Avenged Sevenfold equilibra grandes clássicos e inquietação no Rock in Rio

M. Shadows, do Avenged Sevenfold, durante show no Palco Mundo do Rock in Rio 2026
M. Shadows comanda o Avenged Sevenfold durante apresentação no Palco Mundo do Rock in Rio 2026.

O sol já havia desaparecido quando os sinos começaram a tocar na Cidade do Rock. Bastaram poucos segundos para milhares de pessoas reconhecerem o que vinha a seguir. Nightmare.

Brooks Wackerman aparecia elevado sobre os demais enquanto M. Shadows, Synyster Gates, Zacky Vengeance e Johnny Christ ocupavam a largura do Palco Mundo. Depois de um sábado que passou por Sepultura, MGK e Bring Me The Horizon, cabia ao Avenged Sevenfold fechar a noite.

A cena era bem diferente daquela encontrada pela banda em sua estreia no festival. Em 2013, o Avenged Sevenfold tocou entre Slayer e Iron Maiden, ainda precisando conquistar parte daquele público. Em 2024, retornou como headliner. Agora, em 2026, voltou ao mesmo posto poucos meses depois de reunir cerca de 50 mil pessoas no Allianz Parque, em São Paulo.

O Palco Mundo deixou de representar uma conquista para o Avenged Sevenfold. Virou território conhecido.

A resposta a Afterlife mostrou rapidamente o tamanho dessa relação com o público brasileiro. O refrão foi assumido pela Cidade do Rock enquanto as guitarras de Synyster Gates e Zacky Vengeance conduziam uma música que acompanha a banda desde Avenged Sevenfold, de 2007.

Shepherd of Fire, Buried Alive e Seize the Day continuaram percorrendo alguns dos momentos mais conhecidos da discografia. Hail to the King precisou apenas de seu riff inicial para levantar braços pela pista, enquanto Bat Country recuperou a velocidade e o caos de City of Evil.

O Avenged Sevenfold poderia construir praticamente toda a apresentação em cima desses momentos.

Mas é justamente quando abandona a segurança dos próprios clássicos que o show começa a dizer mais sobre a banda que ocupa o Palco Mundo em 2026.

O Avenged Sevenfold continua escolhendo o caminho menos fácil

Magic apareceu logo no começo do show como uma lembrança de que o Avenged Sevenfold não chegou ao Rock in Rio interessado apenas em revisitar o passado. A música, lançada em 2025, dividiu espaço com um repertório que atravessou diferentes décadas da banda.

Mais tarde, The Stage levou novamente a apresentação para estruturas menos imediatas, enquanto Nobody mergulhou no universo de Life Is But a Dream…. O ritmo ficou mais arrastado. A estrutura, menos previsível. E a resposta da plateia mudou junto.

Não existe durante Nobody a mesma reação automática provocada por Afterlife ou Hail to the King. Também não parece existir qualquer preocupação da banda em buscar isso o tempo inteiro.

É durante Nobody que Synyster Gates encontra um de seus grandes momentos. Mesmo quando o repertório abandona os caminhos mais imediatos, basta o guitarrista assumir o primeiro plano para a atenção voltar ao palco. O solo exige precisão, velocidade e controle, e Gates executa as passagens técnicas com uma naturalidade que frequentemente faz a dificuldade desaparecer aos olhos de quem assiste.

Isso se repetiu ao longo da noite. Ao lado de Zacky Vengeance, ele alternou riffs pesados, harmonias e solos sem transformar a apresentação em uma simples demonstração de virtuosismo.

A técnica existe para servir às músicas. É uma diferença importante. A teatralidade do Avenged Sevenfold pode ocupar boa parte da primeira impressão, mas são esses detalhes que continuam sustentando o show quando fogo, telões e outras estruturas deixam de ser novidade.

Algumas músicas atravessaram todas as versões dessa história

Os primeiros acordes de Unholy Confessions carregam um significado particular naquele palco. A música estava lá em 2013. Naquele ano, encerrou a estreia do Avenged Sevenfold no Rock in Rio diante de um público que ainda observava aquela nova geração dividir espaço com nomes históricos do metal.

Onze anos depois, Unholy Confessions voltou a aparecer na reta final do primeiro show da banda como headliner do festival.

O riff permanece praticamente impossível de confundir. A bateria de Brooks Wackerman acelerou a apresentação, as guitarras voltaram ao metalcore de Waking the Fallen e as rodas se abriram pela Cidade do Rock.

