A gente avisou: The Hives transforma estreia no Rock in Rio em caos perfeitamente calculado

The Hives durante apresentação no Palco Mundo do Rock in Rio 2026
The Hives se apresenta no Palco Mundo do Rock in Rio 2026. Foto: Caio Bandeira (moodgate)

Meses antes do Rock in Rio, a Moodgate levantou uma possibilidade: o The Hives poderia ser uma das bandas capazes de roubar a cena no festival. Não pelo tamanho ocupado no line-up, mas por algo que o quinteto sueco aperfeiçoou ao longo de mais de três décadas: transformar qualquer palco em território próprio.

Nesta sexta-feira, diante de uma Cidade do Rock com dezenas de milhares de pessoas, Howlin’ Pelle Almqvist e companhia tiveram a oportunidade perfeita para colocar essa reputação à prova.

Vestidos com seus tradicionais ternos coordenados, os suecos precisaram de poucos minutos para estabelecer as regras. Assistir ao The Hives exige participação.

Boa parte disso passa por Pelle Almqvist. Aos 47 anos, o vocalista continua acumulando funções: canta, provoca, corre pelo palco, conversa com a plateia e assume o papel de mestre de cerimônias. Se pede braços para cima, espera que todos obedeçam. Se a resposta não é suficiente, pede novamente.

O exagero faz parte do personagem. Pelle se comporta como se fosse o maior astro do rock do planeta e parece genuinamente incapaz de aceitar alguém parado durante seu show.

A melhor parte é que todos entendem a brincadeira.

Por trás da aparente desordem existe uma banda extremamente precisa.

Enquanto Pelle corre de um lado para o outro, guitarras, baixo e bateria sustentam a urgência que sempre caracterizou o The Hives. Até as poses, interrupções e momentos em que os integrantes congelam no palco ajudam a construir a sensação de que tudo pode sair do controle a qualquer momento.

Só que quase nunca sai. O caos é calculado. A arrogância é parte do personagem. E o público sabe disso.

Musicalmente, a fórmula continua eficiente justamente por sua simplicidade. Riffs diretos, músicas que rapidamente chegam ao ponto e refrões fáceis de absorver fazem com que o The Hives funcione especialmente bem diante de quem talvez conheça apenas uma parte de seu repertório.

O material recente também impede que a apresentação dependa exclusivamente de nostalgia. Enough Is Enough, Rigor Mortis Radio, Paint a Picture e Countdown to Shutdown carregam a mesma urgência dos primeiros trabalhos e convivem naturalmente com músicas de diferentes momentos da carreira.

Ainda assim, os clássicos provocam outra reação.

Quando Hate to Say I Told You So aparece, seu riff continua sendo reconhecido quase imediatamente. Mais de duas décadas depois, a música reúne boa parte daquilo que tornou o grupo especial: é simples, agressiva, dançante e parece feita para ganhar outra dimensão diante de uma multidão.

E então existe Tick Tick Boom.

A música concentra tudo que Pelle precisa para transformar a reta final em um último exercício de controle coletivo. O vocalista brinca com os silêncios, estende a tensão e faz o público esperar por uma explosão que todos sabem que está chegando.

Quando ela finalmente acontece, pouco importa quem chegou conhecendo cinco discos ou apenas duas músicas.

Depois de mais de três décadas, o The Hives poderia simplesmente viver da nostalgia dos anos 2000. Mas a banda continua tratando cada apresentação como uma oportunidade para conquistar alguém pela primeira vez.

E essa talvez seja sua maior arma no Rock in Rio. Meses atrás, perguntamos se o The Hives poderia roubar a cena no festival. Nesta sexta-feira, finalmente tivemos uma resposta.

Algumas bandas precisam de grandes produções para dominar um festival. O The Hives precisa de cinco ternos, guitarras, amplificadores e Howlin’ Pelle Almqvist convencido de que é o maior frontman do planeta.

Por cerca de uma hora, talvez seja mesmo.