Jão – Memórias Póstumas

Jão em foto promocional da era Memórias Póstumas, álbum que será apresentado em show no Nubank Parque, em São Paulo.
Jão estreia ao vivo o repertório de Memórias Póstumas em apresentação única no Nubank Parque, em setembro.
6.5

Em julho deste ano, Jão lançou seu quinto álbum de estúdio, Memórias Póstumas, um projeto que promete uma fase mais madura e emotiva do artista, trazendo à tona temas como o luto e o amor. Em uma carreira meteórica, o anúncio do novo trabalho após três anos de hiato — seu último disco havia sido SUPER (2023) — veio em pleno horário nobre da Rede Globo, a maior emissora televisiva do país, o que também contribui para endossar a imagem que o cantor e compositor construiu em seus dez anos de carreira: a de alguém extremamente polido.

O início do álbum estabelece o ritmo de toda a obra. Com uma melodia que parece ficar em segundo plano, o foco de Jão são as composições das letras, que, contudo, encontram um grave obstáculo em criações limítrofes do artista. Enquanto discorre sobre o luto, os versos “O dia em que meu pai partiu, alguém nasceu, na hora em que tudo aconteceu, a padaria serviu pães, o hospital fez mães, alguém me disse adeus” são cantados.

Qualquer um que já tenha sido acometido por uma terrível perda sabe que uma das mais difíceis experiências é precisar lidar com questões cotidianas enquanto a dor nos corrói internamente. A pobreza lírica, contudo, fica aquém do esperado, com uma rima pouco inventiva e alusões simples demais para dizer o mínimo. O tom cômico não é proposital e, portanto, parece uma piada de péssimo gosto devido à tratativa do trabalho como um todo. 

Esse, inclusive, é um problema encontrado em todo o disco, que confronta o ouvinte com diversas frases interrompidas ou com conclusões pífias. Se feito da maneira correta, uma tentativa deste calibre pode demonstrar o fluxo criativo de um artista em sua forma mais pura. Aqui, parece simplesmente falta de repertório.

Com a recente morte do pai de Jão, era de se esperar que a temática aparecesse mais vezes ao longo do álbum, algo que, inclusive, é deixado a entender pelo título Memórias Póstumas, uma alusão a uma das maiores obras da literatura nacional, escrita por Machado de Assis, e que conta os casos e causos da vida de Brás Cubas, um narrador que já se encontra em outro plano astral. 

No livro, Brás Cubas discorre sobre uma vida em que tentou se destacar na política, na ciência e na sociedade, e que, ao tentar abraçar o mundo, acaba por não conseguir nada realmente significativo. No entanto, Brás Cubas não se vê como um homem comum ou insignificante. Pelo contrário: ele frequentemente demonstra um senso de superioridade intelectual e social, acreditando possuir uma inteligência e uma lucidez superiores às de outras pessoas.

Talvez o ponto de autocrítica alcançado pelo narrador-personagem — com a famosa conclusão da obra literária, “não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria” — falte um pouco ao artista que lhe fez uma homenagem 145 anos depois. A forma como Jão trata a própria carreira é, na verdade, muito parecida, expondo-se, mas nunca completamente. Como quem admite fracassos, mas não deixa de preservar o próprio orgulho.

As demais letras retomam a uma temática já tratada à exaustão por ele mesmo: relacionamentos amorosos. E aqui, esbarramos novamente no problema que Brás Cubas enfrentou ao longo de sua vida, já que a sensação de intimidade criada pelo cantor é meticulosamente calculada, subestimando a capacidade do ouvinte ao fabricar uma intimidade que soa forçada.

Melodicamente, o disco se ancora em referências bastante reconhecíveis, como Tribalistas, Kid Abelha, o pop rock nacional dos anos 1980 e alguns elementos de MPB. Embora essas influências tornem a audição inicialmente agradável, elas acabam sendo exploradas de maneira pouco variada, fazendo com que os 51 minutos de duração pesem mais do que deveriam. Entre as exceções está Jabuticabeira, que chama atenção (melódica, não liricamente) justamente por dialogar de forma bastante evidente com a estética do Kid Abelha — o que, confesso, pode ter conquistado esta crítica com alguma facilidade. 

Porém, nem apenas de pontos negativos vive esta resenha. Algo a se destacar é a postura do artista em relação à própria carreira, como dito anteriormente, extremamente polida. Com eras muito bem delimitadas, algo importado à perfeição de carreiras pop internacionais, Jão tem um cuidado especial com as representações visuais de seu trabalho, algo que pode ser muito bem observado no clipe de Catedral, o único lançado até então, que conta com fotografia ímpar, ângulos interessantes e uma riqueza de detalhes louvável.

Levando em consideração que essa atenção aos detalhes também é evocada no palco, fica um pouco mais fácil de compreender como seus shows estão sempre lotando estádios de grande expressividade, arrastando multidões para entoar letras que grudam fácil na cabeça, seja pelos motivos certos ou errados.

No fim, Memórias Póstumas é um álbum que parece mais interessado em controlar a forma como será lembrado do que em se permitir ser verdadeiramente vulnerável. Há talento, apuro estético e uma identidade visual cuidadosamente construída, características que consolidam Jão como um dos artistas pop mais relevantes de sua geração. Falta, porém, a disposição de levar suas próprias contradições até as últimas consequências.

Se Machado de Assis utilizou Brás Cubas para desnudar a vaidade e a incapacidade humana de escapar da própria mediocridade, Jão parece apenas flertar com esse exercício de autocrítica, sem jamais atravessá-lo por completo. O resultado é um disco bonito, competente e facilmente consumível, mas que, ao prometer profundidade, acaba deixando a sensação de que há muito mais pose do que memória em suas páginas.

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