Jorge Ben Jor faz a calçada encontrar o cosmos e consagra sua alquimia definitiva em São Paulo

Jorge Ben Jor
Jorge Ben Jor reuniu mais de 50 mil pessoas em São Paulo para o espetáculo Alquimia Popular Brasileira. Foto: Eduardo Ferreira/Moodgate

O Brasil adora inventar gavetas. Coloca um artista na prateleira da erudição, outro na da canção engajada, tranca um terceiro no cofre da nostalgia e joga a chave fora… e aí existe Jorge Ben Jor.

Aos 87 anos, ele não anda no palco como um monumento que pede reverência ou um patriarca que cobra dívidas históricas da MPB. Ele entra como quem acabou de chegar da esquina para conferir se o feijão já pegou gosto, como aquele familiar que tá chegando na festa de um primo distante com um fardo de cerveja e piadas inigualáveis que te fazem pensar “que figura!”.

De terno branco e óculos escuros (a armadura mais despretensiosa e impenetrável da cultura popular), ele não faz discurso, não levanta bandeira de palanque e nem sequer gasta saliva tentando provar sua relevância para a posteridade. Ele sabe que a posteridade é uma ilusão de museu, e o que realmente interessa é o transe do minuto presente.

Na noite deste sábado (17) em São Paulo, cinquenta mil pessoas foram batizadas numa fé que não tem bíblia, só andamento. Em show viabilizado pela 30e e apresentado pelo Itaú Live em pleno Dia Nacional da MPB, a apresentação única Alquimia Popular Brasileira reuniu meio século de fascínio em torno de um artista que sempre ignorou cercas.

Com um repertório repleto de clássicos, Jorge Ben Jor transformou o estádio em uma grande celebração da MPB. (Foto: Eduardo Ferreira/Moodgate)

O segredo que ninguém consegue piratear

Existe um mistério físico na mão direita de Jorge que meio século de academia brasileira ainda tenta decifrar sem sucesso. Quando ele bate no violão ou na guitarra, é como se seu polegar descesse como um coração batendo acelerado e os outros quatro dedos fatiassem o ar numa síncope que parece puxar o chão debaixo dos nossos pés. É um curto-circuito biológico que já se anunciava em 1963 com Mas, Que Nada! no clássico Samba Esquema Novo e que ganhou eletricidade visceral anos mais tarde em África Brasil.

Não há como ficar solene ouvindo isso. A solenidade é a morte do suingue.

Enquanto a Banda do Zé Pretinho erguia uma parede de som, com metais afiados como navalha, quarteto de cordas flutuando e os vocais luxuosos de Paula Lima e Mammah Trindade, o estádio inteiro foi perdendo a casca do cinismo paulistano. Ninguém ali parecia se importar com as fórmulas da música atual, com refrões calculados por algoritmos ou com o cansaço acumulado da semana ao som de petardos como A Banda do Zé Pretinho, Santa Clara Clareou, Zazueira e Que Maravilha.

E foi no meio desse turbilhão que a armadura trincou. Quando puxou Alcohol, Jorge parou, olhou para aquele oceano de cabeças e trocou o script pelo estômago: soltou um palavrão de puro amor e começou a chorar. Duas lágrimas grossas escaparam por baixo das lentes escuras. 

O alquimista, que transformou a filosofia hermética de A Tábua de Esmeralda em patrimônio popular ao cantar Os Alquimistas Estão Chegando os Alquimistas, Errare Humanum Est e Minha Teimosia, Uma Arma Pra Te Conquistar, foi desarmado pelo único feitiço que nenhum livro ensina a controlar: o assombro de ser amado sem reservas.

A pista onde os mundos colidem

O que acontece na plateia de Jorge é algo que nenhuma pesquisa de mercado consegue prever.

Ali, ombro a ombro, estavam senhoras de mais de setenta anos que guardam nos joelhos a memória dos bailes de salão da periferia, dançando com a elegância de quem desafia a gravidade, e garotos de vinte anos que descobriram a pulsação negra via sintetizadores e fones de ouvido.

Havia quem tivesse cruzado o país apenas para ver o mestre de perto, jurando que aquela distorção suingada tem mais eletricidade do que o rock mais pesado do planeta. E não estavam errados: a repetição em transe de Ponta de Lança Africano (Umbabarauma) carrega o mesmo peso descomunal de qualquer clássico do peso internacional.

É difícil definir Jorge e sua arte em um único gênero, afinal, poderíamos o definir como uma frequência livre. Ele faz o sagrado sentar no boteco com o profano, tipo quando entoa Jorge da Capadócia enquanto a lua vira guerreiro na tela ou quando evoca a memória de Tim Maia em Do Leme ao Pontal e W/Brasil (Chama o Síndico), até mesmo abrindo passagem para dançarinos ocuparem o centro do palco ao som de África Brasil.

Tudo isso diante do olhar reverente de colegas como Baby do Brasil, Samuel Rosa, Rael, Rappin’ Hood e Wilson Simoninha, que assistiam à aula do fundo do palco não como convidados vips, mas como devotos diante de um oráculo.

O ouro que sobra no final

Quando o estádio virou um só pulmão cantando os versos de Taj Mahal, sob um oceano de luzes, não sobrava nenhum resquício daquela arrogância de quem busca categorizar a arte. A tal pedra filosofal nunca foi um metal nobre ou uma fórmula química escondida em Paris: o ouro de Jorge é fazer cinquenta mil estranhos se olharem no meio da noite e sentirem que a vida não é uma batalha perdida.

Ele não precisou fazer barulho prévio, não deu entrevistas e não pediu licença para ninguém. Subiu, tocou, chorou, botou o país para dançar e foi embora na ponta dos pés, deixando todo mundo com a estranha e luminosa certeza de que, enquanto esse homem estiver respirando o mesmo ar que nós, o Brasil ainda tem salvação.

É, Jorge Ben… Nós também gostamos de você. E muito. 

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