Laufey faz o Rock in Rio diminuir o volume para ouvi-la

Laufey canta e toca guitarra durante apresentação no Palco Sunset do Rock in Rio 2026.
Laufey durante apresentação no Palco Sunset do Rock in Rio 2026. Foto: [crédito do fotógrafo/Moodgate]

O Rock in Rio não é exatamente um lugar construído para o silêncio. Música chega de diferentes direções, milhares de pessoas atravessam a Cidade do Rock e praticamente tudo ao redor disputa atenção. Nesta segunda-feira (7), Laufey chegou ao Palco Sunset propondo outra dinâmica.

A cantora islandesa-chinesa construiu uma das trajetórias mais particulares do pop recente aproximando jazz, música clássica, bossa nova e o songwriting tradicional de uma nova geração. Nos últimos anos, essa combinação deixou ambientes intimistas para ocupar alguns dos maiores palcos de sua carreira.

No Rock in Rio, o desafio era outro: descobrir quanto dessa delicadeza sobreviveria à escala de um festival.

Delicadeza também ocupa espaço

A apresentação começou como um espetáculo dividido em atos. Depois da abertura instrumental, Lover Girl deu início ao repertório, seguida por Silver Lining, Falling Behind, Bored, How I Get e Too Little, Too Late.

Existe uma produção cuidadosamente construída ao redor de Laufey, mas são os momentos em que ela reduz a distância entre palco e plateia que melhor explicam sua força. Piano, guitarra, cordas e voz sustentam músicas que, em outro contexto, poderiam facilmente desaparecer diante do tamanho do Sunset.

É aí que aparece uma medida mais interessante do tamanho que Laufey alcançou. Fazer uma arena cheia de fãs prestar atenção é uma coisa. Conseguir o mesmo diante de um público de festival, cercado por conversas, outros palcos e dezenas de estímulos, é outra.

Bewitched, apresentada em uma versão com quarteto de cordas, mostrou como a cantora consegue ampliar suas músicas sem retirar delas o caráter intimista.

A fase de A Matter of Time também ajuda a impedir que o espetáculo permaneça sempre no mesmo lugar. O álbum ampliou uma linguagem que Laufey já dominava, mas deixou aparecer mais ansiedade, insegurança e pequenos desequilíbrios por trás de uma estética normalmente muito controlada.

Ao vivo, isso interessa principalmente quando os arranjos deixam de ser apenas bonitos.

Esse contraste é necessário. A estética continua cuidadosamente construída, das cordas aos figurinos, mas o show ganha mais força quando alguma coisa ameaça sair do lugar.

É também o que evita transformar Laufey apenas em uma coleção de referências bonitas ao passado.

A música brasileira chega ao centro do show

A relação de Laufey com a música brasileira já estava presente na linguagem de suas próprias composições. No Rock in Rio, ela decidiu torná-la explícita.

Antes de um dos momentos mais especiais da apresentação, a cantora falou sobre a grande inspiração que encontra na música brasileira e pediu licença ao público para cantar uma canção de Luiz Bonfá.

A escolhida foi Perdido de Amor.

O gesto poderia facilmente cair no território protocolar da homenagem de um artista estrangeiro ao país onde está se apresentando. Mas fazia sentido dentro daquele show.

A bossa nova e o jazz brasileiro fazem parte do vocabulário musical que Laufey incorporou à própria obra. Ouvi-la interpretar Bonfá no Rio de Janeiro, portanto, ajudou a revelar uma das origens de uma sonoridade que hoje chega a milhões de ouvintes de outra geração.

E existe algo especialmente interessante nesse caminho: uma artista de 27 anos leva essas referências para um público igualmente jovem e, diante de milhares de pessoas no Rock in Rio, devolve parte desse percurso ao lugar de onde ele veio.

Sem precisar transformar a homenagem em aula de história.

Entre o passado e uma linguagem própria

Depois de Perdido de Amor, o show entrou em seu terceiro ato. Em Madwoman, Laufey trocou a delicadeza habitual do violão pelo cello, reforçando como a instrumentação também participa da personalidade de suas apresentações.

Vieram então Promise e, finalmente, From the Start. A reação aos primeiros acordes ofereceu uma dimensão imediata do que aconteceu com a carreira de Laufey nos últimos anos.

A bossa nova está ali. O jazz também. Mas, diante do Sunset, já importa menos descobrir de onde cada elemento veio. Aquela música agora pertence também às milhares de pessoas que sabem cantá-la.

Talvez esteja aí uma das maiores qualidades de Laufey. Ela encontrou uma maneira de trabalhar com linguagens de outras gerações sem tratá-las como peças de museu.

Referência e identidade conseguem ocupar o mesmo espaço. E Nem todos os momentos funcionam da mesma maneira.

Algumas passagens mais delicadas sentem o peso de um ambiente muito menos controlado do que os teatros e arenas de uma turnê própria. Outras encontram justamente no contraste com o festival uma força que talvez não existisse em uma sala silenciosa.

O importante é perceber como Laufey reage a isso. Goddess ficou responsável pelo encerramento depois de um repertório que passou por Lover Girl, Bewitched, Valentine, Dreamer, Promise e From the Start, além do encontro simbólico com a música brasileira em Perdido de Amor.

Quando os últimos acordes desapareceram pelo Palco Sunset, o tamanho daquele show não precisava ser medido apenas pela quantidade de pessoas diante dela.

Havia outra medida disponível. Em um festival acostumado a descobrir quem consegue fazer mais barulho, Laufey encontrou força fazendo o público querer ouvir.