Poucos grupos conseguiram sobreviver às mudanças da indústria musical. Menos ainda conseguiram liderá-las. Mas o Black Eyed Peas fez as duas coisas.
Quando se fala na banda formada por will.i.am, apl.de.ap, Taboo e, posteriormente, Fergie, a memória coletiva costuma recorrer imediatamente a I Gotta Feeling, Boom Boom Pow, Meet Me Halfway — ou Where is Love para os mais antigos.
Mas reduzir a trajetória aos hits seria ignorar um dos movimentos mais interessantes da música pop dos últimos trinta anos. Afinal, antes de dominar pistas de dança e festivais, o Black Eyed Peas era um grupo de hip-hop alternativo. E, anos depois, quando o pop parecia saturado, foi justamente ele quem ajudou a definir a sonoridade da era digital.
A história do grupo pode ser dividida em dois atos completamente diferentes e igualmente influentes.
Antes do fenômeno pop, o hip-hop
A origem do Black Eyed Peas remonta ao início dos anos 1990, quando will.i.am e apl.de.ap integravam o Atban Klann, projeto lançado pela gravadora de Eazy-E. Após a morte do rapper, a dupla reformulou completamente a proposta artística, convidou Taboo e passou a explorar um hip-hop mais orgânico, influenciado por jazz, soul e funk. Nascia, em 1995, o Black Eyed Peas.
Os dois primeiros álbuns — Behind the Front (1998) e Bridging the Gap (2000) — eram quase uma resposta ao gangsta rap que dominava o mercado norte-americano. Enquanto boa parte da cena apostava em narrativas violentas, o trio preferia falar sobre comunidade, identidade e positividade, acompanhado por instrumentais vivos e uma estética mais próxima do hip-hop consciente.
Comercialmente, os resultados foram discretos, mas esses discos estabeleceram a identidade criativa que continuaria acompanhando o grupo mesmo durante sua fase mais pop.
A chegada de Fergie e a guinada para o pop
Em 2002, a entrada de Stacy Ferguson, a Fergie, representou muito mais do que a inclusão de uma nova integrante, já que ela alterou completamente a dinâmica do grupo.
Sua presença trouxe refrões mais fortes, maior apelo melódico e uma identidade visual muito mais marcante. O resultado apareceu imediatamente em Elephunk (2003), álbum que transformou o Black Eyed Peas em um nome global graças a faixas como Where Is the Love?, Shut Up e Let’s Get It Started.
Where Is the Love? talvez seja o melhor exemplo dessa primeira reinvenção. A música manteve elementos do rap, mas foi construída para dialogar com o grande público. Em um período marcado pelas consequências do 11 de Setembro, sua mensagem pacifista encontrou ressonância mundial e provou que era possível fazer música comercial sem abandonar completamente o discurso social.
Foi aí que o Black Eyed Peas deixou de ser só uma banda de hip-hop e passou a virar um fenômeno pop.
Monkey Business: quando a fórmula ficou irresistível
Se Elephunk abriu as portas, Monkey Business (2005) terminou de as escancar.
My Humps, Pump It, Don’t Phunk with My Heart e Don’t Lie dominaram rádios, programas de televisão, comerciais e festas durante anos. Era praticamente impossível atravessar a metade da década de 2000 sem ouvir alguma música do grupo.
O segredo estava justamente na mistura, com hip-hop, funk, rock, música latina, dance, pop e R&B convivendo no mesmo álbum sem parecer um experimento forçado. Essa capacidade de absorver referências de diferentes estilos seria determinante para a segunda transformação do grupo.
A segunda reinvenção: o pop + música eletrônica
No final dos anos 2000, a indústria passava por outra mudança radical. O consumo migrava para o digital e DJs começavam a ocupar o espaço antes reservado às bandas. O Black Eyed Peas percebeu esse movimento antes de boa parte do mercado.
Em 2009, lançou The E.N.D. (The Energy Never Dies), um álbum que praticamente antecipou o domínio da EDM sobre o pop internacional.
Boom Boom Pow soava futurista para a época. I Gotta Feeling, produzida em parceria com David Guetta, transformou-se em um dos maiores hinos festivos do século XXI, permanecendo por 14 semanas no topo da Billboard Hot 100. Logo depois vieram Meet Me Halfway, Rock That Body e Imma Be, consolidando um disco que parecia prever como o pop soaria durante toda a década seguinte.
A influência desse álbum é difícil de medir justamente porque ela se tornou invisível. Depois dele, praticamente toda grande estrela pop passou a incorporar sintetizadores mais agressivos, batidas eletrônicas e refrões construídos para arenas e festivais. O Black Eyed Peas não apenas acompanhou uma tendência, mas ajudou a criá-la.
O início do fim
The Beginning (2010) tentou ampliar essa fórmula, mas o impacto já não era o mesmo. Embora tenha produzido sucessos como The Time (Dirty Bit) e Just Can’t Get Enough, o álbum evidenciava que a fórmula eletrônica começava a se repetir. Pouco depois, o grupo entrou em hiato, enquanto Fergie passou a dedicar sua carreira a projetos solo.
Quando retornaram, em 2018, já sem Fergie, a escolha foi surpreendente: abandonar quase completamente o pop dançante e revisitar as próprias raízes no hip-hop com Masters of the Sun Vol. 1. Mais tarde, os discos Translation (2020) e Elevation (2022) encontraram outro caminho ao incorporar reggaeton, afrobeat e música latina, mostrando que a inquietação artística continuava sendo parte essencial da identidade do grupo.
Um legado que vai além dos números
O Black Eyed Peas vendeu dezenas de milhões de discos, conquistou múltiplos Grammys e acumulou uma sequência impressionante de singles número um. Mas seu maior legado talvez seja outro.
Poucos artistas conseguiram traduzir as mudanças culturais do início dos anos 2000 com tanta precisão. O grupo atravessou a transição entre o CD e o streaming, entre o hip-hop underground e o pop global, entre a música feita para rádio e a música pensada para algoritmos, sempre encontrando uma maneira de permanecer relevante.
Enquanto muitos artistas ficam presos à nostalgia de uma única fase, o Black Eyed Peas construiu uma carreira baseada justamente na capacidade de mudar. Primeiro, mostrou que o hip-hop podia dialogar com o pop sem perder totalmente sua identidade. Depois, ajudou a transformar a música eletrônica em linguagem universal dentro do mainstream.
Poucas bandas reinventaram o pop. Mais raro ainda é encontrar uma que tenha conseguido fazer isso duas vezes.
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