Há algo especial e impressionante ao olhar para um estádio lotado de fãs de heavy metal em uma terça-feira fria em pleno 2026. O tempo ameno, não tão rotineiro nessa época do ano, criou uma atmosfera especial na segunda noite da Run For Your Lives World Tour 2026, que teve sua primeira data no domingo, (25), dia de eleições presidenciais. No panorama geral, o Iron Maiden tinha alguns percalços no caminho para o sucesso desta tour: eleições, tempo ruim, pouco senso de novidade por estarem retornando menos de dois anos após a última vinda e até certa dúvida sobre seu novo baterista.
Não é sábado, não é festival, não é uma reunião de cinco ou seis atrações dividindo a responsabilidade de vender ingressos; é uma noite comum de semana em São Paulo, pautada pelo peso e o tamanho de um legado quase que irretocável.
De um lado, o Iron Maiden, celebrando cinco décadas de existência com a autoridade de quem não precisa mais provar nada. Do outro, o Alter Bridge, grupo que há mais de 20 anos ocupa uma posição curiosa na indústria: grande para ser tratado como simples banda de abertura, respeitado para o posto de coadjuvante, mas ainda distante do status quase mitológico de nomes como o próprio Maiden.
Segundo estimativa publicada após o show, mais de 50 mil pessoas estiveram no estádio na noite de terça-feira, 27 de outubro. Essa imagem sintetiza o que aconteceu ali: uma banda lendária e outra eternamente colocada na categoria de “middle child” do rock.

Chamar o Alter Bridge de “banda de abertura” é tecnicamente correto. Artisticamente, ofensivo.
O grupo formado por Mark Tremonti, Brian Marshall e Scott Phillips, três músicos ligados à história do grungeiro Creed, encontrou em Myles Kennedy não apenas um vocalista capaz de estabelecer uma identidade mais pesada, mas um músico completo que ajudou a transformar o projeto em uma das bandas mais consistentes do hard rock e metal alternativo das últimas décadas. Myles, vale lembrar, está longe de ser apenas a voz da banda.
É fácil concentrar toda a atenção em timbre, afinação e alcance de um cantor que passeia por diversas regiões da voz com facilidade, mas Kennedy também é um dos melhores guitarristas do século. Antes de se tornar um músico de sucesso, MK foi professor de guitarra de centenas de alunos em Spokane, em Washington. Estima-se que ele deu aula para jovens até 2003, quando foi convidado para integrar o Alter Bridge. Ele também participou de outras obras, como o filme Rock Star, de 2001.
Em São Paulo, isso ficou bastante evidente em músicas como Addicted to Pain, Metalingus e o hit Blackbird, que contou até com uma introdução do clássico dos Beatles.
O único problema do show foi justamente o tempo. O Alter Bridge entrou às 19h10 e teve um repertório enxuto, de oito músicas, entre elas Fortress e Rise Today.

É um belo cartão de visitas, mas pouco. A passagem pelo Brasil deixa a sensação de que o Alter Bridge merecia um sideshow próprio em São Paulo, com um set completo, espaço para explorar diferentes fases da discografia e uma plateia formada não apenas pelos convertidos da noite, mas por quem acompanha a banda há anos.
Há algo curioso, inclusive, no tamanho que o grupo ocupa atualmente. Metalingus é reconhecida imediatamente por uma parcela enorme da cultura pop e do wrestling; Blackbird já assumiu status de clássico moderno entre guitarristas; Tremonti construiu uma reputação enorme como instrumentista; Kennedy canta com Slash há anos e possui uma carreira solo respeitada. Mesmo assim, o Alter Bridge continua habitando essa espécie de limbo entre culto e mainstream.
Por cerca de 50 minutos, foi possível imaginar como seria vê-los ocupando o espaço que sua música pede.