Treze anos separam aquelas duas imagens, e a música continua funcionando.

Bat Country provoca algo parecido. M.I.A., recuperada no repertório atual, também ajudou a devolver City of Evil ao centro da apresentação.

O tempo passou, o Avenged Sevenfold mudou e sua relação com o próprio metal também. Algumas músicas, porém, parecem ter encontrado um lugar permanente dentro da conexão construída com o público brasileiro.

M. Shadows conhece quem está diante dele

No centro de tudo continua M. Shadows. Meses depois da apresentação no Allianz Parque, a familiaridade do vocalista com os brasileiros permaneceu evidente. Ele deixou refrões para a plateia, conversou com quem estava nas primeiras filas e soube identificar os momentos em que pouco precisava fazer além de apontar o microfone para a Cidade do Rock.

Mas uma das falas mais interessantes da noite aconteceu quando Shadows deixou a música de lado por alguns instantes. O vocalista contou que havia acompanhado as discussões nas redes sociais e se incomodado com a negatividade entre fãs das atrações daquele sábado.

“Todo mundo que tocou aqui hoje é amigo”, resumiu.

A fala vinha depois de um dia marcado por discussões sobre o lugar de MGK no line-up e comparações entre o tamanho atual do Bring Me The Horizon e do próprio Avenged Sevenfold. Parte dessa disputa havia saído das redes e chegado à Cidade do Rock, com MGK enfrentando resistência de uma parcela do público durante sua apresentação.

Shadows preferiu desmontar a rivalidade. Para quem estava no palco, não havia disputa entre as bandas. Havia um mesmo dia de festival ocupado por artistas que, apesar das diferenças, mantêm relações de amizade.

Entre a segurança e a inquietação

Existe uma alternativa muito mais fácil para o Avenged Sevenfold. Tocar Nightmare. Tocar Afterlife. Tocar Hail to the King. Tocar Bat Country. Tocar Unholy Confessions. Acrescentar mais alguns clássicos e terminar sob uma última explosão.

A banda continua escolhendo outro caminho. Isso não significa que todas as escolhas funcionem da mesma maneira.

Algumas músicas recentes diminuem a temperatura criada pelos grandes sucessos. Outras exigem uma atenção que nem sempre uma multidão de festival está disposta a oferecer. Mas existe algo coerente nessa insistência.

Depois de conquistar o direito de viver do próprio passado, o Avenged Sevenfold parece pouco interessado em fazer isso. A própria reta final mostrou as duas possibilidades convivendo.

A Little Piece of Heaven apareceu no primeiro bis e recuperou toda a teatralidade de uma das músicas mais reconhecidas da banda. A Cidade do Rock respondeu imediatamente, acompanhando uma composição que continua tão exagerada quanto quando surgiu em 2007.

Era o encerramento óbvio. Só que o Avenged Sevenfold ainda tinha Cosmic. Depois da explosão de A Little Piece of Heaven, a última música mudou completamente a temperatura do Palco Mundo.

A agressividade desapareceu. As guitarras abriram espaço para uma construção lenta, progressiva e contemplativa enquanto M. Shadows conduzia uma das composições mais particulares de Life Is But a Dream….

É um encerramento estranho para um headliner de festival. Principalmente depois de uma apresentação construída sobre alguns dos maiores refrões do metal das últimas duas décadas.

Não houve uma última descarga de energia. O grande momento catártico já tinha acontecido em A Little Piece of Heaven. Em vez de tentar superá-lo, o Avenged Sevenfold preferiu deixar Cosmic caminhar até suas últimas notas.

Como escolha artística, faz sentido dentro da inquietação que acompanha a banda atual. Como encerramento de festival, pode deixar uma sensação diferente da esperada. A energia acumulada durante a apresentação se dissolve em vez de explodir uma última vez.

Mas talvez esteja justamente aí o ponto. Em 2013, o Avenged Sevenfold ainda precisava mostrar que pertencia àquele palco. Em 2026, já não precisa convencer ninguém. Pode tocar os clássicos que construíram essa relação, recuperar M.I.A., colocar Magic ao lado de Nightmare, transformar A Little Piece of Heaven em catarse e, quando todo mundo espera o golpe final, escolher terminar com Cosmic.

As últimas notas desapareceram e o palco escureceu.

Para uma banda que já poderia passar o resto da carreira escolhendo sempre o caminho mais seguro, continuar resistindo a essa facilidade talvez seja a parte mais Avenged Sevenfold da noite.