Continental ganhou seu primeiro grande encontro com o público de São Paulo no dia 23 de agosto. No Cine Joia, o Black Pantera apresentou na íntegra seu quinto álbum de estúdio em um show que reforçou a força conquistada pelo trio dentro da cena do metal.
Cerca de duas horas antes do início da apresentação, já era possível ver dezenas de fãs vestindo camisetas com os dizeres “fogo nos racistas” circulando pela casa. Quando a banda subiu ao palco e entoou Hórus, os gritos fizeram vibrar o chão do antigo cinema no centro paulistano.
As rodas se abriram nos primeiros instantes e seguiram até o fim. Também não demorou para que diversas pessoas começassem a subir no palco para se jogar de volta à plateia. “Eita, acho que doeu ali”, brincou Charles Gama depois de um pulo meio torto de um dos fãs. A euforia da pista encontrava a mesma energia no palco.
Durante Quando Canto, gravada em parceria com Sandra Sá, a atmosfera mudou. A faixa reforça a ancestralidade e a resistência presentes na identidade do Black Pantera e encontrou conexão em uma plateia formada por muitos fãs negros, que enxergam no trio uma representatividade ainda pouco presente no metal brasileiro.



Continental foi tocado na íntegra e apresentou ao vivo alguns dos caminhos escolhidos pelo Black Pantera para essa nova fase. Com mais participações do que nos trabalhos anteriores, o álbum reúne, além de Sandra Sá, Chico César, Duquesa e Derrick Green, do Sepultura. Artistas negros de diferentes gerações e universos musicais que ampliam o discurso do trio sobre racismo e desigualdade social.
Mesmo com pouco tempo desde o lançamento, as novas músicas encontraram um público que já conhecia boa parte das letras. Em Start The Game, por exemplo, a roda tomou grande parte da pista enquanto as vozes dos músicos se misturavam às dos fãs.
“Start The Game” começa aqui, mas o jogo já começou há um tempão pra galera. 🔥🔥🔥
— Moodgate ⚡️ (@Moodgate_) August 23, 2026
🎬: Gabriella Tiscoski pic.twitter.com/dFo7SMUxW0
E de roda o Black Pantera entende bem. A tradicional “roda das minas”, um mosh pit dedicado às mulheres, voltou a ocupar espaço no show. O momento carrega parte do discurso construído pelo trio ao longo dos anos, ao criar dentro de um ambiente historicamente masculino um espaço para que mulheres também possam participar da intensidade da pista.
Apesar do foco no novo álbum, músicas de outros momentos da carreira também apareceram no repertório. Fogo Nos Racistas, estampada em tantas camisetas antes mesmo de o show começar, tornou-se um dos pontos altos da noite.



A cena ajudou a dimensionar a relação construída pelo Black Pantera com seus fãs. Uma frase que circulava pela casa antes do primeiro acorde voltou horas depois nas vozes da plateia, mostrando como o discurso presente nas músicas ultrapassou o palco e passou a fazer parte da identidade de quem acompanha o grupo.
Sem abandonar a fúria presente nas letras e nas vozes, Continental também traz momentos melódicos que já apareciam em trabalhos anteriores e agora ganham mais espaço. Ao vivo, esse contraste amplia as possibilidades do repertório sem romper com aquilo que o Black Pantera construiu até aqui.
Com coerência no discurso e uma sonoridade em expansão, o trio usa Continental para olhar para um Brasil que carrega no próprio tamanho uma diversidade de culturas, histórias e identidades. No Cine Joia, essa nova fase encontrou uma plateia pronta para recebê-la.