Uma turnê comemorativa de uma banda com 50 anos de carreira poderia facilmente se transformar em exercício de nostalgia. Tem muito disso acontecendo no showbusiness nos últimos anos. No entanto, o Iron Maiden escolheu algo mais interessante… pelo menos no início.
A Run For Your Lives World Tour concentra seu repertório na fase clássica da banda, percorrendo os primeiros capítulos de uma discografia que ajudou a estabelecer essa linguagem teatral do heavy metal mainstream. A própria banda apresenta a turnê como uma celebração dos 50 anos, construída a partir das músicas de seus primeiros discos. Antes de Phantom of the Opera, Bruce Dickinson deixou bem claro para os fãs: “nós esperamos 50 anos por esse momento“.
Killers, segundo álbum da banda, ocupa um lugar singular na história do grupo. Foi o primeiro disco com Adrian Smith na formação e o último com Paul Di’Anno nos vocais antes da chegada de Bruce Dickinson.
Embora Wrathchild já tenha aparecido em apresentações brasileiras anteriores, duas músicas fundamentais daquele disco finalmente chegaram aos palcos nesta turnê: Murders in the Rue Morgue e a faixa-título, Killers. Até esses shows, nenhuma delas havia sido tocada pelo Maiden no país. Então, consequentemente, o Brasil nunca tinha visto Bruce Dickinson cantando essas músicas ao vivo.
Os mais críticos podem afirmar que essa é uma espécie de nostalgia disfarçada, mas a realidade é que não há como relembrar e celebrar algo que nunca aconteceu. É nesse senso de “novidade”, em tocar ao vivo faixas nunca apresentadas antes no país, que o Maiden conquistou ainda mais o público rotineiro dos seus shows.

Murders in the Rue Morgue, Wrathchild e Killers criam uma sequência que praticamente transporta o estádio para 1981, só que com Dickinson ocupando um repertório originalmente moldado pela personalidade completamente diferente de Di’Anno. A parte interessante aqui é que, na opinião de quem escreve, Bruce não tenta imitá-lo.
As músicas continuam carregando a aspereza da primeira fase do Maiden, mas ganham outra dimensão através de uma voz muito mais teatral e expansiva. Ouvir Dickinson dar uma nova roupagem para faixas gravadas há tantos anos deixa ainda mais clara uma característica rara de um catálogo redondo: as canções sobreviveram não apenas às décadas, mas às transformações internas da própria banda.
Poucas bandas transformaram tão bem o conceito de heavy metal em linguagem visual. No Maiden, uma música sempre é um novo capítulo de uma história.
A produção amplia essa característica com os braços visuais da performance, especialmente através do telão central, dos cenários, dos figurinos e das aparições de Eddie. O resultado se aproxima muito mais de um storytelling contínuo do que de uma sequência convencional de músicas.
Powerslave não é somente tocada: seu universo egípcio toma o palco. Rime of the Ancient Mariner ganha a dimensão de uma pequena peça dentro do espetáculo. The Trooper inevitavelmente pede sua encenação militar. Aces High chega precedida pelo discurso de Winston Churchill e mergulha o estádio em imagens de combate aéreo. A própria Killers ganha uma ambientação visual que resgata o universo sombrio de Eddie associado ao período.
Storytelling de estádio e Bruce Dickinson como ator principal
Aos 68 anos, ele corre, troca de figurino, interpreta personagens, interage com os elementos visuais, provoca o público e ainda precisa cantar músicas que já eram difíceis quando foram gravadas por um homem décadas mais jovem.
Naturalmente, o tempo existe. Existe para Dickinson e existe para todos os integrantes. O Iron Maiden de 2026 não toca exatamente como o Iron Maiden de Live After Death. O que impressiona é justamente o contrário: quanta energia ainda existe.
Steve Harris continua no comando com o baixo apontado para o público e uma bermuda abaixo do joelho. Dave Murray conserva aquela aparente tranquilidade enquanto produz alguns dos solos mais reconhecíveis do gênero. Adrian Smith permanece cirúrgico, com destaque às melodias que ajudou a eternizar. Janick Gers continua praticamente desafiando as leis da física enquanto toca guitarra.
Existe, porém, uma diferença fundamental nesta encarnação dos britânicos.
Pela primeira vez, uma turnê da banda chega ao Brasil sem Nicko McBrain atrás da bateria desde que ele entrou no grupo, em 1982. A história torna a ausência ainda mais simbólica porque a despedida aconteceu exatamente em São Paulo.
Em janeiro de 2023, McBrain sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) que, segundo o próprio músico, o deixou inicialmente paralisado do ombro para baixo no lado direito do corpo. Após semanas de terapia, conseguiu retornar às atividades com a banda, embora tenha reconhecido publicamente que ainda estava em processo de recuperação.
Em 7 de dezembro de 2024, no então Allianz Parque, Nicko anunciou que aquela apresentação em São Paulo seria seu último show com o Iron Maiden. Após 42 anos de turnês com a banda, decidiu abandonar a rotina das apresentações, ainda que permanecesse ligado à família Maiden e a outros projetos.
Menos de dois anos depois, o grupo voltou ao mesmo estádio, agora rebatizado Nubank Parque,com Simon Dawson nas baquetas. E ele dá conta do recado.
É um baterista sólido, experiente e familiarizado com Steve Harris por seu trabalho no British Lion, projeto paralelo do baixista. Não parece estar ali para imitar o lendário Nicko, mas a diferença existe.
McBrain nunca foi apenas o homem responsável por manter o andamento das músicas. Seu jeito de tocar fazia parte da personalidade do Iron Maiden: os pratos, as viradas, o groove não tão homogêneo e até pouco ortodoxo para uma banda de heavy metal. E, fora da bateria, havia um personagem carismático muito grande.
Dawson traz uma abordagem mais direta. Funciona. Sustenta músicas longas. Não compromete em momento algum, mas identidade não se substitui da noite para o dia. Talvez nem deva.

