Lotar um estádio em dia de semana, com uma multidão fanática e participativa, não é feito para qualquer banda. O Iron Maiden, contudo, conseguiu fazer isso duas vezes aqui no Brasil; em São Paulo e em Curitiba, show que encerrou a etapa brasileira da turnê.
A passagem pela Arena da Baixada encerrou a etapa brasileira da Run For Your Lives Tour, que também contou com duas apresentações em São Paulo, nos dias 25 e 27 de outubro. O show teve abertura do Alter Bridge e fez parte da etapa latino-americana da celebração, concebida para grandes estádios e centrada no repertório dos nove primeiros álbuns de estúdio do Maiden.
A escolha desse período dá à turnê um caráter retrospectivo. Em vez de tentar representar igualmente todas as fases da discografia, o Iron Maiden concentra o espetáculo nos discos que estabeleceram sua linguagem musical e ajudaram a transformar o grupo em uma referência do heavy metal. A proposta também permite recuperar composições que permaneceram fora dos repertórios brasileiros durante décadas, oferecendo aos fãs de longa data algo além da repetição dos clássicos mais frequentes.

Curitiba é conhecida como um grande antro de fãs de rock ‘n roll, e isso ficou marcado pelas diversas passagens do conjunto pela cidade ao longo dos anos. Com uma multidão alucinada, as músicas foram entoadas do início ao fim – com direito a coro nas partes instrumentais também, algo que já virou uma grande tradição para o Maiden
Um repertório que revisita a formação da identidade do Iron Maiden
A proposta da Run For Your Lives ajuda a compreender o recorte artístico da apresentação. O espetáculo se concentra no período que vai do álbum de estreia, Iron Maiden (1980), a Fear of the Dark (1992). A seleção recupera, assim, uma sequência de discos que acompanhou a consolidação do grupo e a expansão de seu alcance internacional.
A entrada do vocalista Bruce Dickinson, em substituição a Paul Di’Anno, antecedeu o lançamento de The Number of the Beast, em 1982. O álbum marcou uma etapa decisiva para o grupo, que aprofundaria sua ambição em trabalhos como Piece of Mind (1983), Powerslave (1984) e Seventh Son of a Seventh Son (1988).
A presença de faixas de Killers tem um significado particular nesta passagem pelo Brasil. Nas apresentações de São Paulo, Murders in the Rue Morgue e Killers foram destacadas justamente por serem músicas que ainda não haviam sido tocadas ao vivo pela banda no país. Gravadas originalmente com Paul Di’Anno, elas pertencem a uma etapa em que o som do Maiden tinha uma abordagem mais crua, com estruturas diretas e uma interpretação vocal diferente daquela que Bruce Dickinson estabeleceria.

Em outro extremo, Rime of the Ancient Mariner, inspirada no poema de Samuel Taylor Coleridge, amplia a escala narrativa do espetáculo. Com sua duração extensa e alternância entre momentos de tensão, trechos instrumentais e retomadas temáticas, a composição sintetiza tudo o que o Maiden se tornaria após 50 anos de carreira.
Com uma presença de palco fantástica por parte de todos os membros da banda, os telões contaram com vídeos estilizados para cada canção, o que contribuiu, e muito, para a criação de uma atmosfera quase fantástica, embrenhando a plateia nas histórias que eram contadas através dos riffs de guitarra e forte presença do baixo.
Essa combinação entre composição e teatralidade é uma das marcas históricas do Iron Maiden. As guitarras de Dave Murray, Adrian Smith e Janick Gers alternam riffs, solos e melodias harmonizadas, enquanto o baixo de Steve Harris frequentemente assume uma função melódica.
Um espetáculo pensado para grandes palcos
Como dito, a produção audiovisual da Run For Your Lives acompanha o caráter retrospectivo do repertório. Telões, animações e imagens associadas ao universo visual da banda ajudam a conectar as diferentes fases representadas no setlist, incluindo a presença recorrente de Eddie, mascote que se tornou parte fundamental da identidade gráfica e cênica do Iron Maiden.
A dimensão visual tem uma função particular nesse repertório. As músicas do grupo frequentemente articulam referências históricas, literárias e bélicas, além de personagens e narrativas próprias.
Durante as canções do Powerslave, por exemplo, o telão mostrou Eddie em sua versão faraó e uma enorme pirâmide ao fundo, e Dickinson até mesmo fez uma aparição com máscara. Em Phantom of the Opera, o visual foi o de uma grande mansão abandonada.
Em Rime of the Ancient Mariner, uma das canções mais extensas da banda, houve uma narrativa completa através de um naufrágio macabro num mar glacial, com a presença do albatroz acompanhando a história de fantasmas e esqueletos. Junto da melodia da música predominantemente instrumental, o conjunto da obra deu vida ao imaginário do público de uma forma sinistra e teatral.
Bruce Dickinson tem papel decisivo nessa construção. O vocalista combina interpretação, movimentação e interação com os elementos do palco, assumindo diferentes papéis conforme o repertório exige.
A produção também evidencia como o Iron Maiden construiu uma identidade ao vivo que ultrapassa a mera execução dos discos. Os elementos fazem parte de uma linguagem visual desenvolvida ao longo de décadas, que permite ao público reconhecer referências e acompanhar as histórias mesmo em um estádio de grandes proporções.
A apresentação curitibana encerra a etapa brasileira de uma turnê que revisita o passado sem depender exclusivamente da nostalgia. Ao reunir clássicos e uma produção visual construída em torno das histórias das canções, o Iron Maiden reafirma a relação entre sua linguagem musical e a dimensão teatral que se tornou parte essencial de sua identidade e, principalmente, que continua levando multidões aos shows mesmo após 50 anos de uma das carreiras de maior sucesso da história do rock.
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