Elton John transforma retorno ao Brasil em encontro raro com o palco do Rock in Rio

Elton John se apresenta no Palco Mundo durante o Rock in Rio 2026.
Elton John durante seu retorno ao Brasil no Palco Mundo do Rock in Rio 2026. Foto: Gabriella Ribeiro (Moodgate)

Durante décadas, assistir a Elton John significava encontrar uma data dentro de alguma turnê. Isso mudou em 2023. Quando encerrou a Farewell Yellow Brick Road, o britânico colocou um ponto final em mais de cinco décadas vivendo na estrada.

Nesta segunda-feira (7), uma dessas escolhas colocou Elton novamente diante do público brasileiro. Nove anos depois de sua última apresentação no país e 11 após sua passagem mais recente pelo Rock in Rio, o músico voltou ao Palco Mundo aos 79 anos para um daqueles shows que se tornaram raros desde sua despedida das turnês.

A questão já não era descobrir se Elton John ainda tinha algo a provar. Era entender o que acontece quando um artista com um dos repertórios mais conhecidos da música decide que ainda vale a pena sentar diante do piano mais uma vez.

O piano ainda comanda tudo

E foi exatamente ali que o show começou. Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding abriu a apresentação antes de Bennie and the Jets, I Guess That’s Why They Call It the Blues e Philadelphia Freedom mostrarem rapidamente a dimensão do repertório que estava diante do Palco Mundo.

No meio da estrutura gigantesca do festival, Elton John precisa de pouco espaço. Durante boa parte da apresentação, está sentado diante do piano. É dali que conduz a banda, muda o ritmo das músicas e controla uma plateia de proporções completamente diferentes do instrumento que ocupa o centro de tudo.

Nas músicas mais aceleradas, Elton praticamente ataca as teclas. O piano ganha peso e uma característica percussiva que ajuda a lembrar que seu repertório sempre teve muito mais rock do que uma coleção de grandes baladas pode sugerir.

É quando os arranjos encontram espaço fora das gravações conhecidas que o show fica especialmente interessante. Rocket Man (I Think It’s Going to Be a Long, Long Time) é um desses momentos. Levon foi ainda mais longe, ganhando uma versão estendida que incluiu até um riff de Day Tripper, dos Beatles.

Por alguns minutos, os óculos, os figurinos, os recordes e a dimensão da figura pública ficam em segundo plano.

Outro elemento fundamental para a potência do show está na banda que acompanha Elton John. Davey Johnstone, na guitarra e direção musical, e Nigel Olsson, na bateria, dividem essa história com Elton desde os anos 1970, assim como o percussionista Ray Cooper. A formação ainda conta com John Mahon, na percussão e backing vocals, Kim Bullard, nos teclados, e Matt Bissonette, no baixo. É uma relação construída ao longo de décadas, mas que passa longe de soar acomodada.

No Palco Mundo, a banda tocou com uma vitalidade impressionante, dando peso às guitarras, à cozinha e às extensões instrumentais. Em vários momentos, essa força coletiva transformou o espetáculo em um verdadeiro show de rock e lembrou que, por trás das grandes baladas, o catálogo de Elton sempre teve groove, volume e muita potência.

As músicas envelheceram com Elton

A passagem do tempo também está na voz. Aos 79 anos, Elton John encontrou outras maneiras de interpretar músicas gravadas quando tinha vinte, trinta ou quarenta. Alguns tons mudaram, o fraseado ganhou outras características e a banda sabe exatamente quais espaços precisa ocupar.

Foto: Gabriella Ribeiro (Moodgate)

Procurar no Palco Mundo a mesma voz das gravações dos anos 1970 seria perder justamente aquilo que torna o encontro interessante.

As músicas também mudaram. Décadas de shows, filmes, festas, despedidas, casamentos e experiências completamente diferentes fizeram Tiny Dancer, Sacrifice, Candle in the Wind e Don’t Let the Sun Go Down on Me acumularem histórias que já não pertencem apenas a quem as escreveu.

Isso aparece quando Elton começa uma frase e milhares de pessoas conseguem terminá-la.

Tiny Dancer, sexta música da noite, foi um desses encontros. Uma canção lançada há mais de cinco décadas ainda encontrou uma Cidade do Rock inteira pronta para acompanhá-la.