Depois de revisitar Killers, o Iron Maiden percorre uma coleção quase injusta de clássicos.
The Number of the Beast. Infinite Dreams. Powerslave. 2 Minutes to Midnight. Run to the Hills. Seventh Son of a Seventh Son. The Trooper. Hallowed Be Thy Name.
Quando Iron Maiden encerra o bloco principal, ainda há um bis com Aces High, Fear of the Dark e Wasted Years. O repertório de São Paulo teve 17 músicas e mais de duas horas de duração.
É fácil naturalizar o Iron Maiden. A banda vem ao Brasil com frequência suficiente para gerar aquela perigosa sensação de que haverá sempre uma próxima vez. Os shows são grandes há tanto tempo que a excelência passa a ser tratada como obrigação. Eddie vai aparecer, Bruce vai correr, Harris vai apontar o baixo para alguém como se fosse uma arma, Fear of the Dark será cantada por de milhares de pessoas.
Em contraponto, bandas não são monumentos. Pessoas envelhecem, formações mudam, Nicko McBrain já não está naquele palco. É justamente por isso que talvez seja necessário olhar com mais atenção para o que aconteceu no Nubank Parque na última terça-feira (27).
Um Iron Maiden com 50 anos de história colocou mais de 50 mil pessoas dentro de um estádio no meio da semana. Abriu o show revisitando músicas gravadas quando boa parte daquela plateia nem havia nascido. Trouxe pela primeira vez ao Brasil canções de Killers que permaneceram ausentes durante décadas. Apresentou um novo baterista sem tentar fingir que nada mudou. Fez tudo isso com luzes, figurinos, personagens, guitarras, Eddie, vídeos e uma produção gigantesca concebida para transformar cada música em uma cena.
Antes disso, o Alter Bridge mostrou durante menos de uma hora por que merecia uma noite inteira.
Talvez seja essa a melhor imagem possível para resumir o rock em 2026: uma banda que já virou lenda, outra que ainda parece lutar para receber o tamanho que merece. O encontro entre passado e presente que respeita contexto, história e qualidade.
É nessa união que o cenário mainstream do rock e do metal deveria se inspirar para, quem sabe, um dia voltar para a prateleira que sempre esteve.
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