Bad Omens mostra diferentes faces de sua evolução no Rock in Rio

Fumaça tomou o Palco Sunset enquanto os primeiros segundos de Specter anunciavam a chegada do Bad Omens ao Rock in Rio. Entre luzes baixas e uma atmosfera quase fantasmagórica, Noah Sebastian, Joakim Karlsson, Nicholas Ruffilo e Nick Folio deram início a uma apresentação construída em atos.

Specter abriu espaço para o lado mais atmosférico da banda. Noah começou contido, deixando a tensão crescer junto com a música até a voz explodir. O Do you feel love? encontrou a resposta da plateia antes de o cenário mudar completamente.

O vermelho tomou o Sunset. Os visuais passaram a remeter às chamas. Era hora de Glass Houses. Primeira faixa do álbum de estreia, Bad Omens, lançado em 2016, a música recuperou uma versão muito mais direta e agressiva do grupo. Noah trocou a contenção pelos guturais, as guitarras cresceram e o peso tomou a frente.

Dez anos de carreira foram percorridos em duas músicas.

Um show dividido em atos

Essa transformação constante fez parte da própria estrutura da apresentação. As chamadas “fitas” apareceram nos telões para separar diferentes blocos do repertório. Cores, imagens e interlúdios mudaram junto com as músicas, conduzindo a apresentação por diferentes estados emocionais.

Depois de Glass Houses, THE DEATH OF PEACE OF MIND mudou novamente a atmosfera.

A música que dá nome ao álbum responsável por alterar a dimensão do Bad Omens colocou a eletrônica, os silêncios e a sensualidade no centro da apresentação.

O ritmo preciso de Nick Folio sustentou uma faixa construída entre contenção e explosões, enquanto Noah Sebastian transitava entre vocais quase sussurrados e momentos de maior intensidade.

A segunda fita anunciou outra mudança. O vermelho desapareceu e o azul tomou o Palco Sunset para Dying to Love. A música cresceu gradualmente até o vocal de Noah romper a contenção e alcançar novamente os gritos.

Era também um olhar mais claro para o futuro do Bad Omens.

Specter e Dying to Love pertencem à fase que começou a surgir depois de THE DEATH OF PEACE OF MIND. Em vez de simplesmente reproduzir a linguagem responsável pelo crescimento da banda, as novas músicas ampliam o espaço ocupado pela eletrônica e pela atmosfera.

Nowhere to Go veio na sequência e recolocou as guitarras em primeiro plano antes de o show seguir para um de seus momentos mais pesados.

Noah Sebastian vive nos extremos

Poucos minutos separam o Noah Sebastian que quase sussurra partes de Dying to Love daquele que parece querer rasgar a própria garganta em ARTIFICIAL SUICIDE. No Rock in Rio, essa distância foi uma das características mais interessantes de sua performance.

ARTIFICIAL SUICIDE abriu um dos momentos mais agressivos da noite. Nick Folio atacou a bateria enquanto guitarras, sintetizadores e guturais se acumulavam em uma das músicas mais violentas do repertório recente.

Mas o Bad Omens não permaneceu muito tempo no mesmo lugar.

Left For Good trouxe novamente a fase atual para o centro da apresentação e reforçou como a banda parece menos interessada em escolher entre peso e eletrônica do que em descobrir maneiras diferentes de aproximar os dois.

É justamente essa alternância que sustenta boa parte do show.

Quando Noah reduz a intensidade, existe a sensação de que alguma coisa está prestes a acontecer. Quando finalmente explode, o impacto aumenta porque a banda passou minutos construindo aquela tensão.

O disco que mudou tudo ainda fala mais alto

As músicas novas mostram para onde o Bad Omens parece caminhar. A reação a Like a Villain e, principalmente, Just Pretend lembra de onde ainda vem boa parte de sua força ao vivo. What It Cost serviu como passagem para esse momento.

Logo depois, Like a Villain encontrou uma plateia preparada para acompanhar cada mudança da música. Mas foi com Just Pretend que a dimensão alcançada pela banda ficou mais evidente.

O palco abandonou os tons mais agressivos e ganhou outra atmosfera. Pela pista, celulares começaram a surgir até transformar o Sunset em um mar de pequenas luzes.

Noah Sebastian já não precisava carregar sozinho o refrão. A Cidade do Rock fazia isso por ele.

Lançada em THE DEATH OF PEACE OF MIND, Just Pretend ultrapassou a cena que revelou o grupo e apresentou o Bad Omens para uma audiência muito maior. No Rock in Rio, bastava ouvir o tamanho daquele coro para perceber as consequências desse crescimento.

De Glass Houses a Just Pretend, dez anos estavam separados por pouco mais de uma hora.

Ainda existe espaço para mudar

A última fita trouxe Impose e outra transformação visual. O azul voltou aos telões enquanto piano e eletrônica substituíam momentaneamente as guitarras mais agressivas, deixando Noah Sebastian mais exposto no centro da música.

A escolha de colocar Impose tão perto do encerramento também diz bastante sobre o momento atual do Bad Omens.

Depois de um disco que definiu sua identidade para milhões de novos ouvintes, Specter, Dying to Love, Left For Good e Impose começam a apontar para outra direção.

Dethrone libera tudo que o show segurou

Depois da delicadeza de Impose, os primeiros sinais de Dethrone mudaram completamente o Sunset. Os guturais voltaram. Nick Folio assumiu a bateria com ainda mais violência. As guitarras cresceram e os tons agressivos retornaram ao palco.

Noah Sebastian abandonou qualquer contenção. Na pista, as rodas voltaram a se abrir enquanto o vocalista cobrava mais movimento e entregava uma de suas performances mais extremas da noite.

Era a liberação depois de uma apresentação construída sobre tensão. O Bad Omens começou com a atmosfera quase fantasmagórica de Specter. Passou pelo metalcore de Glass Houses, pelos enormes coros de THE DEATH OF PEACE OF MIND, pela eletrônica de sua fase atual e chegou ao fim recuperando a brutalidade de Dethrone.

Poucos minutos separaram a delicadeza de Impose daquele encerramento. Dez anos depois de Glass Houses, essa distância talvez seja a melhor medida do que o Bad Omens se tornou.