<

E poucas músicas carregam uma ironia tão inevitável em 2026 quanto I’m Still Standing. Um homem de 79 anos, nove anos depois de sua última passagem pelo Brasil e três depois de encerrar uma das maiores turnês de despedida da história, cantando que continua de pé diante da Cidade do Rock. A música já diz o suficiente.

Uma dívida com o Brasil

Em determinado momento, Elton explicou por que aquele show estava acontecendo. O músico contou que se sentiu mal por não ter conseguido trazer a Farewell Yellow Brick Road ao Brasil. A pandemia de Covid-19 afetou a programação da turnê e o país acabou ficando de fora da despedida.

“Eu queria vir tocar no Brasil porque eu realmente iria parar de tocar ao vivo. Mas nós não viemos ao Brasil e eu interrompi a Yellow Brick Tour por causa da Covid-19. E eu me senti muito mal com isso, porque vocês têm sido um dos melhores países para mim, para minha música e meus fãs.”

Foi justamente por isso que, ao receber o convite para voltar ao Rock in Rio, Elton decidiu abrir uma exceção.

A fala ajuda a explicar a dimensão do reencontro. Sua última apresentação no Brasil havia acontecido em 2017. No Rock in Rio, suas passagens anteriores foram em 2011 e 2015. Onze anos depois, o contexto era completamente diferente. Naquelas ocasiões, o festival era mais uma parada dentro da extensa rotina de turnês de Elton John.

Agora, o show existia porque ele decidiu fazê-lo.

Uma tradição brasileira voltou ao repertório

Essa relação com o país ganhou outro capítulo especial com Skyline Pigeon.

A história começou em 1995, durante uma apresentação na Arena Anhembi, em São Paulo. A partir dali, a música se tornou uma presença recorrente nos shows de Elton John no Brasil e esteve nas 18 apresentações seguintes realizadas pelo músico no país.

Fora daqui, entretanto, a situação era bastante diferente. Antes desta segunda-feira, Elton não tocava Skyline Pigeon em nenhum lugar do mundo desde 2019.

Seu retorno ao repertório no Rock in Rio recuperou, portanto, uma tradição construída especificamente na relação entre Elton e o público brasileiro. Depois de nove anos sem um show do britânico no país, havia poucas maneiras melhores de reconhecer essa história.

Depois da despedida

O retorno também ajuda a corrigir uma impressão criada pelo fim da Farewell Yellow Brick Road. Elton John se despediu das turnês, não da carreira. Em 2025, lançou Who Believes In Angels?, parceria com Brandi Carlile que mostrou que sua relação com a música continua avançando mesmo depois de abandonar a rotina da estrada.

Isso impede que o Rock in Rio funcione apenas como uma visita ao passado. Os clássicos naturalmente dominaram a noite, mas quem estava sentado ao piano continua sendo um músico ativo, mesmo que tenha conquistado o direito de decidir quando deseja voltar aos grandes palcos.

E o Brasil esperou bastante por uma dessas decisões. A reta final transformou o catálogo em uma sequência difícil de interromper.

Candle in the Wind foi seguida por Goodbye Yellow Brick Road, Sad Songs (Say So Much) e Don’t Let the Sun Go Down on Me. Depois vieram Crocodile Rock, Saturday Night’s Alright for Fighting e I’m Still Standing.

Goodbye Yellow Brick Road chegou ao Rio carregando um significado que não possuía nas duas apresentações anteriores de Elton no festival. Durante anos, a música esteve associada à própria despedida dos palcos itinerantes. Agora, era cantada do outro lado daquela história.

Foto: Gabriella Ribeiro (Moodgate)

O encerramento ainda reservou Cold Heart no bis. Não havia motivo para transformar aqueles minutos em uma despedida definitiva. Elton John já fez sua despedida das turnês e deixou claro que apresentações pontuais continuam fazendo parte de sua vida.

É justamente isso que torna a noite diferente. Em outros tempos, o fim daquele show significaria arrumar as malas para a próxima cidade. Agora, Elton John pode simplesmente escolher quando deseja fazer tudo outra vez.

Aos 79 anos, depois de mais de cinco décadas vivendo na estrada, cada palco passou a significar uma decisão.

Nesta segunda-feira, ele escolheu o Rio de Janeiro.