Enquanto boa parte da música pop acompanha tendências que mudam a cada semana, Laufey encontrou espaço justamente olhando para o passado. Inspirada pelo jazz, pela música clássica e pela estética das décadas de 1940 e 1950, a cantora transformou referências tradicionais em uma linguagem contemporânea, conquistando milhões de fãs ao redor do mundo. Mais do que uma escolha visual, essa identidade se tornou o principal elemento da construção de sua carreira.
Nascida na Islândia e descendente de chineses, Laufey cresceu cercada pela música. Sua mãe é violinista clássica e seu avô materno, Lin Yaoji, foi um dos mais importantes professores de violino da China. Ainda adolescente, integrou a Orquestra Sinfônica da Islândia, experiência que fortaleceu sua formação musical. Violoncelista e pianista, a artista levou essa base para suas composições e desenvolveu uma sonoridade que transita entre diferentes gêneros sem perder personalidade.
Essa combinação aparece em praticamente toda a sua obra. Ao misturar jazz, música clássica, pop e influências da bossa nova, Laufey desenvolveu um estilo próprio. Ao mesmo tempo, sua identidade visual, marcada por vestidos delicados, fotografia com aparência analógica e referências ao glamour das décadas de 1940 e 1950, ajudou a consolidar uma imagem imediatamente reconhecível.

Das redes sociais ao reconhecimento internacional
Embora sua proposta artística dialogue com o passado, foi nas plataformas digitais que sua carreira encontrou projeção. Desde o início, Laufey compartilhou vídeos interpretando músicas autorais e versões de clássicos nas redes sociais. Pouco depois, conquistou um público interessado em uma proposta diferente do pop convencional.
O lançamento do EP Typical of Me ampliou sua visibilidade. Além disso, chamou a atenção de artistas da nova geração, como Billie Eilish, e abriu caminho para uma ascensão internacional.
Em entrevistas, a cantora afirma que as redes sociais foram fundamentais para encontrar ouvintes que se identificavam com sua música. Ainda assim, ressalta que nunca criou pensando em algoritmos ou tendências. Pelo contrário, seu objetivo sempre foi preservar a sinceridade das composições e seguir a inspiração de artistas como Ella Fitzgerald, que construíam suas obras a partir da expressão artística, e não de fórmulas comerciais.
Uma artista que aproximou o jazz da Geração Z
Essa autenticidade também explica a forte conexão de Laufey com a Geração Z. Suas músicas exploram sentimentos universais, como insegurança, paixão e amadurecimento, por meio de letras intimistas e arranjos sofisticados. Dessa forma, a cantora aproximou gêneros tradicionalmente associados a públicos mais antigos de uma geração acostumada ao consumo rápido de conteúdo digital.
Sua linguagem visual reforça essa proposta. Videoclipes com atmosfera cinematográfica, figurinos inspirados em décadas passadas e capas de álbuns com referências clássicas ampliam a experiência criada por sua música. Em vez de apenas reproduzir o passado, Laufey utiliza essas influências para construir uma narrativa própria.

O sucesso de Bewitched
Os resultados aparecem tanto na recepção do público quanto nos números. Laufey acumula bilhões de reproduções nas plataformas de streaming e venceu o Grammy de Melhor Álbum Vocal Pop Tradicional com Bewitched. Além disso, entrou para a lista Forbes 30 Under 30 e foi reconhecida pela revista TIME entre as Mulheres do Ano.
Sua trajetória demonstra que propostas musicais diferentes ainda encontram espaço na indústria quando são acompanhadas de autenticidade e consistência artística.
A influência da bossa nova
A relação de Laufey com a música brasileira também faz parte dessa construção. Durante sua passagem pelo Brasil, em 2023, a cantora contou que cresceu ouvindo bossa nova por influência do pai e explicou como o gênero transformou sua percepção sobre composição.
“Eu cresci ouvindo bossa nova, porque meu pai amava. Eu sou violoncelista, é um instrumento um tanto dramático, e quando conheci o gênero, era como se fosse o meu oposto. Tudo era minimalista, mas ainda assim belo. Você pode contar uma boa história através da música e com sons menos dramáticos.”
Entre suas principais referências está Astrud Gilberto, uma das vozes mais importantes da bossa nova. Essa influência aparece na maneira como Laufey valoriza melodias suaves, interpretações delicadas e composições centradas na emoção.
Um novo capítulo com A Matter of Time
Em 2025, Laufey iniciou uma nova fase da carreira com o lançamento de A Matter of Time, seu terceiro álbum de estúdio. O trabalho amplia sua exploração entre diferentes gêneros sem abandonar a delicadeza que se tornou uma das principais características de sua obra.
Ao longo do disco, a cantora demonstra uma postura mais madura e amplia seu universo criativo, sem abrir mão da identidade construída desde os primeiros lançamentos.
O retorno ao Brasil
Após sua passagem pelo Brasil em 2023, Laufey retorna ao país em um novo momento da carreira. A cantora se apresenta no Palco Sunset do Rock in Rio 2026, no dia 7 de setembro. Além disso, fará um show solo no Espaço Unimed, em São Paulo, no dia 9 de setembro.
Essas apresentações representam uma oportunidade para o público brasileiro acompanhar de perto a evolução artística de uma das vozes mais interessantes da música contemporânea.
A nostalgia como linguagem contemporânea
Em um momento em que a velocidade costuma ditar o sucesso na indústria musical, Laufey prova justamente o contrário. Ao revisitar o jazz, a música clássica e a bossa nova com uma linguagem contemporânea, a cantora construiu uma identidade artística singular e aproximou novas gerações de sonoridades que pareciam restritas ao passado.
Mais do que resgatar referências vintage, Laufey mostra que tradição e inovação podem caminhar juntas quando existe uma visão artística consistente. É justamente esse equilíbrio que transformou a cantora em um dos fenômenos mais originais da música atual.


