiro tinham sido encurtados em pouco mais de uma hora.

O Mumford & Sons passou boa parte da carreira tentando ampliar uma identidade que havia se tornado grande demais para ser ignorada. Eletrificou seu som, experimentou outras possibilidades e descobriu quantas versões de si mesmo poderia encontrar.

No Rock in Rio, com Marcus no meio da plateia, uma bandeira brasileira nas mãos e antigas músicas sendo devolvidas por milhares de vozes, a banda pareceu finalmente confortável em ser Mumford & Sons novamente.