Em 2024, vimos cerca de 50 mil pessoas lotarem o Allianz Parque para o maior show da carreira do Bring Me The Horizon até então. Menos de dois anos depois, Oliver Sykes e companhia chegaram ao Rock in Rio em outra posição simbólica dessa ascensão: ocupando o Palco Mundo como uma das principais atrações do sábado (5).
Bastaram os primeiros minutos para a Cidade do Rock ser transportada para o universo de POST HUMAN. Telões, interferências digitais, fogo e CO2 cercaram Oliver Sykes, Lee Malia, Matt Kean e Matt Nicholls enquanto DArkSide abria a apresentação.
Na sequência, The House of Wolves, Happy Song e Teardrops mostraram rapidamente o tamanho do repertório que a banda tinha à disposição.
Era a segunda parte da Ascension Tour chegando ao Brasil com um espetáculo pensado para essa escala.
Bem-vindo ao POST HUMAN
EVE apareceu nos telões entre mensagens, comandos e glitches, conduzindo transições e mantendo a narrativa distópica de POST HUMAN presente ao longo da apresentação.
A estrutura visual também ajudou a conectar músicas separadas por anos e propostas bastante diferentes. Em uma discografia que passou pelo deathcore, metalcore, eletrônico, pop, nu metal e rock de arena, essa continuidade faz diferença.
Dehumanized levou essa lógica ao extremo. Lançada em 2026 durante as celebrações dos 20 anos de Count Your Blessings, a faixa colocou Oliver Sykes novamente diante dos guturais que marcaram o início da banda.
Enquanto rodas se abriam diante do Palco Mundo, havia algo curioso naquela imagem: uma sonoridade que remete diretamente ao período em que o Bring Me The Horizon ocupava espaços muito menores agora ecoava em um dos maiores palcos do país.
Vinte anos de transformação estavam diante da Cidade do Rock.
Vinte anos cabem no mesmo show
O repertório deixou essa evolução ainda mais evidente. Kool-Aid mostrou a versão mais recente dessa equação, combinando agressividade, eletrônica e a produção carregada que se tornou uma das marcas do Bring Me The Horizon atual. Logo depois, Shadow Moses recuperou o peso de Sempiternal e encontrou resposta imediata do público.
Mas talvez nenhum momento tenha aproximado tanto passado e presente quanto Pray for Plagues.
Antes da música, Oliver Sykes chamou um fã ao palco. João Pedro ganhou o microfone e assumiu os vocais ao lado do britânico em uma das faixas mais brutais do primeiro álbum da banda.
A cena dizia bastante sobre o tamanho que essa história ganhou. Uma música lançada em 2006, quando o Bring Me The Horizon ainda estava mergulhado no deathcore, era cantada vinte anos depois por um fã brasileiro no Palco Mundo do Rock in Rio.
Não parecia uma visita nostálgica ao passado. Pray for Plagues ainda conseguia provocar o caos para o qual foi criada.
Oliver Sykes aprendeu a controlar multidões
No centro dessa transformação está Oliver Sykes. Sua evolução como frontman acompanhou o crescimento da própria banda. No Rock in Rio, isso apareceu na maneira como administrou um Palco Mundo ocupado por dezenas de milhares de pessoas.
Em poucos minutos, Oliver apontava para uma roda que começava a se abrir, atravessava o palco cobrando mais movimento e, no refrão seguinte, estendia o microfone para ouvir a Cidade do Rock cantar por ele.
A interação foi constante. Entre uma música e outra, o vocalista conversou com o público, provocou as primeiras fileiras e transformou os intervalos em parte da apresentação. Nos momentos mais pesados, exigia movimento. Nos grandes refrões, sabia quando deixar a multidão assumir.
Doomed trouxe a chuva para o #RockinRio☔️❣️
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) September 6, 2026
pic.twitter.com/vrMKURylEX
A relação de Oliver com o Brasil ganhou também alguns dos momentos mais divertidos da noite. Arriscando o português, o vocalista fez questão de mostrar que sua ligação com o país já ultrapassou as visitas ocasionais.
“Eu tenho CPF”, anunciou. Depois veio: “Eu tenho Pix”. A declaração mais simples apareceu pouco depois: “Te amo vocês muito”. O português podia não estar perfeito. A mensagem estava.
A relação de Oliver Sykes com o Brasil já era conhecida, mas no Rock in Rio deixou de aparecer apenas como contexto biográfico e virou parte do próprio show.
“ EU TENHO UM PIX”
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) September 6, 2026
O BRASIL É TODO SEU🇧🇷🩷#RockinRio26 pic.twitter.com/svKmDAhYYX
A chuva encontrou Doomed
Foi durante Doomed que outro elemento entrou em cena. A chuva começou a cair sobre a Cidade do Rock enquanto a música avançava pelo Palco Mundo. Para uma faixa construída justamente sobre tensão, melancolia e explosão, o acaso acabou criando uma das imagens mais fortes da apresentação.
Não era preciso acrescentar nada à produção naquele momento. Enquanto Oliver Sykes cantava e a chuva atravessava as luzes do palco, milhares de pessoas continuavam acompanhando a música diante dele.
Depois veio Drown, mantendo a reta final em um registro mais emocional antes de Throne devolver o espetáculo à escala gigantesca que marcou boa parte da noite.
Throne já carrega um ritual conhecido nos shows do Bring Me The Horizon. Oliver pediu para todo mundo abaixar. A Cidade do Rock acompanhou. Por alguns segundos, milhares de pessoas permaneceram agachadas diante do Palco Mundo enquanto o vocalista segurava a tensão.
Então veio o refrão. Todo mundo voltou para cima ao mesmo tempo, acompanhado pelo peso da banda e pela explosão visual do palco. No meio daquela cena, Oliver Sykes apareceu com a bandeira do Brasil.
A imagem condensava boa parte da relação construída entre a banda e o país nos últimos anos. Do Allianz Parque lotado em 2024 à estreia no Rock in Rio em 2026, o Brasil deixou de representar apenas mais uma parada nas turnês do grupo.
Mas ainda havia uma música. Depois de Throne, Oliver voltou a brincar com o público brasileiro antes de puxar Can You Feel My Heart.
Foi a última música da noite. Os sintetizadores que ajudaram a transformar Sempiternal em um ponto de virada na carreira tomaram o Palco Mundo enquanto o refrão passava para a Cidade do Rock.
Era uma escolha interessante para terminar. Em 2006, Count Your Blessings apresentava uma jovem banda britânica mergulhada no deathcore. Vinte anos depois, o mesmo show conseguiu colocar Pray for Plagues, Doomed, Throne e Can You Feel My Heart diante de dezenas de milhares de pessoas sem que nenhuma delas parecesse pertencer a uma banda diferente.
É muito doido pensar no tamanho que Can You Feel My Heart ganhou fora da própria bolha do Bring Me The Horizon.
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) September 6, 2026
Agora olha isso no Rock in Rio.#RockinRio26
pic.twitter.com/EwLGx03phm
Talvez essa seja a maior conquista do Bring Me The Horizon depois de duas décadas. Eles mudaram inúmeras vezes. O público aprendeu a mudar junto.


