The Strokes – Reality Awaits

Capa do álbum Reality Awaits, novo disco do The Strokes, analisado em review da Moodgate.
Reality Awaits marca o retorno do The Strokes com uma sonoridade mais experimental e produção assinada por Rick Rubin.
7.4

Poucas bandas carregam um legado tão difícil de administrar quanto The Strokes. Desde o impacto de Is This It, lançado em 2001, cada novo trabalho do quinteto nova-iorquino inevitavelmente é comparado ao disco que redefiniu o rock independente dos anos 2000. Durante mais de duas décadas, a banda conviveu com a expectativa de recriar aquele momento e, felizmente, parece ter desistido dessa missão.

Em Reality Awaits, seu sétimo álbum de estúdio e o primeiro desde The New Abnormal (2020), os Strokes não tentam reviver o passado. O objetivo é outro: testar até onde sua identidade pode ser expandida sem deixar de soar como a própria banda.

Gravado na Costa Rica sob produção de Rick Rubin, em um estúdio isolado nas montanhas que mais lembrava uma colônia de férias para músicos independentes, o álbum chegou às plataformas em 24 de julho com nove faixas que equilibram familiaridade e experimentação. Ainda há riffs marcantes e guitarras entrelaçadas, mas agora elas convivem com atmosferas mais densas, estruturas menos previsíveis e um tratamento vocal que certamente dividirá opiniões.

Julian Casablancas durante o primeiro fim de semana do Coachella 2026. Foto: 
Amy Harris/Invision/AP

Desde os primeiros minutos, Reality Awaits deixa claro que não pretende oferecer uma continuação espiritual de Room on Fire ou repetir fórmulas conhecidas. Existe uma atmosfera noturna e quase hipnótica permeando o disco, resultado da combinação entre o entrosamento instrumental dos Strokes e a estética mais experimental que Julian Casablancas vem desenvolvendo com o The Voidz.

A abertura com Psycho Shit já rompe qualquer expectativa de um começo explosivo. A faixa aposta em uma construção lenta, baseada na tensão e em uma sensação constante de estranhamento, funcionando quase como um prólogo para o restante do álbum.

Em seguida, Dine N’Dash mostra a banda em sua forma mais inspirada. As guitarras de Nick Valensi e Albert Hammond Jr. voltam a dialogar com precisão, criando melodias que se complementam sem disputar espaço. É uma música que lembra por que os Strokes continuam sendo uma referência quando o assunto é construir riffs aparentemente simples, mas extremamente eficientes. A produção limpa de Rubin permite que cada instrumento respire, valorizando pequenos detalhes dos arranjos.

É justamente quando o disco desacelera e explora essas atmosferas que ele encontra seus melhores momentos. No entanto, também é aí que surge sua decisão mais controversa.

O uso intenso de processamento na voz de Julian Casablancas deixa de ser um recurso pontual para se tornar parte central da identidade sonora do álbum. Em diversos momentos, os efeitos ajudam a reforçar o clima artificial e melancólico das composições, transformando a voz em mais uma camada da instrumentação, em vez de colocá-la no centro da narrativa.

Nem sempre, porém, essa escolha funciona.

Há canções que pediam uma interpretação mais direta e emocional, mas acabam perdendo parte de sua força sob camadas de efeitos. Não se trata de um problema técnico — a intenção artística é evidente, mas do fato de que, em alguns momentos, a estética parece falar mais alto do que a própria música.

Isso não compromete o conjunto, embora torne Reality Awaits um disco menos imediato do que seus antecessores.

O novo trabalho dos Strokes está longe de ser uma decepção. A banda continua demonstrando enorme competência instrumental, Rick Rubin entrega uma produção cuidadosa e o álbum reúne riffs, grooves e melodias suficientes para justificar sua existência dentro da discografia do grupo.

Ainda assim, trata-se de um trabalho que exige disposição do ouvinte. Sua identidade é tão específica que dificilmente haverá meio-termo: quem comprar a proposta encontrará uma banda em constante evolução; quem ainda espera uma repetição dos primeiros discos provavelmente sairá frustrado.

No fim das contas, Reality Awaits não busca oferecer respostas fáceis nem agradar à nostalgia. É um álbum que prefere correr riscos a revisitar fórmulas consagradas. Nem todas as escolhas dão certo, mas todas parecem nascer de uma inquietação artística genuína. E, para uma banda que poderia viver confortavelmente do próprio passado, talvez esse seja seu maior mérito.

Capa do álbum Reality Awaits, novo disco do The Strokes, analisado em review da Moodgate.
The Strokes – Reality Awaits
7.4