De volta ao Brasil, Jay Kay comandou uma banda afiada no Palco Sunset e mostrou por que seu repertório continua fazendo diferentes gerações se moverem
O baixo começa e algumas explicações deixam de ser necessárias. Jay Kay atravessa o palco enquanto bateria, guitarra, teclados, metais, percussão e backing vocals começam a preencher o Palco Sunset. Aos poucos, o público entende a dinâmica proposta pelo Jamiroquai para aquela noite.
Dançar vem antes de pensar.
De volta ao Brasil, a banda britânica chegou ao Rock in Rio carregando um repertório que atravessa mais de três décadas. Poderia facilmente depender da memória afetiva construída por músicas como Virtual Insanity, Cosmic Girl e Canned Heat. Só que ao vivo existe algo mais interessante acontecendo.
Jamiroquai ainda soa como uma banda. E das grandes.
Little L” e esse baixo, pelo amor de Deus. 😮💨
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) September 12, 2026
O Jamiroquai transformando o Sunset em pista de dança. pic.twitter.com/HwYaVroXF1
Uma banda no centro de tudo
É fácil olhar para o palco e encontrar Jay Kay. O chapéu, a dança e a maneira particular de ocupar o espaço fizeram dele uma das figuras mais reconhecíveis da música britânica dos anos 1990. Aos 56 anos, essa presença continua sendo parte importante da apresentação.
Mas basta prestar atenção ao que acontece ao redor dele para encontrar o verdadeiro motor do show.
Jay Kay tem 56 anos e continua dançando como se cada linha de baixo estivesse controlando o corpo dele. 😭🔥
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Carisma absurdo.#jamiroquainomultishow pic.twitter.com/xsC0jg9VLs
O baixo de Paul Turner assume boa parte desse papel. Suas linhas não aparecem apenas como sustentação, muitas vezes indicam para onde a música vai. Na bateria, Derrick McKenzie encontra esses movimentos e mantém tudo avançando. Rob Harris, na guitarra, e Matt Johnson, nos teclados, completam uma formação que conhece profundamente os espaços de cada composição.
A brasileira Fabiana Oliveira, na percussão, acrescenta outra camada importante a esse conjunto. Em um show construído sobre ritmo, sua presença ajuda a ampliar justamente aquilo que sempre esteve no centro da identidade do Jamiroquai: o movimento.
Há precisão, mas pouca sensação de rigidez. Introduções crescem, instrumentos ganham espaço e pequenas alterações afastam as versões ao vivo das gravações conhecidas.
Space Cowboy talvez seja um dos melhores exemplos. Baixo, bateria, teclados e percussão precisam conversar o tempo inteiro para que a música encontre aquele balanço. Ninguém parece disputar espaço. Cada instrumento entra exatamente onde consegue empurrar o outro.
Jay Kay funciona quase como mais uma peça dessa engrenagem. Quando não está cantando, continua respondendo à banda com o corpo. Uma linha de baixo vira movimento. Uma virada de bateria muda sua direção. A entrada dos metais encontra outra reação.
É difícil saber onde termina o vocalista e começa o dançarino.
“Space Cowboy” ao vivo e fica difícil decidir se você presta atenção no baixo ou simplesmente dança. 🕺
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Jamiroquai sabe MUITO o que está fazendo.
🎥: @JoelrMendes pic.twitter.com/Iv53tVqa5I
Nove músicas e quase nenhum espaço para respirar
O repertório foi direto. Apenas nove músicas, começando com (Don’t) Give Hate a Chance e passando rapidamente por Little L, Space Cowboy e Alright.
Não houve necessidade de preencher o tempo com grandes discursos ou uma produção visual capaz de disputar atenção com os músicos. O Jamiroquai tinha uma banda absurda diante do público e parecia saber exatamente o que fazer com ela.
Travelling Without Moving abriu a segunda metade antes de Canned Heat provocar uma das grandes mudanças de temperatura da apresentação.
