Em 1985, Gilberto Gil subiu ao palco da primeira edição do Rock in Rio aos 42 anos. Quarenta e um anos depois, voltou à Cidade do Rock aos 84. O dobro da idade. O mesmo festival. E uma obra que, nesse intervalo, passou a pertencer também a gerações que sequer eram nascidas quando aquele primeiro encontro aconteceu.
Nesta segunda-feira (7), Gilberto Gil retornou ao Palco Mundo carregando mais de seis décadas de música brasileira. Cercado por uma banda que reúne diferentes gerações da própria família, Gil encontrou diante de si um público igualmente diverso.


A relação entre Gilberto Gil e o Rock in Rio atravessa praticamente toda a história do festival. Foram duas apresentações em 1985, um retorno ao lado de Milton Nascimento em 2001 e, mais recentemente, a celebração dos seus 80 anos no Palco Sunset em 2022.
Mas o passado só interessa até certo ponto. Porque o Gilberto Gil que estava no Palco Mundo em 2026 não é o mesmo homem que pisou ali quatro décadas atrás. As músicas também não são.
O tempo está nas músicas
Aos 84 anos, Gil não canta como cantava aos 42. Nem poderia. A voz ganhou outras características, o fraseado encontrou novos caminhos e existem momentos em que a banda ou a própria plateia assumem melodias que atravessaram décadas na voz do compositor.
Isso não diminui as músicas. Em alguns casos, acrescenta novas camadas a elas.
Andar com Fé passou décadas sendo cantada por pessoas de diferentes idades. Toda Menina Baiana, Realce e Palco sobreviveram às mudanças da música brasileira e continuam encontrando novos públicos.
O show começou olhando para diferentes momentos dessa trajetória. Cérebro Eletrônico e Pela Internet colocaram lado a lado duas inquietações de Gil com a tecnologia, enquanto Andar com Fé rapidamente transformou o Palco Mundo em um grande coro.
Depois vieram Toda Menina Baiana e uma versão de Rebel Music (3 O’Clock Roadblock), de Bob Marley & The Wailers.
Em seguida, outro encontro ajudou a conectar diferentes capítulos da música brasileira.
Liminha subiu ao palco para tocar Vamos Fugir ao lado de Gil. A participação ganhou força justamente pela história compartilhada entre os dois e pelo lugar que a música ocupa no repertório do cantor.
Não precisava de grandes explicações. Bastaram os primeiros acordes para que a Cidade do Rock assumisse o restante.
Uma obra que deixou de pertencer a uma única geração
Olhar para a plateia durante o show também ajudava a entender o que aconteceu com essas músicas.
Havia quem pudesse ter acompanhado Gil no Rock in Rio de 1985. Havia quem tenha conhecido sua obra pelos discos dos pais. E havia gente que nasceu décadas depois de Domingo no Parque, Expresso 2222, Realce ou Toda Menina Baiana e ainda assim reconhecia aquelas músicas nos primeiros segundos.


É nesse ponto que o show deixa de depender exclusivamente da memória.
Palco funciona em 2026 porque ainda consegue colocar corpos em movimento. O mesmo acontece com Realce. Em Andar com Fé, o microfone já nem precisa permanecer o tempo inteiro com Gil porque milhares de vozes conseguem assumir a música.
O repertório atravessa samba, reggae, baião, rock, funk e pop sem precisar apresentar cada mudança como uma demonstração histórica. Essas linguagens passaram a conviver dentro da obra de Gil.
No Palco Mundo, o resultado era menos uma retrospectiva do que uma constatação. As músicas continuaram circulando.
Um palco para a memória da música brasileira
O repertório também abriu espaço para que Gil olhasse para artistas que atravessaram sua própria história e a música brasileira.
Ovelha Negra levou Rita Lee ao Palco Mundo. A homenagem ganhou ainda mais significado com Marília e Flor, filha e neta de Rita, participando do momento.
Era uma canção que já carregava uma ausência, agora interpretada ao lado de duas gerações da família da artista.
Na sequência, foi a vez de Cazuza aparecer no repertório através de Pro Dia Nascer Feliz.
Gil apresentou uma nova versão da música, levando o clássico eternizado pelo Barão Vermelho para dentro da linguagem daquele show. A canção ganhou outra roupagem e mostrou que a homenagem também poderia acontecer pela transformação.
Em vez de simplesmente reproduzir uma música conhecida por praticamente toda a Cidade do Rock, Gil encontrou sua própria maneira de cantá-la.
Depois vieram Esperando na Janela, de Targino Gondim, Maracatu Atômico, de Jorge Mautner, e Divino, Maravilhoso, composição de Gil e Caetano Veloso eternizada na voz de Gal Costa.
Quando “é preciso estar atento e forte” atravessou o Palco Mundo, uma música lançada no fim dos anos 1960 encontrou novamente espaço no presente.
As homenagens não pareciam um bloco separado da apresentação, elas faziam parte da própria ideia do show: olhar para uma história que Gil ajudou a construir sem tratá-la como algo encerrado.
O Palco Mundo como parte do espetáculo
Havia ainda outro elemento importante para entender a dimensão daquela apresentação: o uso do telão do Palco Mundo. As projeções foram tratadas com muita precisão ao longo do show, acompanhando as músicas com visuais que ampliavam aquilo que acontecia no palco.
GILBERTO GIL NO PALCO MUNDO! 🇧🇷
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) September 7, 2026
Em 1985, ele estava na primeira edição do Rock in Rio. 41 anos depois, Gilberto Gil está de volta ao palco principal da Cidade do Rock.
Que história. pic.twitter.com/WsnyzyolPA
Em vários momentos, o telão deixou de funcionar apenas como uma maneira de aproximar Gil de quem estava distante e passou a fazer parte da própria narrativa do espetáculo.
Imagens, cores e intervenções visuais dialogavam com o repertório sem disputar atenção com ele. Para uma apresentação atravessada por memória, tempo e diferentes capítulos da música brasileira, a produção conseguiu transformar a escala do Palco Mundo em uma extensão das canções.
Era um espetáculo pensado também para ser visto em grande escala.
Quarenta e um anos depois
Na reta final, Aquele Abraço / Funk-se Quem Puder e Atrás do Trio Elétrico reforçaram uma característica que acompanhou toda a apresentação: havia história naquele palco, mas ela continuava provocando movimento.
Talvez nenhuma música pudesse caber melhor nesse reencontro.
— Joelgate (@JoelrMendes) September 8, 2026
Aquele Abraço no Rock in Rio, 41 anos depois da primeira passagem de Gilberto Gil pelo festival. ❤️ pic.twitter.com/q6ErJVOGap
Da banda às projeções que ocuparam o gigantesco telão do Palco Mundo, tudo trabalhava para colocar essa história novamente em circulação.
As músicas que atravessaram décadas continuavam provocando dança, palmas e coros em uma Cidade do Rock muito diferente daquela inaugurada em janeiro de 1985.
E talvez essa seja a imagem que vale guardar. Gilberto Gil não canta essas músicas como cantava na primeira edição do festival. O público também não é o mesmo. O interessante é perceber tudo aquilo que as canções aprenderam a carregar desde então.
Em 1985, Gilberto Gil ajudou a escrever um dos primeiros capítulos do Rock in Rio. Em 2026, não precisava recriá-lo. Ainda havia música suficiente acontecendo no presente.


