OVM explora nova fase criativa e detalha construção do próximo álbum

OVM

A banda OVM, sigla para O Velho Manco, apresenta em etapas seu próximo álbum, previsto ainda para 2026, revelando aos poucos não apenas as faixas, mas também as camadas conceituais que sustentam o projeto.

Navegando entre o grunge, o pós-punk e o alt rock noventista, o grupo mergulha em temas como ansiedade, neurodivergência e as fragilidades do convívio social, construindo uma narrativa densa e não linear.

Em entrevista, a OVM reflete sobre o hiato entre lançamentos, as transformações internas após uma década de estrada e o impacto da parceria com a Casalago Records neste novo momento. Confira!

A OVM decidiu apresentar esse novo trabalho em etapas até chegar ao disco de 2026. Por que essa foi a melhor forma de lançar o projeto e o que esse formato permite mostrar sobre a banda aos poucos?

Na verdade, estamos fazendo dessa maneira porque entendemos que é uma demanda do algoritmo que pode nos favorecer. Aparentemente, é assim que as plataformas digitais enxergam uma distribuição mais eficiente do material. Hoje, as pessoas já não costumam ouvir álbuns na íntegra como faziam há 10 anos. Eu, por exemplo, sempre aguardava ansioso o lançamento de um disco completo, geralmente com uma temática fechada, e, quando saía, passava horas ouvindo as faixas que mais tinha curtido, isso depois de ter absorvido a obra inteira a priori. Mas isso mudou e precisamos nos adaptar a essa nova linguagem.

As letras de “Depois?” e “As Pedras” partem de temas delicados e muito presentes no cotidiano, como ansiedade, pânico, dependência e formas de escape. O que levou a banda a encarar esse campo agora, e por que ele se tornou central neste novo ciclo?

A forma como o Mancin constrói as letras parte sempre dos sentimentos que a harmonia pré-estabelecida desperta nele. E as harmonias de que mais gostamos são justamente aquelas que carregam peso (às vezes mais triste, às vezes mais agressivo), quase sempre embalado por ritmos cativantes.

Os temas centrais costumam girar em torno do que nos incomoda no convívio social, passando por tabus e, muitas vezes, por questões óbvias que, quando reunidas, evidenciam o quão frágil é o tecido social, já que dependemos de mentes totalmente divergentes entre si. O primeiro álbum e os demais EPs trazem arcos temáticos diferentes, mas geralmente conduzem a essa racionalização do funcionamento da massa como uma entidade própria.

Neste novo disco, haverá um foco maior nessa racionalização, agora atravessada pelas neurodivergências, pelos transtornos e pelas chamadas doenças sociais.

Há um intervalo grande entre o disco de estreia, em 2018, e este novo álbum. O que esse hiato diz sobre a trajetória da banda: foi um tempo de crise, de maturação ou de redefinição artística?

Na verdade, nunca paramos de criar. Entre 2018 e 2025, lançamos um álbum completo, dois singles e três EPs. Ainda assim, enfrentamos vários obstáculos ao longo do caminho, como a pandemia, que nos bloqueou até 2022, a busca constante por uma produção que entregasse a mensagem no formato que esperávamos, a saída de um dos integrantes no início de 2025 e também o foco maior em fazer shows em 2024. Agora, o foco está em criar coisas novas e produzir tudo aquilo que ainda está guardado.

Vocês mencionam que essas composições foram maturadas ao longo de cinco anos. O que mudou nessas músicas durante esse processo, e o que a OVM de hoje enxerga nelas que talvez não enxergasse no início?

A visão sobre elas se manteve. O que aconteceu foi que todas se encaixavam nesse mesmo tema que o Mancin, há muito tempo, queria concretizar em um álbum. Assim, conseguimos contar uma história não linear a partir dessas músicas compostas há bastante tempo. Já aquelas que não se encaixavam, o Mancin ajustou as letras para que passassem a fazer parte desse contexto.

Depois de dez anos de estrada e da saída de um integrante, em que aspecto a OVM mais se transformou: na dinâmica interna, na escrita, no som ou na forma de pensar a própria identidade?

O repertório de vocábulos e o uso da métrica evoluíram consideravelmente e, hoje, sabemos o que pode nos dar orgulho no futuro ao revisitar as canções, assim como aquilo que pode gerar arrependimento pelas escolhas menos acertadas. Em termos de arranjos e harmonicamente, sentimos que agora estamos seguindo o caminho que gostaríamos de ter trilhado desde o início, buscando uma sonoridade mais próxima do grunge e do alt rock do que da psicodelia e da música clássica, mais escuridão e acidez do que romantismo.

A dinâmica também mudou um pouco: hoje estamos mais abertos a composições, ou partes delas, vindas de cada integrante, e acreditamos que esse processo se tornou mais coletivo do que antes. Nós três temos mais afinidade, e isso levou naturalmente a esse método, sempre com a intenção de criar algo grudento e viciante aos ouvidos.

Vocês apontam uma consolidação estética entre grunge, pós-punk, alt rock e noise noventista. Como vocês filtram essas referências para que elas funcionem como linguagem viva e não como mera reverência?

Nós apenas os citamos como referência pelo fato de que, quando compomos, é assim que as músicas soam. É algo mais do que natural, já que criamos aquilo que gostaríamos de ouvir por aí e, justamente por isso, o que queremos ouvir acaba sendo a nossa maior referência.

Qual tem sido o papel da Casalago Records nesta fase da OVM? A entrada do selo ajudou apenas na viabilização do lançamento ou também influenciou decisões de direção artística, produção e planejamento de carreira?

Quando nosso atual produtor, e também dono do selo Casalago Records, Gui Godoy, ouviu nossos sons novos, ele logo entendeu que o que estamos fazendo é alt rock noventista e que deveríamos insistir nessa direção. Ele tem nos ajudado muito a encontrar cada vez mais a nossa identidade, quem é a OVM. Por isso, essa parceria acaba influenciando diretamente nas decisões artísticas e de produção.

O trabalho com Gui Godoy aparece como peça importante deste novo momento. O que a presença dele destravou ou reorganizou na banda, tanto no estúdio quanto na forma de pensar o disco como obra?

Total. Como falado anteriormente, é ele quem vem entendendo quem é a OVM. Ainda não conseguimos nos auto-rotular, mas ele já compreendeu o nosso objetivo. Além disso, é transparente e curte genuinamente o nosso som.

É fundamental que produtor, assessor e equipe de marketing acreditem na sua arte e no seu potencial. Isso não só nos anima a seguir nessa vida difícil de banda independente, como também impulsiona a proatividade, a criatividade e a produtividade de todos.

Quando esse disco chegar ao público no terceiro trimestre de 2026, o que vocês esperam que ele revele sobre a OVM que o primeiro álbum ainda não era capaz de mostrar?

Que, ao extrair todos os efeitos sonoros, os vocais incrementais, os sintetizadores e os pianos, o que reste seja uma composição bem-feita, bem pensada e construída, capaz de te abraçar sonora e liricamente a partir da sua crueza. Esse álbum deve mostrar mais do nosso potencial justamente através da simplicidade. Ainda será um álbum conceitual, mas com alguns conceitos sendo revistos.

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