Não existe ficar parado quando começa “Canned Heat”.
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Não é opinião. É fisiologia. 🕺🔥#jamiroquainomultishow
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Jay Kay não ficou apenas observando a resposta diante do palco. Durante a música, foi até a galera e diminuiu uma distância que até então parecia necessária para enxergar toda a dimensão daquela banda funcionando.
Era uma escolha quase inevitável para Canned Heat. Uma música construída em torno da impossibilidade de ficar parado ganhou seu momento mais físico justamente quando o vocalista deixou o centro do Sunset.
Por alguns minutos, o groove que vinha do palco estava literalmente no meio do público.
Os hits não precisam viver de nostalgia
Depois disso, o repertório praticamente deixou de oferecer descanso.
Cosmic Girl encontrou reconhecimento imediato. Love Foolosophy manteve a pista em movimento antes de Virtual Insanity assumir a responsabilidade de encerrar o show.
É nesse trecho que a diferença de idade dentro da plateia perde importância. Algumas pessoas ouviram essas músicas quando chegaram às rádios. Outras descobriram Jamiroquai muito depois, através de filmes, playlists, redes sociais ou simplesmente pelo caminho imprevisível que permite a uma música de décadas atrás encontrar alguém novo.
Essa é uma diferença importante entre nostalgia e permanência. A primeira depende da lembrança. A segunda continua funcionando mesmo para quem não estava lá.
E o Jamiroquai não precisou alterar radicalmente suas músicas para provar isso. O baixo ainda precisa ser ouvido. A bateria ainda precisa encontrar o lugar certo. Os metais continuam cortando os arranjos. A percussão adiciona movimento. Jay Kay ainda precisa ouvir tudo isso e responder.
Trinta anos dentro de Virtual Insanity
Então chega Virtual Insanity.
Em 1996, Jamiroquai olhava para tecnologia, humanidade e as consequências de um futuro cada vez mais artificial. Trinta anos depois, Jay Kay canta a música diante de milhares de celulares erguidos no Palco Sunset.
A imagem quase dispensa interpretação.
O clipe dirigido por Jonathan Glazer permanece como uma das imagens mais marcantes da MTV dos anos 1990. A música encontrou uma maneira ainda mais curiosa de escapar daquele período. O mundo mudou ao redor dela e parte das inquietações permaneceu.
Algumas ganharam dimensões que seriam difíceis de imaginar quando Jay Kay parecia deslizar por uma sala em 1996.
No Rock in Rio, porém, Virtual Insanity não funcionou apenas porque milhares de pessoas conheciam seu refrão. Depois de nove músicas, ela apareceu como conclusão natural para tudo que aquela banda havia feito durante a apresentação.
O futuro alcançou a música antes que a música envelhecesse.
O Jamiroquai chegou ao Rock in Rio com um catálogo que poderia funcionar perfeitamente como cápsula do tempo. Em vez disso, colocou uma banda enorme para tocá-lo como música viva.
Essa talvez tenha sido a diferença mais importante.
Não era Jay Kay acompanhado por músicos responsáveis por reproduzir sucessos antigos. Era uma banda reagindo uns aos outros, permitindo que baixo, bateria, guitarra, teclados, metais e a percussão de Fabiana Oliveira continuassem encontrando movimento dentro de músicas que já atravessaram décadas.
Jay Kay também mudou. Sua voz carrega o tempo, assim como sua presença no palco já não precisa reproduzir exatamente o homem que apareceu no clipe de Virtual Insanity três décadas atrás.
Nem deveria. O público diante dele também mudou. Reúne quem viveu aquela época e quem chegou muito depois. Quando Canned Heat, Cosmic Girl ou Virtual Insanity começam, porém, descobrir quem pertence a qual geração deixa de importar.
Ninguém precisou ensinar aquela plateia a reagir. Três décadas depois, o corpo ainda sabe exatamente o que fazer.


